Ano VII, nº 124, 07 de Maio de 2026
Por: Ana Flávia Nunes Gabriel, Édina Maria Santos Silva, Luiz Gustavo Ferreira da Silva, Maria Clara Castro de Souza (Imagem:Saul Loeb/AFP)
Este artigo analisa a nova Estratégia de Segurança Nacional no governo Trump a partir do chamado Corolário Trump e de sua relação com a Doutrina Monroe. A argumentação fundamenta-se na trajetória histórica da política externa dos Estados Unidos e em suas práticas intervencionistas na América Latina, evidenciando a continuidade de padrões estratégicos e seus impactos na região.
Introdução
A política externa dos Estados Unidos, ao longo de sua trajetória histórica, revela notável continuidade em seus princípios estruturantes, ainda que se apresente sob diferentes formas conjunturais. Desde suas origens, marcadas pelo isolacionismo relativo e pelo unilateralismo pragmático, até sua consolidação como potência global no século XX, observa-se a permanência de uma lógica orientada à preservação da autonomia estratégica e à projeção de poder no sistema internacional. Tal orientação foi progressivamente legitimada por construções ideológicas como o excepcionalismo americano e institucionalizada por marcos como a Doutrina Monroe, que estabeleceram as bases da atuação hemisférica dos Estados Unidos e sua pretensão de liderança no continente americano. Nesse sentido, a política externa estadunidense não pode ser compreendida como uma sucessão de rupturas, mas como um processo de adaptação contínua a diferentes contextos históricos, mantendo, contudo, objetivos estruturais relativamente estáveis.
No contexto contemporâneo, especialmente sob a inflexão promovida pelo governo Donald Trump, essa tradição é reinterpretada à luz de um cenário internacional marcado pela multipolaridade e pela intensificação da competição entre grandes potências. A formulação de uma grande estratégia baseada no princípio “America First” expressa uma reconfiguração dos instrumentos e prioridades da ação externa norte-americana, sem, contudo, romper com sua lógica histórica de contenção e defesa de interesses nacionais. Nesse quadro, a América Latina reassume centralidade estratégica, sendo concebida não apenas como zona de influência, mas como espaço fundamental para a segurança nacional dos Estados Unidos, especialmente diante da crescente presença de atores extrarregionais, como a China . Assim, a análise da política externa estadunidense contemporânea exige compreender simultaneamente seus elementos de continuidade histórica e suas adaptações às transformações estruturais do sistema internacional.
Um Contexto Histórico: Dos Pais Fundadores ao Corolário Trump
O Governo Trump e o que se pode denominar de “Corolário Trump” configuram-se menos como uma ruptura e mais como uma reinterpretação de tradições históricas da política externa norte-americana. Tal continuidade pode ser compreendida a partir da formação dessa política, profundamente influenciada pelos chamados “pais fundadores” dos Estados Unidos, como George Washington e Thomas Jefferson. Nos primeiros 150 anos da história dos Estados Unidos, predomina uma orientação marcada por um relativo isolacionismo geopolítico e por tendências unilateralistas, na medida em que esses líderes defendiam que alianças permanentes com potências européias poderiam arrastar o país para conflitos e comprometer sua autonomia (PATERSON, 2018). Nesse sentido, o isolacionismo não significava um rompimento absoluto com o sistema internacional, mas sim a recusa de compromissos político-militares duradouros, ao passo que se preservavam relações comerciais externas (PATERSON, 2018). Assim, o unilateralismo manifesta-se na preferência por uma atuação internacional independente, sem submissão a alianças formais ou instituições multilaterais, sendo o que que fundamenta a política externa norte-americana atualmente.
