Ano VII, nº 124, 07 de Maio de 2026
Ana Carolina Chida Lorca, Andressa Cunha, Isabella Loiola, Lucas Santiago Portari (Imagem: Nano Banana)
Mesmo sendo um grande produtor e exportador de petróleo, o Brasil não está imune aos choques externos. A dependência de preços internacionais, a necessidade de importação de derivados e insumos fazem com que o país seja também afetado pela crise energética provocada pela guerra dos EUA e Israel contra Irã.
A intensificação das tensões no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas energéticas do mundo, provocaram impactos imediatos na economia global e, consequentemente, no Brasil. Por essa passagem estratégica, localizada entre Irã e Omã, circula cerca de 20% de todo o petróleo comercializado internacionalmente, o que a torna um ponto sensível para o abastecimento energético mundial. Assim, qualquer interrupção no fluxo de petróleo na região gera incertezas e eleva rapidamente os preços da commodity no mercado internacional, dando lugar inclusive a todo tipo de especulação.
Esse aumento no preço do petróleo tem efeitos diretos sobre os combustíveis no Brasil. Mesmo sem depender significativamente do petróleo ou seus derivados que passa pelo Golfo Pérsico, o país segue a lógica de preços internacionais. Dessa forma, a elevação global dos preços encarece gasolina e diesel no mercado interno, pressionando custos logísticos e de transporte. Como consequência, ocorre um efeito em cadeia que impacta diversos setores da economia, elevando o custo de bens e serviços.
A inflação é um dos principais canais de transmissão dessa crise. O aumento dos combustíveis encarece o transporte de mercadorias, eleva o custo de produção e contribui para a alta generalizada de preços, afetando diretamente o poder de compra da população.
Além do uso energético, o petróleo também é fundamental para a produção de insumos não energéticos, como fertilizantes. A crise no Oriente Médio afeta o fornecimento e o preço dessas commodities, já que muitos fertilizantes dependem de derivados de petróleo e gás natural. Como o Brasil importa grande parte desses insumos, especialmente para o agronegócio, o encarecimento internacional impacta diretamente os custos de produção agrícola e, consequentemente, os preços dos alimentos .
O impacto do Estreito de Ormuz no Brasil não ocorre pela escassez física de petróleo, mas pela integração do país ao mercado internacional e pela sua vulnerabilidade às oscilações de preços.
A trajetória do refino brasileiro e seus impactos na vulnerabilidade energética
Desde a criação da Petrobrás, na década de 1950, refinarias foram construídas mesmo sem ter uma quantidade significativa de petróleo, buscando garantir o abastecimento interno e reduzir a dependência de derivados importados. A primeira grande refinaria da Petrobras (Presidente Bernardes), inaugurada em 1955, chegou a responder por cerca de metade do abastecimento nacional, evidenciando a centralidade do refino na estratégia energética brasileira. No período até 1980, a Petrobras construiu 12 refinarias, garantindo autossuficiência em derivados. Com a perspectiva de crescimento da demanda, o governo Lula iniciou, na década de 2000, um projeto ousado de ampliação da capacidade de refino, de pouco mais de 2 mbpd para 3,6 mbpd, o que não foi concluído a tempo. A partir de 2015, a rota foi alterada e iniciou-se uma política de desinvestimento no setor.
Além do mais, nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, 3 das 13 refinarias da Petrobras foram vendidas: Refinaria Landulpho Alves (RLAM); Refinaria Isaac Sabbá (Reman) e Refinaria Clara Camarão. Houve abertura do mercado e adoção do Preço de Paridade de Importação (PPI), alinhando os preços internos à fatores internacionais. Essas medidas diminuíram a participação estatal, deixaram os combustíveis brasileiros vulneráveis frente a crises internacionais e ampliaram a dependência externa.
Como resultado, mesmo sendo um grande produtor, o Brasil não possui capacidade de refino suficiente para atender a demanda interna, diferentemente de outros países como Estados Unidos e China que apresentam elevada capacidade de refino.
A partir de 2023 observa-se uma tentativa de reverter esse cenário. O governo Lula suspendeu privatizações e retomou os investimentos nas refinarias com o objetivo de ampliar a produção interna de modo a reduzir a dependência externa. Interromper o processo de venda dos ativos é uma das formas de ter controle público sobre um setor que é essencial para a soberania nacional.
