Ano VI, nº 106, 24 de julho de 2025
Por Roberta Guimarães Peres, Luciana Elena Vazquez, Ariel Elliot Salles dos Santos, Camila Furlan Patricio, Cecília Fantini, Isabela Oliveira, Julia Heloisa Giacomini Faria, Rayssa Dias
(Imagem: Fotos Públicas – Foto: @PressSec)
O Brasil tem capacidade para entrar na disputa que visa atrair os trabalhadores e as trabalhadoras do conhecimento? Essa é a pergunta que tem sido colocada após as deportações em massa que o governo Trump tem realizado. Nesse cenário, a promessa de Trump de deportar apenas pessoas migrantes e refugiadas que tivessem cometido crimes, tomou uma nova faceta com a restrição às inscrições de estudantes de outras nacionalidades nas universidades estadunidenses.
A “CAÇA” AOS TRABALHADORES BRASILEIROS E A “SURPRESA” DAS DEPORTAÇÕES
Durante sua campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 2024, Donald Trump alçou como uma das suas principais bandeiras a deportação de imigrantes em situação irregular, em especial as pessoas indocumentadas. Mesmo com esse discurso, sua base de apoio foi amplamente composta por imigrantes residentes nos EUA. No caso das pessoas brasileiras, muitas das que possuem a dupla cidadania e, portanto, têm direito ao voto, declararam apoio ao candidato republicano. Isso pode ser entendido como um reflexo de que a perseguição a imigrantes indocumentados defendida por Trump geraria pouco ou nenhum efeito sobre imigrantes e descendentes diretos que já contam com a cidadania estadunidense. Além disso, muitos migrantes de gerações anteriores ou que migraram de forma regular aos EUA vêem de forma negativa os imigrantes que chegam de forma indocumentada (Delfim, 2024).
Ainda assim, houve apoio até mesmo entre imigrantes em situação irregular, que não podiam votar e que, em tese, corriam o risco de deportação. Enquanto os imigrantes documentados não se sentiam ameaçados por estarem regularizados, muitos indocumentados também não se viam como alvo — afinal, Trump afirmava que as deportações se concentrariam apenas em imigrantes com antecedentes criminais. Contudo, as primeiras ações de deportação da segunda gestão Trump, mostraram que os imigrantes que não tinham nenhuma ocorrência registrada também foram afetados, constituindo o que ficou conhecido como “dano colateral”, termo usado por autoridades estadunidenses para designar imigrantes sem documentos, mas sem ficha criminal, que acabam sendo atingidos junto com aqueles que possuem crimes pregressos (Tavares; Sanches, 2025).
Dessa forma, a ideia de que a cidadania ou a regularização protegeria por completo os brasileiros residentes nos Estados Unidos desconsidera o caráter seletivo e arbitrário das políticas migratórias, que operam muitas vezes com base em estigmas raciais, étnicos e de classe. O que se observa, portanto, é a fragilidade da condição do trabalhador imigrante, ainda que integrado, produtivo e, em muitos casos, apoiador do próprio sistema que o marginaliza, diante de políticas que o tratam como alvo ou mero “dano colateral”. A surpresa das deportações escancara a precariedade de sua posição e a ilusão de segurança construída sobre promessas políticas que, na prática, ignoram as complexidades humanas por trás de cada status migratório.
É relevante destacar que, de acordo com Passel (apud Sanches, 2024), cerca de um terço dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos se encontra em situação irregular, com um percentual de pessoas indocumentadas de aproximadamente 23%. Esse dado evidencia não apenas a vulnerabilidade jurídica das pessoas brasileiras nos Estados Unidos, mas também a exposição dessa comunidade a mecanismos de controle e repressão migratória de forma mais intensa do que outras nacionalidades. A sobre-representação de brasileiros entre os imigrantes indocumentados reforça a necessidade de compreender como fatores sociais, econômicos e políticos no país de origem contribuem para fluxos migratórios marcados pela irregularidade. Além disso, essa condição precária amplia os riscos de exploração no mercado de trabalho, de violação de direitos e de invisibilidade institucional, tornando os brasileiros um dos grupos mais suscetíveis aos efeitos diretos das políticas de deportação em massa.