Nesse contexto, o desenvolvimento da política externa estadunidense passa a ser sustentado por construções ideológicas mais amplas, como o excepcionalismo americano e a Doutrina Monroe. O excepcionalismo fundamenta-se na ideia de que os Estados Unidos constituem uma nação única, baseada em valores como liberdade individual, democracia representativa e direitos consagrados em sua Constituição, o que lhes atribuiria uma missão histórica no sistema internacional (PATERSON, 2018). Essa noção articula-se ao chamado “American Trust”, entendido como uma missão moral e política de servir como modelo para outras nações. Nesse sentido, tanto o isolacionismo inicial ,voltado à preservação interna, quanto as posteriores práticas de intervenção externa encontram justificativa nessa mesma matriz ideológica. A Doutrina Monroe, formulada em 1823, insere-se nesse processo ao estabelecer o princípio de “América para os americanos”, segundo o qual as potências europeias deveriam abster-se de intervir nos assuntos do Hemisfério Ocidental (PATERSON, 2018). Ao mesmo tempo em que rejeitava a interferência externa, a doutrina iniciava a consolidação dos Estados Unidos como potência hegemônica regional, legitimando sua atuação política e econômica na América Latina e a constituição de sua zona de influência no continente (BROGAN, 1941).
Enquanto os EUA nascem com isolacionismo e unilateralismo e constroem uma justificativa ideológica, como o excepcionalismo e o American Trust, a Doutrina Monroe soma-se a esse processo ao institucionalizar tais ideologias. Paralelamente, no século XX, essa política externa deixa de se restringir a uma esfera regional e emerge em escala global, com a ideia de contenção durante a Guerra Fria. Dessa vez, a organização da política internacional dos Estados Unidos os transforma em uma potência global, mantendo, contudo, a lógica de conter ameaças externas e proteger a ordem. Nesse cenário, no contexto do pós-guerra, George Kennan formula a teoria da contenção, que irá guiar a política externa norte-americana ao longo da segunda metade do século XX, com o intuito de impedir a expansão da União Soviética (GADDIS, 2005). Dessa forma, para conter essa expansão, os Estados Unidos deveriam atuar de maneira ativa, mobilizando instrumentos políticos, tecnológicos, psicológicos, econômicos e militares para preservar a ordem capitalista (GADDIS, 2005). Após a derrota da Alemanha nazista, a União Soviética consolida-se como principal oponente dos Estados Unidos, contribuindo para a divisão do mundo em dois blocos, capitalista e socialista. Diante dessa conjuntura, até a queda da URSS, a política internacional norte-americana foi guiada pela lógica da contenção, que, embora não fosse fixa e se adaptasse ao longo do tempo, manteve como eixo central a segurança e a projeção de poder (GADDIS, 2005). Esse período foi marcado pela legitimação de intervenções em diferentes esferas: política, econômica e de segurança, e pela formação de alianças estratégicas, uma vez que os Estados Unidos se colocam como responsáveis por conter a expansão soviética (GADDIS, 2005).
Após o fim da Guerra Fria, o país não abandona a lógica da contenção, mas perde o inimigo tradicional e passa a redefinir a ameaça. George W. Bush assume a presidência em 2001, promovendo uma reformulação significativa da grande estratégia norte-americana, considerada uma das mais relevantes desde a presidência de F. D. Roosevelt (GADDIS, 2005). Esse redirecionamento ocorre em razão do impacto dos atentados de 11 de setembro de 2001, conduzidos pela organização Al-Qaeda contra alvos nos Estados Unidos, como o Pentágono e as Torres Gêmeas, resultando em milhares de mortes e redefinindo as percepções de segurança internacional (GADDIS, 2005). Diante desse cenário, Bush conclui que a dissuasão, que é a capacidade de desencorajar a ação de um adversário por meio da demonstração de poder, aplicada aos Estados, oferecia proteção insuficiente, sendo necessário restaurar a segurança em um contexto internacional mais instável (GADDIS, 2005). Assim, se antes a contenção era predominantemente reativa, baseada na limitação e no equilíbrio, passa a assumir um caráter mais ativo, orientado pela prevenção, isto é, pela antecipação de ameaças antes de sua consolidação (GADDIS, 2005). Nesse sentido, a chamada “Guerra ao Terror” muda o foco dos conflitos para ameaças como o terrorismo internacional, ao mesmo tempo em que reforça, como na Guerra Fria, a legitimidade de intervenções políticas, militares e econômicas em nome da segurança global. Interligado à isso, embora o tipo de ameaça tenha se transformado ao longo do tempo, a lógica da contenção permanece, como no governo de Donald Trump. Agora, não abandona o combate ao terrorismo, já que que continua sendo tratado como ameaça, mas passa a coexistir com maior ênfase na competição entre grandes potências e na disputa por influência no sistema internacional (THE WHITE HOUSE, 2025).