Contudo, as mudanças anteriores ainda mostram sinais. Em um cenário de conflito no Oriente Médio, a dependência de importações torna o Brasil mais vulnerável à volatilidade internacional. O aumento dos preços do petróleo e possíveis interrupções de fornecimento impactam diretamente o custo dos combustíveis no país, consequentemente a inflação e a atividade econômica, pois a capacidade de resposta interna é limitada. Uma evidência desse problema é o preço do diesel S-10 em 2026. Entre 27 de fevereiro e 31 de março, enquanto a Petrobras manteve seu preço estável, refinarias privatizadas realizaram reajustes elevados, na de Maracaípe a alta foi de 83% em comparação com 12% na Petrobras.
Portanto, a atual exposição do país à crise não decorre da escassez de recursos, mas de um conjunto de decisões que diminuíram a capacidade de processá-los internamente e aumentaram sua fragilidade.
Entre a refinaria e a bomba: quem define o preço dos combustíveis?
No que se refere à distribuição, fase final da cadeia dos combustíveis, a Petrobras buscou não interferir nesse segmento quando criada em 1953, deixando o controle para empresas privadas, principalmente estrangeiras, sobretudo a estadunidense Exxon e a anglo-holandesa Shell.
Em 1971, durante o governo Médici e com Ernesto Geisel na presidência da Petrobras, ainda antes do primeiro choque do petróleo de 1973, foi criada com caráter concorrencial a subsidiária BR Distribuidora, que colocou a Petrobras na ponta da cadeia de combustíveis e logo se tornou uma das maiores empresas brasileiras, a maior distribuidora de derivados de petróleo do país 3 anos após sua criação em 1971.
Lamentavelmente, em 2016, com o golpe sofrido pela então presidente da república Dilma Rousseff, se iniciou a privatização de empresas de setores estratégicos do setor energético. O pontapé inicial foi a abertura de capital da BR Distribuidora na Bolsa de Valores em 2017. Naquele momento, 28,7% das ações foram vendidas por R$ 5 bilhões, representando uma privatização parcial da BR, cuja lógica era obrigá-la a agir como uma empresa privada, visando unicamente obter lucros para os acionistas e não a atender aos interesses do Estado brasileiro.
Já em 2019, ainda no seu primeiro ano de governo, o presidente Jair Bolsonaro, junto ao seu Ministro da Economia Paulo Guedes, completram a privatização da BR Distribuidora, sob um discurso de minimizar dívidas da Petrobrás, operação que arrecadou R$9,6 bilhões. As ações restantes foram vendidas pela Petrobras em 2021. Com base na venda de 2019, a Vibra energia, de capital privado, passou a ter o direito de usar por 10 anos a marca BR e a identidade visual da Petrobras, uma verdadeira enganação ao povo brasileiro, que acredita estar abastecendo em postos da Petrobras enquanto na verdade não tem alternativa a não ser dar seu dinheiro a empresas estrangeiras e acionistas de fundos de investimentos.
Hoje o preço do litro da gasolina ao sair de uma refinaria da Petrobras gira em torno de R$1,80, mas chega na bomba de combustíveis por aproximadamente R$6,77. A diferença é composta pelo custo do Etanol Anidro adicionado (14,2%), por impostos federais e estaduais (33,2%) e, como vimos, lucro das empresas no processo de distribuição e revenda (26%).
O mesmo ocorre com o gás de cozinha (GLP) após a privatização da outra subsidiária da Petrobras, a Liquigás, em 2020. Apesar do botijão sair da refinaria pelo valor de R$34,73, ele chega até a população com um preço médio de R$112,42, dos quais 17% corresponde ao Imposto por Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e 52,1%, aproximadamente R$58,58, ficam para empresas privadas de distribuição e revenda.
A privatização do setor de distribuição de uma cadeia estratégica como a de derivados tem como consequência a perda de controle da cadeia produtiva pela Petrobras e, consequentemente, uma menor capacidade de absorção da flutuação dos preços dos combustíveis no país em momentos de instabilidades geopolíticas nos grandes produtores de Petróleo, como na atual Guerra do Irã e dos Estados Unidos. Cresce a especulação e ficamos refém dos preços internacionais.
Respostas do governo à crise de Ormuz: entre subsídios e regulação
Numa esfera conjuntural, as reações tomadas pelo Governo Federal demonstram a forma pela qual o combate aos impactos econômicos do conflito em Ormuz vem sendo feito. Ao zerar as alíquotas do PIS (Programa de Integração Social) e do Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), o decreto presidencial de 13 de março de 2026 buscou aliviar não apenas os preços dos combustíveis, como também sanar uma pressão no encarecimento das próprias redes de alimentos. Isso porque, se há o intuito de redução no preço do diesel, nota-se ao mesmo tempo um aumento nos preços de fertilizantes, principalmente nitrogênio e fosfato.
