Reservas estratégicas de petróleo aliviam o impacto da guerra no Irã, mas não muito

Ano VII, nº 121, 26 de março de 2026

 

Por Ana Carolina Chida Lorca, Isabela Pereira de Oliveira, Lucas Santiago Portari, Nicolás Alejandro Malinovsky e Robson Araujo Silva* (Imagem: Unsplash)

 

As reservas estratégicas de petróleo constituem mecanismo importante para a segurança energética dos países consumidores e para o controle de preços a nível global. Mas até que ponto as reservas estratégicas conseguem, de fato, atenuar os efeitos da guerra ao Irã sobre os preços internacionais do petróleo? A partir da análise histórica da formação das reservas estratégicas, de sua utilização em períodos de crise e dos efeitos do atual conflito, o artigo debaterá esta questão.

 

Como consequência do bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã (ver artigo do OPEB, de 12/03, “Rotas Energéticas e Disputas Geopolíticas”), as exportações de petróleo e derivados despencaram para menos de 10% dos níveis pré-conflito. Assim, os 32 países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) reagiram disponibilizando 426 milhões de barris (MB) de petróleo de suas reservas estratégicas de emergência ao mercado internacional, com vistas a evitar interrupções no fornecimento. Nesse contexto, Fatih Birol, diretor executivo da AIE, declarou “os desafios que enfrentamos no mercado de petróleo são de magnitude sem precedentes. Por isso estou extremamente satisfeito que os países membros da AIE tenham respondido com uma ação coletiva de emergência de alcance sem precedentes” (IEA, 2026).

 

Os EUA estão liderando o movimento, com a liberação de 43% do total de suas reservas estimadas em 415 MB (SPR, 2026). O modelo adotado pelo Departamento de Energia dos EUA (DOE, 2026) não é de venda, mas sim de troca: as empresas petrolíferas recebem o petróleo e comprometem-se a devolvê-lo futuramente com um prêmio em barris, mantendo, deste modo, o nível de suas reservas estratégicas no longo prazo. O movimento é importante para o governo republicano, pois o prolongamento da crise pode se traduzir em derrota nas eleições de meio de mandato devido ao impacto generalizado do aumento dos preços de petróleo sobre a inflação.

 

A criação das reservas estratégicas de emergência

 

A liberação das reservas estratégicas na atual crise ocorre em meio a uma das maiores interrupções no fornecimento de petróleo da história do mercado global. Longe de ser uma reação improvisada, trata-se da ativação de um mecanismo construído justamente para momentos em que o risco de desabastecimento eleva os preços. Esse tipo de ação coletiva tampouco é inédito. Desde sua criação, em 1974, a AIE coordenou intervenções semelhantes em cinco ocasiões anteriores a esta: 1991 (Guerra do Golfo), 2005 (quando o furacão Katrina causou graves danos a refinarias e plataformas no Golfo do México), 2011 (guerra civil na Líbia) e duas vezes em 2022 (conflito Rússia-Ucrânia). Para entender seu alcance, é preciso voltar à origem desse instrumento (IEA, 2026).

 

A ideia de reservas estratégicas de petróleo se consolidou após o primeiro Choque do Petróleo de 1973, quando o embargo liderado por integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) provocou escassez e forte aumento de preços, expondo a vulnerabilidade dos países importadores. Até então, não havia estoques organizados com finalidade de segurança energética, mas sim, estoques de caráter comercial, mantidos por empresas e que se mostraram insuficientes para responder a choques geopolíticos dessa magnitude.

 

A coordenação coletiva surgiu com a criação da AIE dentro do sistema da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 1974, a partir da qual os países membros passaram a manter estoques equivalentes a pelo menos 90 dias de importações líquidas e a prever liberações coordenadas em momentos de crise, como ocorre na atualidade. Esse arranjo consolida o petróleo como uma questão de segurança internacional, e não apenas de mercado. O objetivo é promover a segurança energética e evitar uma disparada dos preços. Como exemplo, em 1975, os Estados Unidos criaram sua Reserva Estratégica de Petróleo (SPR), institucionalizando esse tipo de instrumento (ENERGY, 2026).