A Doutrina Monroe surgiu em meio ao receio de novas intervenções europeias nas Américas e à busca norte-americana por afirmar sua influência hemisférica (PATERSON, 2018). Em um contexto marcado pela possibilidade de novas interferências europeias, inclusive por potências associadas à Santa Aliança, os Estados Unidos buscavam conter avanços externos no Hemisfério Ocidental (BROGAN, 1941). Nesse sentido, os EUA demonstravam interesse nas independências dos Estados da América Latina e defendiam a ideia de que possuíam o direito e o dever de protegê-los contra agressões de inimigos europeus (BROGAN, 1941). Surge o que foi interpretado como um senso de irmandade, no qual os Estados Unidos, enquanto potência mais forte, defendem os países latino-americanos, vistos como mais frágeis, de forma aparentemente bem-intencionada (BROGAN, 1941), e não necessariamente como expressão de tutela política. Dessa forma, os Estados Unidos passaram a ser vistos como guardiões das nações americanas mais fracas, e suas ações eram frequentemente apresentadas não como interferência, mas como auxílio externo. Tal dinâmica permaneceu ao longo do século XX, ainda que passasse a ser observada com maior desconfiança na América Latina, especialmente durante o governo Roosevelt (BROGAN, 1941). Essa relação com a América Latina aprofundou-se posteriormente com a Política da Boa Vizinhança (BROGAN, 1941) e, mais tarde, durante a Guerra Fria, marcada pela contenção ao expansionismo soviético e por formas indiretas de interferência política (GADDIS, 2005). Tal lógica hemisférica, longe de desaparecer, seria retomada no século XXI sob novas bases estratégicas.
A Configuração Política do Segundo Governo Trump: Estratégia de Segurança Nacional
A nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS), publicada em 2025, reafirma o desejo dos Estados Unidos de se manterem como uma república independente e soberana. Isso ocorreria por meio da proteção contra ataques militares e formas históricas de influência estrangeira, incluindo espionagem, práticas comerciais hostis, tráfico e outras ameaças (THE WHITE HOUSE, 2025). Diante dessa perspectiva, os EUA buscaram garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça estável e suficientemente governado para desencorajar a imigração ao seu território, combater os narcoterroristas e manter-se afastado do comércio estrangeiro hostil (THE WHITE HOUSE, 2025 ). Isso aconteceria, portanto, mediante a implementação de um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe voltada à contenção de ameaças contemporâneas e à manutenção da influência norte-americana no Hemisfério Ocidental, por meio de instrumentos de tutela política e segurança regional (SUHR, 2025). A tutela política seria, nesse caso, uma situação de dependência na qual se torna possível orientar ou pressionar decisões internas e externas de outros países sem ocupá-los formalmente. Esse corolário, na América Latina, é complementado pelo princípio de “Alistar”, isto é, integrar parceiros comprovados, Estados capazes de exercer influência além de suas fronteiras, ou “Expandir”, que consistiria em incorporar novos parceiros vinculados aos Estados Unidos em cooperação tanto econômica quanto na política de segurança (THE WHITE HOUSE, 2025 ). Isso demonstra como a América Latina deixaria de ocupar uma posição periférica e passaria a ser considerada uma área estratégica para a defesa nacional direta dos Estados Unidos (SUHR, 2025).
A noção de grande estratégia constitui o nível mais elevado de formulação da ação estatal no sistema internacional, distinguindo-se da política externa por seu caráter abrangente e estruturante. Conforme definem Gonçalves e Teixeira (2019), a grande estratégia corresponde ao mais elevado e abstrato plano de condução dos negócios do Estado nas relações que este mantém com os demais Estados, sendo responsável por articular, de maneira coordenada, os diversos instrumentos de poder — militares, econômicos e políticos — em função de objetivos de longo prazo. Nessa perspectiva, a política externa aparece como um dos instrumentos subordinados à grande estratégia, especialmente no caso das grandes potências, cuja atuação visa não apenas à sobrevivência, mas à maximização de poder e à busca pela hegemonia.