Por se tratarem de commodities cujo acesso se dá quase que exclusivamente por importação (95% no caso do nitrogênio, e 70% no caso do fosfato), uma das consequências está na vulnerabilidade do governo brasileiro aos preços no mercado internacional: com o prolongamento das tensões no Oriente Médio, o preço médio de importação (FOB) em março de 2026 foi de US$382,6 por tonelada – o maior valor mensal desde maio de 2023, então precificado em U$400,9.
Como resposta ao comportamento oportunista de vários agentes privados, o Governo Federal decretou, em sua Medida Provisória n° 1.349, que “as distribuidoras de combustíveis deverão informar semanalmente a evolução de suas margens brutas de lucro obtidas na revenda aos postos de combustíveis”. O intuito está justamente em tornar transparente quais postos de fato repassam os benefícios dos subsídios até a ponta da cadeia, e quais se utilizam do decreto apenas para aumentar suas próprias margens de lucro. Ao mesmo tempo aumentou a fiscalização sobre postos e distribuidoras de combustíveis para verificar o aumento abusivo de preço aos consumidores e a formação de cartéis
Um ponto importante a ser considerado também diz respeito ao fato da Petrobrás, no exercício de 2025, ter recolhido R$277,6 bilhões na forma de tributos e participações, o que corresponde a aproximadamente 7% da arrecadação total do país no ano passado . Com isso em vista, o Governo Federal também busca se utilizar da alta de exportação em petróleo para converter receitas extras – provenientes de royalties e dividendos da Petrobras – no abatimento das próprias alíquotas do PIS/Cofins. Outra medida, muito contestada pelas empresas petrolíferas internacionais exportando petróleo brasileiro foi a instituição do imposto sobre exportação. A partir de março de 2026, o Governo Federal instituiu, via Medida Provisória (MP 1340/2026), um Imposto de Exportação de 12% sobre o petróleo bruto e 50% sobre o óleo diesel, válida até o fim do ano. A medida visa arrecadar fundos para subvenções ao diesel e controlar preços. A redistribuição desses ganhos extraordinários deve ajudar para suavizar os impactos da inflação, o intuito está em reduzir ao máximo os possíveis impactos nas contas públicas, tendo em vista a incerteza acerca do término do conflito entre EUA e Irã.
Conclusão
O fechamento do Estreito de Ormuz evidencia como a economia brasileira permanece profundamente ligada às dinâmicas do mercado internacional de energia. Mesmo sendo um país exportador de petróleo, o Brasil não está isolado das oscilações globais, pois os preços internos dos combustíveis seguem referências externas. Partes importantes dos limites para o governo e a Petrobras neutralizarem os preços devem-se a decisões políticas tomadas em governos anteriores, em particular à privatização da BR Distribuidora, da Liquigás e de três refinarias. Essa realidade dificultaa a absorção de choques externos, tornando os preços mais sensíveis à volatilidade internacional.
Dessa forma, choques geopolíticos em regiões estratégicas se traduzem rapidamente em aumento de custos domésticos, afetando tanto consumidores quanto setores produtivos. Os impactos mais imediatos se manifestaram no encarecimento dos combustíveis, que, por sua vez, pressionaram toda a cadeia econômica. O aumento dos custos de transporte e logística se espalha por diferentes setores, elevando preços de bens e serviços e contribuindo para a inflação. Esse efeito demonstra como o petróleo continua sendo um insumo central não apenas para a energia, mas para o funcionamento geral da economia.
Além disso, a crise reforça a vulnerabilidade estrutural do país em relação aos insumos estratégicos, como fertilizantes. A forte dependência de importações nesse setor amplia os efeitos indiretos do choque externo, especialmente sobre o agronegócio e os preços dos alimentos. Assim, o impacto do Estreito de Ormuz vai além dos combustíveis, atingindo também a segurança alimentar e o custo de vida da população.
Por fim, as medidas adotadas pelo governo indicam uma tentativa de mitigar esses efeitos no curto prazo, principalmente por meio de políticas fiscais e maior regulação do mercado. No entanto, o cenário revela a necessidade de estratégias de longo prazo que fortaleçam a autonomia energética nacional, ampliem a capacidade de refino e reduzam a dependência de insumos importados. Sem essas mudanças estruturais, o Brasil continuará suscetível a crises externas, mesmo dispondo de recursos energéticos abundantes.
Agradecimentos aos professores Igor Fuser e Giorgio Romano Schutte