 

Com a transformação no cenário energético global, países como China, Índia e Brasil passaram a desenvolver estratégias próprias de segurança energética. A China estruturou reservas estratégicas desde a década de 2000, com a construção de bases de armazenamento sob controle estatal e a expansão contínua de sua capacidade ao longo das últimas décadas. No contexto do bloqueio do Estreito de Ormuz, Rush Doshi, diretor da China Strategy Initiative no Council on Foreign Relations, dos EUA, afirmou que o país mantinha cerca de 1,2 bilhão de barris de petróleo armazenados no mês de janeiro, o equivalente a três a quatro meses de consumo, o que contribui para retardar os impactos econômicos de choques no mercado internacional (Redação CNBC, 2026).

 

A Índia também desenvolveu suas reservas no mesmo período que a China, ampliando-as em resposta ao crescimento acelerado da demanda. Em 11 de março de 2026, o governo indiano afirmou estar preparado para apoiar a estabilidade do mercado global em coordenação com a AIE, sem detalhar os instrumentos a serem utilizados. Entretanto, as reservas estratégicas da Índia aparentam ser limitadas, correspondendo a cerca de 9,5 milhões de barris, o equivalente a pouco mais de uma semana de consumo, e, mesmo somadas aos estoques comerciais, ficam abaixo do patamar de 90 dias recomendado pela agência (The Sunday Guardian, 2026).

 

O Brasil, embora seja um produtor relevante, não estruturou reservas estratégicas formais, mantendo estoques majoritariamente comerciais. Atualmente, o debate sobre a criação de um estoque regulador ganhou força, expondo uma vulnerabilidade estrutural, especialmente pela dependência de importações de cerca de 30% do diesel consumido. A medida foi defendida pelo presidente Lula durante evento da Petrobras  (Agência Brasil, 2026).

 

Os impactos econômicos da guerra ao Irã

 

Sobre o aumento cada vez mais crítico dos preços do petróleo, é fundamental apontar o fato de que o bloqueio do Estreito de Ormuz não sinaliza apenas um cenário de falta de petróleo por escassez, mas também de disputa geopolítica. A região representa o ponto de passagem mais crítico no sistema global de energia. Em condições normais, cerca de 20 milhões de barris de petróleo (20% de toda a movimentação global do insumo) transitam diariamente pelo estreito para suprir as demandas dos países importadores. Além da comercialização de petróleo e gás natural para Ásia e Europa, o bloqueio em Ormuz interfere em outras rotas comerciais, como a dos fertilizantes exportados pelo Oriente Médio. 

 

A dimensão geopolítica decorre do fato de que a disparada dos preços é consequência da ofensiva militar dos EUA e de Israel contra o Irã. Como resposta, o governo iraniano vem realizando um bloqueio militar no Estreito de Ormuz. Tal decisão está provocando um aumento de incerteza no mercado global da energia, não necessariamente pela falta de petróleo, e sim pela insegurança sobre o abastecimento via Ormuz, diante da falta de rotas alternativas.

 

Tal sequência de fatos configurou um cenário de alta especulativa nos preços do petróleo. Se em janeiro de 2026 o preço estava na casa dos US$60 por barril, o valor disparou para US$91,6 em 6 de março, atingindo um pico de US$120 no dia 19 de março. Isso causou impactos diretos nos custos do transporte e nas taxas de frete, pressionando por sua vez os preços dos  alimentos.  Paralelamente, as movimentações das próprias empresas petrolíferas, como ExxonMobil e Chevron, atuam no sentido de extrair maiores lucros, agravando ainda mais a alta nos preços. 

 

Sob a ótica dos governos, várias foram as ações no intuito de mitigar o impacto dos preços dos combustíveis. No caso dos EUA, apesar de sua autossuficiência proveniente do petróleo do xisto, os preços continuam a subir por conta da precificação se dar a partir do comércio internacional. No cenário doméstico, a partir de 18 de março, o governo Trump suspendeu por 60 dias o “Jones Act”, afrouxando os requerimentos jurídicos necessários e buscando baratear o transporte de petróleo e fertilizantes entre os portos no território estadunidense. O aumento dos preços internacionais do petróleo bruto atua como incentivo para a expansão da produção nos EUA, consolidando seu papel como produtor de equilíbrio do sistema. Em linha com essas projeções, espera-se que a produção dos EUA atinja uma média de 13,6 milhões de barris por dia em 2026 e aumente para 13,8 milhões em 2027.