É nesse cenário que se insere a inflexão promovida pelo governo Trump, cuja orientação estratégica, embora frequentemente percebida como errática, revela coerência quando analisada à luz do princípio “America First”. A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 apresenta uma definição clara e direta, sem ambiguidades, sendo pragmática, realista e muscular, buscando sempre obter um objetivo contido em duas palavras, America First (Gonçalves, 2025). Ademais, o documento explicita uma mudança importante ao reconhecer que “os Estados Unidos não podem permitir a qualquer nação se tornar tão dominante que possa ameaçar nossos interesses” (tradução nossa, NSS (2025), p. 14), evidenciando a incorporação de uma lógica de equilíbrio de poder em um sistema internacional cada vez mais multipolar.
No plano regional, a América Latina ocupa uma posição específica dentro dessa grande estratégia, sendo historicamente concebida como área de influência dos Estados Unidos. Conforme argumenta Cepik (2019), a política externa dos Estados Unidos para a região passa a ser marcada pela securitização dos interesses chineses, na crise venezuelana e na questão migratória, o que evidencia a centralidade da segurança como eixo estruturante da sua atuação no hemisfério. Nota-se, assim, a marginalização da diplomacia tradicional e a crescente centralidade das agências de segurança nacional, especialmente as Forças Armadas, bem como a delegação de funções a grupos de interesse específicos. Tal dinâmica contribui para a transformação da América Latina em um espaço funcional à estratégia global norte-americana, no qual questões sociais e políticas são reinterpretadas como ameaças à segurança nacional. Além disso, a crescente presença da China passa a ser percebida como um desafio estratégico, reforçando a retomada da antiga lógica de competição entre grandes potências. Como consequência, há uma tendência à bilateralização das relações e à redução do papel de mecanismos multilaterais, o que aprofunda assimetrias estruturais e limita a autonomia dos países latino-americanos. Ao mesmo tempo, essa orientação pode gerar efeitos contraditórios, uma vez que os Estados Unidos tendem a perder a legitimidade e a centralidade econômica e política no hemisfério, evidenciando, assim, as tensões entre coerção e liderança na política regional.
Por fim, a Estratégia de Segurança Nacional de 2025 constitui a formalização institucional dessa inflexão na grande estratégia norte-americana, estabelecendo de maneira explícita seus princípios e prioridades. Define, portanto, estratégia como um plano concreto e realista que explica a ligação essencial entre fins e meios, enfatizando que o objetivo central da política externa é a proteção dos interesses nacionais fundamentais. Essa definição reforça o caráter seletivo da atuação internacional do país, ao afirmar que nem todas as nações, regiões, ou causas podem ou devem ser o foco da estratégia americana, rejeitando, assim, a lógica universalista do pós-Guerra Fria. No que se refere ao Hemisfério Ocidental, o documento explicita de forma inequívoca a aplicação do “Corolário de Trump” à Doutrina Monroe, ao estabelecer como objetivo a garantia de um hemisfério livre de incursões estrangeiras hostis e capaz de prevenir fluxos migratórios e combater organizações criminosas transnacionais. Dessa forma, a NSS de 2025 não apenas reflete, mas institucionaliza a grande estratégia de segurança trumpista, consolidando uma orientação baseada no nacionalismo econômico, na competição entre grandes potências e na centralidade do interesse nacional. Assim, a política externa dos Estados Unidos sob Trump deve ser compreendida não como ausência de estratégia, mas como expressão de uma reconfiguração profunda da grande estratégia norte-americana diante das transformações estruturais do sistema internacional contemporâneo.