O caso das pessoas brasileiras nos Estados Unidos revela uma realidade marcada por contradições e falsas garantias. Muitos trabalhadores imigrantes, mesmo os que se viam como protegidos (seja pela cidadania, pelo tempo de residência ou pela ausência de antecedentes), foram surpreendidos pela lógica seletiva e imprevisível das políticas migratórias. A promessa de que apenas “criminosos” seriam deportados se desfez diante das ações que passaram a mirar indiscriminadamente a população migrante como um todo. A figura do trabalhador brasileiro, nesse contexto, torna-se emblemática: produtivo, muitas vezes politicamente alinhado ao discurso conservador, mas ainda assim vulnerável e descartável diante de um sistema que transforma seres humanos em alvos pelas forças de segurança.
Logo, a surpresa das deportações não foi apenas um erro de cálculo individual, mas a revelação de um modelo que criminaliza as pessoas migrantes, ainda que, na prática, elas sustentem parte significativa da economia dos Estados Unidos. Nesse sentido, os trabalhadores brasileiros foram traídos por um discurso que os seduziu com promessas de pertencimento, mas os relegou à condição de “dano colateral”.
A DISPUTA PARA ATRAIR TRABALHADORES DO CONHECIMENTO
Os Estados Unidos atraem pesquisadores de diversos lugares do mundo, com a finalidade de fomentar a ciência, além de possuir as melhores universidades em rankings internacionais, segundo o Índice Global de Inovação da WIPO (2024). Neste, o país ocupa a 3ª posição geral no ranking, liderando globalmente em indicadores como qualidade das universidades e impacto das publicações científicas. Todavia, a atual administração Trump é responsável por cortes nos financiamentos de pesquisas e projetos das universidades.
Atualmente o país enfrenta uma supressão da liberdade acadêmica, expressa por meio de ataques às universidades e à legitimidade dos produtores de conhecimento, configurando-se em um ataque à ciência (Escobar, 2025). Isso se deve a diversos motivos. O governo de Trump deseja cortar gastos públicos e possui uma política isolacionista, levando a medidas extremas, como o desejo de impedir que não-nacionais estudem nas universidades americanas.
Tais medidas são motivo de medo entre estudantes internacionais, como é o caso de uma estudante brasileira de Harvard, que afirma, em entrevista para o G1, que há um sentimento de incerteza em relação ao seu status migratório, o que chega a atrapalhar seu desempenho acadêmico. Nesse sentido, esse sentimento também acomete os trabalhadores do conhecimento, que além de se preocuparem com a possibilidade de deportação, estão sujeitos a tratamentos preconceituosos e perseguição, uma vez que o discurso xenofóbico e anti-imigrante adotado por Trump pode influenciar a população a adotar posturas semelhantes.
Nessa perspectiva, de acordo com Jason Stanley, em sua obra titulada “Como funciona o fascismo”, evidencia-se que essas medidas de Trump são condizentes com políticas fascistas que tendem a impedir o avanço científico para manter um controle político e ideológico da população e, assim, garantir seus interesses econômicos. Ele afirma que em um cenário político fascista ocorre a degradação das universidades, além de um ataque à imagem dos professores e pesquisadores acadêmicos, que passam a ser ignorados como fontes legítimas de conhecimento e expertise e são retratados como “marxistas” ou “feministas” radicais acusados de promover uma agenda ideológica de “esquerda” disfarçada de produção científica (Stanley, 2022, p. 65). Vale mencionar que o próprio Stanley é um exemplo dessa fuga, visto que decidiu se mudar para o Canadá com o intuito de possuir liberdade para lecionar na Munk School of Global Affairs and Public Policy da Universidade de Toronto (Leingang, 2025).
Sob esse viés, desde a primeira administração de Trump, países ao redor do mundo enxergaram esse cenário como uma oportunidade para atrair mentes brilhantes e promover sua inovação. Logo após uma série de atos do presidente Trump contra estudantes internacionais, como o congelamento de verbas destinadas a estes nas principais universidades do país, como no caso de Harvard, países da União Europeia e a China buscam atrair esses pesquisadores. A exemplo de ações tomadas, na primeira semana de junho, o presidente francês Emmanuel Macron e Ursula Von Der Leyen, presidente da União Europeia, anunciaram uma verba de 500 milhões de euros em investimentos na atração de pesquisadores, com o objetivo de tornar a região um “imã” da ciência. Este recurso irá ajudar as universidades a financiar projetos e custos de pesquisadores internacionais. O anúncio foi acompanhado de críticas indiretas às medidas de Trump.