 

No Brasil, o governo federal zerou as alíquotas de PIS/Cofins incidentes sobre o diesel, eliminando os dois impostos federais atualmente cobrados sobre o combustível.

 

A utilização das reservas estratégicas

 

Atualmente, os membros da AIE mantêm reservas de emergência de mais de 1,2 bilhão de barris, além de outros 600 milhões de barris de estoques industriais sob obrigação governamental. Com a liberação a partir da segunda semana de março de 2026, os 32 países-membros da agência concordaram por unanimidade em disponibilizar ao mercado 426 milhões de barris de suas reservas estratégicas (IEA, 2026).  

 

A tabela a seguir mostra a distribuição da origem dos recursos disponibilizados (em MB) para a liberação de reservas:

País

Total da Contribuição

Origem da Contribuição

Tipo de Produto

Estoque público    

Estoque obrigatório da indústria    

Aumento da produção    

Petróleo bruto

Derivados de petróleo

Austrália

4,8

4,8

4,8

Áustria

2,4

2,4

2,4

Bélgica 

0,3

detalhes ainda não disponíveis

Canadá

23,6

23,6

23,6

República Tcheca

2,2

2,2

2,2

Dinamarca

1,2

1,2

1,2

Estônia

0,3

0,3

0,3

Finlândia

1,8

detalhes ainda não disponíveis

França

14,6

detalhes ainda não disponíveis

Alemanha

19,5

19,5

detalhes ainda não disponíveis

Grécia

2,0

detalhes ainda não disponíveis

Hungria

6,1

6,1

6,1

Irlanda

1,7

1,7

0,2

1,5

Itália

10,0

10,0

10,0

Japão

79,8

54,0

25,8

54,0

25,8

Coreia

22,5

detalhes ainda não disponíveis

Letônia

0,3

detalhes ainda não disponíveis

Lituânia

0,6

0,6

0,6

Luxemburgo

0,1

0,1

0,1

México

3,9

3,9

3,9

Países Baixos

5,4

detalhes ainda não disponíveis

Nova Zelândia

1,6

1,6

1,3

0,3

Noruega

0,4

0,4

0,4

Polônia

7,5

7,5

6,0

1,5

Portugal

2,0

2,0

2,0

Espanha

11,6

11,6

11,6

Suécia

2,1

2,1

2,1

Turquia

11,7

11,7

3,6

8,1

Reino Unido

14,0

14,0

4,3

9,7

Estados Unidos

172,2

172,2

172,2

Total IEA

426

280

119

28

301

125

Fonte: AIE (2026).

Os EUA são de longe os maiores contribuintes. Suas reservas estratégicas são constituídas por cavernas de sal na Louisiana e no Texas com capacidade total para armazenar até 715 milhões de barris, com ocupação atual próxima a 60% (FT, 2026). Em seu discurso de posse em 2025, o presidente Donald Trump havia manifestado o interesse em preencher as reservas ao máximo da capacidade (Congresso EUA, 2025), o que não foi realizado. Atualmente, o país possui reservas estimadas em 415 milhões de barris e, ao liderar a disponibilização de 172 milhões de barris, diminuirá em 41% seu estoque (SPR, 2026). Deste modo, os EUA diminuirão seu nível de reservas para cerca de 243 milhões de barris. 

 

Concretizando sua decisão, na sexta-feira dia 20 de março, os EUA liberaram 45,2 milhões de barris de petróleo para as empresas BP Products North America, Gunvor USA, Marathon Petroleum e Shell Trading. O mecanismo estabelece que as companhias devolverão esse mesmo volume com barris extras como prêmio. A estrutura de troca estabelece que as empresas paguem de 18% a 22% em petróleo sobre o total de petróleo emprestado, numa lógica similar à de um leilão onde quem fizer a melhor oferta ganha o contrato. A expectativa é de que o mecanismo adicione até 10 milhões de barris às reservas do país. Outras empresas que se beneficiaram do mecanismo são Energy Transfer Crude Marketing, Mercuria Energy America, Trafigura Trading e Vitol (Shakil e Gardner pela Reuters, 2026).