Abordagem da Estratégia de Segurança Nacional na América Latina
A dimensão econômica da nova política de Donald Trump, fundamentada no nacionalismo do “America First”, manifesta-se de forma incisiva na América Latina através de um protecionismo que utiliza o acesso ao mercado norte-americano como ferramenta de coerção política. No caso do México, essa orientação consolidou-se na renegociação do USMCA, onde Washington abandonou a lógica do livre comércio multilateral para adotar uma postura de barganha unilateral, condicionando a estabilidade das tarifas à cooperação mexicana no controle de fluxos migratórios e na segurança fronteiriça (SIGMON, 2025). Em relação ao Brasil, o protecionismo evidenciou-se na imposição de sobretaxas ao aço e ao alumínio sob a justificativa de segurança nacional, uma medida que ignora o histórico de cooperação bilateral em favor da proteção de indústrias domésticas estadunidenses (SIGMON, 2025). De acordo com a Estratégia de Segurança Nacional de 2025, os Estados Unidos buscam assegurar que o Hemisfério Ocidental permaneça afastado de “práticas comerciais hostis” e da influência de potências extrarregionais, como a China. Essa política de barreiras comerciais não apenas altera o fluxo de mercadorias, mas serve como instrumento de tutela econômica que força países como Brasil e México a reavaliarem suas dependências externas e buscarem alternativas de inserção internacional, como o fortalecimento de laços com o bloco BRICS, diante da imprevisibilidade da política comercial de Washington (THE WHITE HOUSE, 2025).
Na perspectiva dos EUA, no que tange os princípios de Recrutar e Expandir, a Argentina é considerada “campeã regional”, devido à sua abordagem cooperativa em relação à economia de mercado e à política de segurança. Isso fica claro com o acordo anunciado pelo embaixador norte-americano Jamieson Green para aprofundar a cooperação bilateral em comércio e investimento entre os Estados Unidos e a Argentina. O plano, por sua vez, prevê zero tarifas ou a redução em 2% para muitos dos produtos americanos. Em troca, os EUA eliminarão tarifas para produtos agrícolas argentinos e limitaram sobretaxas em um teto de 10%. Para além disso, Valerie Ho e Nicholas Engler (2026) afirmam que durante as eleições na Argentina, o Tesouro dos EUA concedeu ao país um swap cambial de US$ 20 bilhões, proporcionando acesso a dólares americanos para atenuar a volatilidade do peso antes da crucial eleição. A estratégia funcionou e o partido de Milei alcançou a vitória. Por outro lado, Ho & Egler (2026) lembram que o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, adotou postura mais crítica contra os Estados Unidos, o que não impede a manutenção de cooperação em áreas estratégicas, especialmente de segurança.. Observa-se uma atuação mais cautelosa por parte de Washington, que evita medidas mais assertivas diante da proximidade do processo eleitoral colombiano, uma vez que uma intervenção mais direta poderia fortalecer discursos antiamericanos
A aplicação do chamado “Corolário Trump” também se manifesta em como questões internas de países latino-americanos são reinterpretadas como ameaças à segurança dos Estados Unidos. Esse fenômeno é ilustrado pela escalada de tensões na Venezuela, onde a crise política foi reinterpretada como uma ameaça existencial à hegemonia energética e securitária dos EUA, culminando em ações de pressão máxima como a Operation Absolute Resolve (HO; ENGLER, 2026). Ao tratar o regime de Maduro como uma organização criminosa e desconsiderar os canais diplomáticos tradicionais, Washington sinaliza que a legitimidade das instituições latino-americanas está condicionada ao seu alinhamento com os seus interesses. Paralelamente, a classificação de cartéis e grupos paramilitares como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) amplia a capacidade de intervenção militar e jurídica dos Estados Unidos dentro de territórios soberanos, como Brasil e Colômbia, transformando questões de segurança interna em vetores de projeção de poder unilateral (THE WHITE HOUSE, 2025).
Adicionalmente, essa erosão institucional é aprofundada pelo uso de mecanismos de pressão como a “descertificação” e a ameaça de cortes em auxílios financeiros, que servem para constranger governos locais a adotarem diretrizes de segurança desenhadas em Washington. Sob a lógica de “Alistar e Expandir”, as instituições locais são pressionadas a atuar como extensões da vigilância regional estadunidense, visando conter tanto o tráfico transnacional quanto a influência de atores como Rússia e China (SUHR, 2025). A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 institucionaliza essa prática ao afirmar que os EUA não tolerarão “incursões estrangeiras hostis” e ao delegar a agências de segurança e forças armadas o papel central na condução da política externa para o hemisfério. Assim, observa-se uma transição de uma liderança baseada no consenso para uma hegemonia baseada na coerção, onde a autonomia política das nações latino-americanas é mitigada em favor de uma ordem regional estruturada estritamente sob a ótica da segurança governamental norte-americana (SUHR, 2025).
