Ano VII, nº 122, 10 de Abril de 2026
Por Gabriel de Castro Soares, Gustavo Botão, Jéssica Guerra, Mariana Silveira Gomes, Pedro Abolafio, Rafaela Galhumi e Roberto Dalla (Imagem: Unsplash)
O tema da “desdolarização” voltou a ganhar destaque com a guerra no Irã, levando a questionamentos sobre o futuro do sistema de petrodólares
Introdução
A hegemonia do dólar nas relações econômico-comerciais, estabelecida a partir dos Acordos de Bretton Woods (1944), sempre foi alvo de contestações, seja nas críticas do presidente francês Charles De Gaulle (1959-1969) ao “privilégio exorbitante” garantido aos Estados Unidos, seja nas iniciativas de redução do risco ao dólar, popularmente conhecidas como “desdolarização”, levadas a cabo por diversos países com o objetivo de se proteger das sanções econômicas impostas a partir do uso da moeda como arma financeira (weaponization).
Um dos pilares da hegemonia da moeda estadunidense está no chamado sistema petrodólar, estabelecido por meio de acordo com a Arábia Saudita em 1974, em que todas as exportações de petróleo do país seriam pagas em dólares. Esse sistema foi seguido mais tarde por outros países da OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo), com os dólares obtidos por esses países sendo reinvestidos em títulos do tesouro estadunidense, garantindo a atratividade desses títulos e, por consequência, a reciclagem de dólares, que voltavam aos Estados Unidos na forma de investimentos. Essa reciclagem garantiu a rolagem da dívida pública estadunidense por meio da expansão permanente da demanda global por dólares e títulos do tesouro do país, permitindo a manutenção da hegemonia do dólar, assim como gastos aparentemente infinitos por parte dos Estados Unidos.
A recente agressão de Estados Unidos e Israel contra o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo extraído no mundo, tem levantado discussões acerca do fim do sistema de petrodólares.
Sanções como elemento acelerador dos questionamentos ao dólar
Nos últimos anos a prática da utilização do dólar como arma econômica tem se intensificado, o que se refletiu nas sanções feitas contra a Coreia do Norte em 2005, ao Irã em diferentes momentos desde 2007, e a Rússia a partir de 2022 com os desdobramentos da guerra na Ucrânia.
Contudo, tem sido observado que as sanções dos Estados Unidos não tem obtido o resultado esperado, evidenciando que a dependência com relação ao dólar talvez possa ser de alguma maneira contornada, acelerando debates sobre a desdolarização e a busca de novas alternativas. Assim, o Irã tem buscando novas relações comerciais de maneira não dependente ao dólar com parceiros como China e Rússia.
Este cenário tem levado a uma maior insegurança de todos os atores, que passam a se perguntar qual pode ser o próximo, e com isso já passam a procurar novas alternativas, acelerando os questionamentos da hegemonia do dólar.
China e a internacionalização do Renminbi
A hegemonia do dólar americano, ancorada nos petrodólares, voltou ao centro das atenções com o escalonamento das tensões no Estreito de Ormuz, principalmente a partir do momento em que o Irã passou a considerar liberar a passagem de navios por Ormuz, desde que as negociações sejam feitas em yuan chinês.
Como reflexo das preocupações geopolíticas que a instrumentalização do dólar causam no cenário internacional, a decisão iraniana dá aos mecanismos alternativos focados na internacionalização do renminbi chinês (ou yuan) a capacidade de aumentar seu espaço no sistema monetário e financeiro internacional e acelerar processos de desdolarização a partir do comércio internacional dessa commodity estratégica.
Dessa maneira, a introdução de contratos futuros de petróleo bruto denominados em yuan por meio da Bolsa Internacional de Energia de Xangai (INE) em 2018 marca o início dos esforços chineses para integrar sua moeda aos mercados globais de energia. O surgimento do petroyuan reflete e reforça uma mudança mais geral rumo à multipolaridade do sistema internacional, estabelecendo uma referência em yuan para a precificação do petróleo diferente das já consolidadas em dólar (denominadas por instituições como Brent e West Texas Intermediate).
Portanto, para países que buscam diversificar suas moedas de liquidação comercial ou contornar sanções ocidentais (como Rússia e Irã), a adoção do petroyuan torna-se uma alternativa prática. No entanto, ao invés de substituir os petrodólares, a ampliação do petroyuan pode gerar um certo grau de fragmentação na precificação e liquidação internacional do petróleo, levando a custos de transação mais elevados e à instabilidade do mercado, além de amplificar as tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China.