 

Contudo, a liberação das reservas pelos países da AIE teve recepção mista no mercado, pois o fornecimento de petróleo interrompido pela guerra é muito maior do que o volume que a agência tem capacidade de liberar. Considerando apenas a produção de Arábia Saudita, Kuwait, Iraque e Emirados Árabes Unidos, são 9 milhões de barris por dia que deixaram de circular a partir do Golfo Pérsico, enquanto a capacidade dos países da AIE seria de disponibilizar cerca de 2 milhões de barris diários de suas reservas estratégicas. Além disso, os membros da AIE podem decidir nos seus próprios termos o melhor momento para ativar o mecanismo, pois não se trata de uma ação coordenada (CNBC, 2026). 

 

Não surpreende, portanto, que a medida não gerou o impacto esperado na redução dos preços internacionais do petróleo. Além disso, a estratégia foi contrariada pelo ataque israelense ao campo de gás de South Pars, no Irã, logo em seguida, em 19 de março, o que provocou uma nova escalada nos preços do gás e do petróleo.

 

Fonte: elaboração própria com base em dados do Federal Reserve Bank of St. Louis.

 

O ataque a South Pars alterou substancialmente o cenário, uma vez que os danos podem ter efeitos de médio e longo prazo. Saad al-Kaabi, diretor executivo da QatarEnergy e ministro de Assuntos Energéticos do Catar, destacou que “duas das 14 usinas de GNL (Gás Natural Liquefeito) do Catar e uma de suas duas instalações de conversão de gás em líquidos foram danificadas nos ataques sem precedentes. Os reparos deixarão fora de serviço 12,8 milhões de toneladas anuais de GNL durante um período de três a cinco anos” (Reuters, 2026). As ações da AIE não possuem efeito algum sobre o mercado de gás (CNBC, 2026).

 

Conclusão

A crise desencadeada pelos ataques dos EUA e Israel ao Irã evidencia como a geopolítica da energia, que ainda tem o petróleo como seu elemento fundamental, permanece no centro das dinâmicas sistêmicas da economia e política global. O fechamento do Estreito de Ormuz gerou um choque imediato de oferta que rapidamente se disseminou por cadeias produtivas diversas, pressionando custos logísticos, inflação e expectativas de mercado. Nesse contexto, o mecanismo coordenado da AIE, com a liberação de aproximadamente 426 milhões de barris de petróleo, é um instrumento de resposta emergencial simbólica.

A liderança dos EUA na liberação de reservas estratégicas revela uma contradição estrutural. Ao mesmo tempo em que busca estabilizar os preços internacionais e mitigar riscos inflacionários domésticos sensíveis em contexto eleitoral, compromete a sustentabilidade de suas próprias reservas, mesmo com mecanismos de recomposição planejados. A experiência recente, comparável apenas ao uso intensivo promovido pelo governo Biden em 2022, demonstra que tais intervenções possuem eficácia limitada. Os preços permanecem elevados, impulsionados tanto por restrições físicas quanto por estratégias de maximização de lucros das grandes petroleiras, enquanto medidas como redução de impostos ou tentativas de controle inflacionário mostram-se paliativas. Dessa forma, evidenciam-se os limites estruturais dos usos das reservas estratégicas como instrumento de estabilização. Ainda que essenciais para amortecer choques de expectativas de curto prazo, sua utilização é constrangida por fatores legais, logísticos e até físicos (como o risco estrutural das cavernas de sal que armazenam o petróleo). Isoladamente, as reservas não conseguem neutralizar os efeitos sistêmicos de um conflito da magnitude do que ocorre no presente momento.

Assim, se os efeitos do uso das reservas estratégicas em atenuar os efeitos da guerra ao Irã sobre o fornecimento mundial de petróleo devem ser pequenos, a análise reforça que a estabilização duradoura do mercado petrolífero depende fundamentalmente da resolução do conflito. O fim dos ataques é condição necessária para a reabertura plena das rotas estratégicas, a reconstrução da infraestrutura energética e a normalização das expectativas de oferta. Mesmo nesse cenário, o processo será gradual, condicionado pelo tempo de recomposição produtiva e pela reconfiguração geopolítica resultante da guerra, indicando que os efeitos do conflito sobre o sistema energético global tendem a perdurar para além de seu encerramento formal.


* Agradecimentos aos professores Igor Fuser e Giorgio Romano Schutte.

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