A Estratégia de Segurança Nacional explicita a posição do governo em relação a atores não estatais transnacionais. Principalmente, ao enfatizar a necessidade de proteger o país, a economia e o modo de vida de influências consideradas hostis, especialmente no que se refere à imigração e ao crime organizado. Nesse sentido, sustenta-se que a migração em massa sobrecarregou os recursos internos, aumentou a violência e outros crimes, enfraqueceu a coesão social e distorceu a realidade, na medida em que tornou os mercados de trabalho descontrolados e a segurança nacional fragilizada. A partir dessa leitura, a proteção das fronteiras passa a abranger não apenas o controle migratório, como também o enfrentamento de ameaças como terrorismo, tráfico de drogas e de pessoas. Frente a essa conjuntura, argumenta-se enfaticamente que o que um país admite em suas fronteiras definirá o seu futuro e que qualquer nação que se considere soberana tem o direito e o dever de definir seu próprio futuro.
Eric B. Sigmon (2025) destaca que, no âmbito dessa orientação, o Governo Trump abandona a abordagem de cooperação hemisférica adotada anteriormente para implementar políticas mais restritivas voltadas à contenção da imigração irregular. Entre principais medidas, destaca-se aumento de detenções e deportações, intensificação do controle fronteiriço, e medidas como desencorajar permanência de imigrantes em território norte-americano.Além disso, o presidente garantiu a ajuda a outras nações latino-americanas para apoiar sua agenda de imigração. Essas, passariam a receber os imigrantes deportados dos Estados Unidos. Trump também reativou e atualizou a proibição de viagens de seu primeiro governo. Desta vez, cidadãos de 19 países passariam a enfrentar uma proibição de viagem total ou parcial, incluindo três das Américas: Cuba, Haiti e Venezuela.
Por fim, Donald Trump suspendeu o acesso de refugiados do hemisfério ao reassentamento nos EUA. Sigmon (2025) destaca que questões de segurança, particularmente aquelas relacionadas a organizações criminosas transnacionais e ao fluxo de drogas ilícitas, também aparecem como sendo prioridade na agenda do governo para as Américas. Maureen Meyer (2026) destaca que o governo americano ampliou ações militares no combate ao tráfico, incluindo ataques a embarcações suspeitas, resultando em mortes extrajudiciais e forte pressão aos países da região. Essas pressões se expressam especialmente por sanções e exigências de políticas mais agressivas. Dessa forma, a política externa do Governo Trump evidencia a articulação entre controle migratório e combate ao crime organizado como eixos complementares.
Conclusão
Em síntese, a análise da política externa dos Estados Unidos evidencia que, apesar das transformações conjunturais e das mudanças de governo, há uma persistente continuidade em seus fundamentos estratégicos. Desde o isolacionismo relativo dos primeiros anos até a atuação global consolidada no pós-Segunda Guerra Mundial, a lógica de contenção, projeção de poder e defesa de interesses nacionais permanece como eixo estruturante. Mesmo quando reinterpretada sob novas bases, essa tradição não se rompe, mas se adapta às exigências de um sistema internacional em mutação. A Doutrina Monroe, o excepcionalismo americano e “Corolário Trump” demonstram como elementos históricos seguem sendo mobilizados para legitimar a atuação dos Estados Unidos, especialmente na América Latina.
Dessa forma, a inflexão contemporânea observada no governo Trump deve ser compreendida menos como uma ruptura e mais como uma reconfiguração da estratégia norte-americana diante de um contexto marcado pela multipolaridade e pela ascensão de novas potências. A centralidade atribuída à América Latina, nesse cenário, reforça a permanência de uma lógica hemisférica que combina segurança, coerção e interesses econômicos, ao mesmo tempo em que revela tensões entre liderança e imposição. Assim, a política externa dos Estados Unidos continua a operar a partir de uma articulação entre permanência estrutural e adaptação estratégica, na qual a defesa do interesse nacional permanece como princípio orientador fundamental, ainda que revestido por novas formas e discursos no cenário internacional contemporâneo.
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