Ano VI, nº 110, 18 de setembro de 2025
Por Gustavo Botão, Rafaela Galhumi e Roberto Dalla (Imagem: Official White House Photo by Daniel Torok)
O tarifaço de Trump ao Brasil levou o governo Lula a buscar a ampliação de mercados e a um maior diálogo com parceiros comerciais tradicionais e recentes.
Breve atualização sobre o tarifaço de Trump sobre o Brasil
Os impactos das tarifas aplicadas pelo segundo governo de Donald Trump (2025-2029) sobre o Brasil começaram a ser sentidas ainda em março, quando foram impostas alíquotas de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio. Em 2 de abril, no chamado “Dia da Libertação”, o governo Trump impôs tarifas lineares de 10% aos produtos brasileiros, apesar do consistente superávit comercial que os Estados Unidos mantêm em relação ao Brasil.
A situação escalou quando, em 9 de julho, após a Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro, Trump anunciou a imposição de tarifas adicionais de 40% sobre os produtos brasileiros, totalizando uma alíquota de 50%. Os motivos apresentados para tantoforam, em sua grande maioria, políticos, fazendo do Brasil um caso único na guerra tarifária de Trump. Entre as justificativas elencadas por Trump estavam: i) uma suposta perseguição política a Jair Bolsonaro; ii) ataques às “eleições livres” e à “liberdade de expressão”; iii) práticas comerciais injustas; iv) e práticas contrárias ao comércio digital de empresas estadunidenses.
Nesse contexto, além de tentar reverter as tarifas dos Estados Unidos, o governo brasileiro buscou diversificar parcerias, focando em países do BRICS, países europeus, México, Canadá e países do sudeste asiático. Segue abaixo a composição das exportações do Brasil para esses mercados em 2024:
Gráfico 1 – Composição das exportações brasileiras para Estados Unidos, países do BRICS, países europeus, México, Canadá e países da ASEAN (ISIC, valor em US$ bilhões).
* Excluindo Indonésia.
Fonte: elaboração própria, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Diversificação de parcerias
China
Em agosto, o presidente Lula entrou em contato com o presidente chinês, Xi Jinping (2013-atualmente), para discutir o tarifaço de Trump e o multilateralismo. A aproximação elevou o patamar das relações bilaterais, com os países aumentando o intercâmbio comercial, especialmente a partir: i) do aumento da compra de soja brasileira em detrimento da soja estadunidense, com um crescimento de 13,9% em relação ao mesmo período do ano anterior; ii) do aumento do investimento chinês no Brasil, sobretudo nos setores de energia, petróleo e automotivo; iii) da entrada das empresas Meituan e Didi no mercado brasileiro; iv) e do aumento geral no intercâmbio comercial com o país asiático, chegando a uma corrente (exportações e importações) recorde de US$ 301,65 bilhões no primeiro semestre de 2025.
Além da questão comercial, a China demonstrou, em conversa entre o Ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, e o Assessor-Chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, Celso Amorim, apoio político ao Brasil diante do tarifaço, ressaltando o apoio resoluto na “na defesa de sua soberania estatal e dignidade nacional, e se opõe à interferência infundada de forças externas nos assuntos internos do Brasil”.
União Europeia e EFTA
Após divergências em temas como compras governamentais e protecionismo agrícola, as negociações relativas ao Acordo Mercosul-União Europeia pareciam ter sido enterradas na metade de 2024. A eleição de Trump, entretanto, reacendeu os debates em torno do acordo, levando à conclusão das negociações na 65ª Cúpula do Mercosul, em dezembro de 2024, com a inclusão dos termos apresentados pelo Brasil no chamado “Pacote de Brasília” e a alteração de diversos pontos negociados no texto de 2019.