À medida que os Estados Unidos perdem sua posição como um dos principais destinos acadêmicos do mundo, talentos são redirecionados para países concorrentes, além de afetar a credibilidade do país em discursos sobre direitos humanos e cooperação internacional. Por conseguinte, um país historicamente reconhecido por atrair os mais destacados pesquisadores e intelectuais passou a representar uma ameaça para esses profissionais, que hoje se veem diante de um dilema: permanecer nos Estados Unidos ou deixar o país em busca de maior segurança e liberdade acadêmica (G1, 2025). Nessa perspectiva, é provável que universidades europeias e canadenses irão se beneficiar do acolhimento dessas mentes brilhantes e, a longo prazo, o país poderá enfrentar dificuldades na inovação, colocando em risco sua própria influência mundial.
AS CONTRADIÇÕES DO BRASIL PARA ATRAIR TRABALHADORES DO CONHECIMENTO
Rapidamente, diversos governos, como França, outros países da União Europeia e China anunciaram planos para atrair os trabalhadores e as trabalhadoras do conhecimento. Em maio de 2025, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, comunicou que deseja atrair estudantes, principalmente brasileiros, que se sintam ameaçados pelas políticas anti-imigratórias dos Estados Unidos. Para tanto, será lançado um programa para atrair pesquisadores da área da saúde, da pesquisa clínica e da ciência e tecnologia.
O programa é estruturado em três eixos: o primeiro inclui investimento para pesquisa de vacinas e tecnologia mRNA, utilizada durante a covid-19 pelas instituições Fiocruz e Instituto Butantã. O segundo, refere-se à regulamentação do novo marco legal das pesquisas clínicas para assegurar a estabilidade institucional e liberdade acadêmica e atrair apoio financeiro de estudos científicos. E, por fim, o terceiro concerne ao lançamento de um edital de fomento e cooperação internacional, a ser realizado por meio do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, para financiamento de pesquisas, bolsas e parcerias com a indústria farmacêutica nacional, destinados a brasileiros que desejarem aderir ao programa.
Os cortes orçamentários destinados às universidades federais e à pesquisa acadêmica foram realizados sistematicamente desde o governo de Michel Temer (2016-2018), com a aprovação do Teto de Gastos por 20 anos em 2016. A situação agravou-se na gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022), durante a pandemia de Covid-19. Até hoje, o investimento nas universidades públicas não retornou ao patamar que tinha em 2015, antes do impeachment de Dilma Rousseff (2011-2016). Por isso, a divulgação gera diversos questionamentos ao atual governo de Lula, após anúncios de congelamento no orçamento das universidades federais.
Assim, impõem-se restrições à continuidade do funcionamento das universidades públicas. Destaca-se a continuidade da desvalorização de trabalhadores do conhecimento e de estudantes no Brasil, visto a falta de reajustes nas bolsas de pesquisa e estudantis, além do baixo incentivo à carreira acadêmica e às condições de permanência nas universidades, visto que não há infraestrutura e recursos adequados. Por fim, os baixos salários e a falta de reajuste das bolsas de pesquisa são entraves constantes nas instituições de ensino.
Diante disso, podemos observar que, apesar do potencial do Brasil, a instabilidade no financiamento à pesquisa e os cortes de orçamento das universidades federais são desafios que o governo brasileiro precisará enfrentar para competir com a China e países europeus na atração de talentos. Assim, se o Brasil deseja de fato se colocar como um ator-chave nesta disputa, será necessário desenvolver uma estratégia de investimento e fortalecimento da ciência no país.
Referências:
CHADE, Jamil. Governo Lula quer atrair dos EUA cientistas afetados por ataques de Trump. Uol, 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2025/05/24/brasil-quer-atrair-dos-eua-cientistas-afetados-por-ataques-de-trump.htm. Acesso em: 8 jun. 2025.
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