Apesar da mudança de ventos, países como a França, a Polônia e a Itália se mostraram resistentes ao acordo, contrariando países como Alemanha e Espanha, que defendem a ratificação do texto. Para valer, o texto de 2024 precisa passar pela aprovação do Parlamento Europeu, do Conselho Europeu e pelos parlamentos de, no mínimo, 15 dos 27 países-membros do bloco, representando 65% da população. O acordo poderia ser barrado em caso de rejeição do texto nos parlamentos de quatro países que representem, no mínimo, 35% da população do bloco. Parte do acordo relativa a comércio pode passar por um processo de aprovação simplificado, em que o texto, chamado de Acordo Comercial Provisório, pode ser aprovado apenas pelo Conselho e pelo Parlamento Europeus, sem necessidade de ratificação nos parlamentos dos países-membros.
A ofensiva tarifária de Trump iniciada em abril de 2025 sobre os parceiros comerciais dos Estados Unidos levou o Brasil a intensificar as pressões pela ratificação do acordo, cujo processo se iniciou em setembro. França e Itália começaram a reconsiderar os termos do Acordo Mercosul-UE, com o presidente francês, Emmanuel Macron (2017-2027) se comprometendo com o presidente Lula a aumentar os diálogos em relação ao acordo. Este diálogo levou à inclusão de salvaguardas específicas para produtos agrícolas vindos do Mercosul, especialmente sobre carnes, açúcar e arroz, atendendo aos interesses franceses e desagradando o agronegócio brasileiro. A Polônia, por outro lado, continua a apresentar resistências ao acordo.
Ampliando os vínculos com os europeus, em 16 de setembro, o acordo entre o Mercosul e a EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre em português) foi assinado em cúpula no Rio de Janeiro. O bloco comercial europeu é composto por Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia. Em 2024, o comércio entre Brasil e EFTA somou US$ 7,2 bilhões.
México
Após o tarifaço, Lula procurou a presidente do México, Claudia Sheinbaum (2024-2030), para discutir as relações econômicas e comerciais entre os dois países e marcar uma visita do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, para o final de agosto. Durante a visita, ambos os governos firmaram acordos nas áreas da saúde, biocombustíveis e investimentos. Também foram articuladas novas negociações relativas à atualização do Acordo de Complementação Econômico (ACE) 55, que versa sobre automóveis, e do Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos (ACFI) Brasil-México. Além disso, o governo brasileiro espera que o México adquira aeronaves da Embraer no próximo ano. O país latino-americano é o terceiro mais populoso do continente, atrás dos Estados Unidos e Brasil, e tem aumentado o intercâmbio comercial com o Brasil nos últimos anos.
Canadá
Canadá e Brasil, dois países fortemente afetados pelos movimentos de Trump, buscaram a construção de novos vínculos e uma maior aproximação e ampliação do comércio entre eles, como alternativa ao isolacionismo americano. Ambos anunciaram a retomada das negociações de um acordo de livre comércio entre Mercosul e o Canadá. A nova tentativa em torno do acordo reflete a necessidade de novas rotas diversificadas para as relações e parcerias comerciais, reafirmando as possibilidades de troca inter-americanas, e sendo um ponto fundamental para a diminuição da dependência dos Estados Unidos, especialmente pela perspectiva canadense, como declarado pelo primeiro-ministro Mark Carney, e um novo ponto de interesse brasileiro para o escoamento de produção e para adoção de tecnologia.
Ainda, a Apex Brasil, liderou uma missão empresarial brasileira em Toronto, focando nos setores de alimentos, bebidas e serviços tecnológicos, de modo a aprofundar a diversificação de mercados de exportação. A missão comercial brasileira, se junta a outras ações que buscam avançar as parcerias estratégicas entre os dois países em setores de grande interesse, como os de energia e mineração, parte importante da produção de ambos. Esse cenário reflete o momento de aproximação das duas economias, que fecharam o primeiro semestre com recorde de exportação, com foco no café, o qual a exportação para o Canadá cresceu 45%, produto que até então era consumido principalmente pelo mercado americano, mostrando já o princípio das transformações nas relações de mercado e novas parcerias.
Índia
A busca por diversificação de parcerias levou também a uma maior aproximação dos vínculos entre os BRICS. Brasil e Índia, países com papéis importantes para um novo contexto econômico como potências emergentes, negociaram novos acordos comerciais, focando em setores como energia e segurança. A aproximação foi marcada pela visita de Estado do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi a Brasília, servindo também como uma demonstração do reforço de laços e comprometimento com o multilateralismo, em oposição ao isolacionismo das medidas do governo americano. As novas parcerias comerciais entre os dois países ganham destaque com o fórum realizado em paralelo a cúpula dos BRICS, ambos os eventos acontecendo no Brasil e sendo marcantes para um novo capítulo, ainda mais próximo, das duas economias.
Em 2024, o comércio bilateral Brasil-índia foi de US$ 12 bilhões (R$ 65 bi), com expectativas de futuros aumentos. Sua população de aproximadamente 1,5 bilhão de habitantes, sendo bastante jovem, configura a quarta maior economia do mundo, com muita mão de obra e necessidade de combustíveis fósseis para fomentar seu crescimento. Aqui entra um importante papel do Brasil, sendo vendedor de óleo bruto à Índia e seu comprador de óleo refinado.
Rússia
O atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, quando questionado sobre as tarifas impostas à diversos países por Donald Trump, afirmou que as tarifas impostas ao Brasil, especificamente, não são resultado de um desequilíbrio comercial entre esses dois países ou uma reação à guerra na Ucrânia, mas refletem primordialmente as discordâncias quanto às relações internas do Brasil. A relação do ex-presidente Jair Bolsonaro e Trump, por exemplo, é fator de influência nessa relação. Durante o anúncio das tarifas de 50% em cima dos produtos brasileiros, Trump também pediu o fim do julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em razão de indícios de envolvimento em um plano golpista para barrar a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022.
Quanto à relação comercial com a Rússia, o Brasil importou 60% de seu diesel do país nos últimos quatro anos, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), representando uma relação bilionária e que envolve grandes empresas brasileiras e investidores. Desde 2022, as importações do combustível receberam o investimento de US$13 bilhões. Essa relação, porém, preocupa empresários do setor, uma vez que foi anunciada uma tarifa adicional de 25% em produtos indianos devido a trocas comerciais relacionadas à combustíveis entre a Índia e a Rússia. Assim, Trump deixou aberta a possibilidade de adicionar essas tarifas extras aos países que manterem relações comerciais com a Rússia, o que coloca o Brasil em uma posição suscetível a novas tarifas.
Indonésia
No dia 9 de julho, mesmo dia em que Trump anunciou a imposição de tarifas ao Brasil, Lula e o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto (2024-atualmente), discutiram a ampliação de comércio em temas como agronegócio, aviação civil e defesa. Em agosto, o Brasil anunciou que começaria a exportar carne bovina para a Indonésia, com a habilitação de diversos frigoríficos brasileiros no mercado do país asiático. A Indonésia é o 4º país mais populoso do mundo e detém um mercado crescente.
ASEAN
Além da Indonésia, o governo brasileiro se aproximou dos países da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), bloco que engloba Tailândia, Filipinas, Malásia, Singapura, Indonésia, Brunei, Vietnã, Laos, Myanmar, e Camboja e tem ganhado cada vez mais espaço na pauta exportadora do Brasil, somando US$ 26,4 bilhões em 2024. O presidente Lula foi convidado para a cúpula do bloco, que ocorrerá em outubro, na Malásia. Em março, Brasil e Vietnã firmaram acordos de abertura do mercado vietnamita para a carne brasileira e cooperação em ciência e tecnologia.
Conclusão
A diversificação de parcerias e ampliação de mercados, somados ao apoio dado aos exportadores pelo governo brasileiro no Plano Brasil Soberano, pode reduzir os efeitos negativos do tarifaço sobre a economia brasileira. O Ministério da Fazenda estima, em boletim divulgado em setembro, um impacto de 0,1 ponto percentual no PIB de 2025 e a possível perda de 65 mil empregos até o final 2026 após a apresentação de medidas de mitigação. Além disso, o governo Trump tem recuado de parte das tarifas em setembro, como nos casos da celulose e do ferro-níquel. O presidente estadunidense já havia demonstrado recuos ainda em julho, quando anunciou a isenção de tarifa de 694 produtos, cerca de 43% das exportações para o país.
