A ascensão da Turquia no Mercado de Defesa Global e as relações com o Brasil

Ano VI, nº 116, 18 de dezembro de 2025

 

Por Flávio Rocha de Oliveira, Abner Carvalho e Souza, Ana Carolina Vieira de Souza, Antonio Pedro B. Mello de Miranda, Camila Alves M. Silva, Iago Carriço dos Santos Abreu, Julia J. Egito do Amaral, Marcella Oliveira Burgato, Maria C. Reis Maciel, Rennan William, Roberto Tadeu da Silva, Ronaldo Galdino e Tarcízio Rodrigo Melo (Imagem: Ricardo Stuckert/PR)

 

A Turquia atual é marcada por uma indústria de defesa que não apenas se abastece nacionalmente, mas é também protagonista nos mercados internacionais de armamentos e tecnologias militares, posicionando o país como um ator estratégico em questões político-militares na Europa, Ásia e África. 

 

A reforma do setor de defesa Turco é impulsionado a partir de 1970 por agentes e episódios externos: em razão da participação no conflito na Ilha do Chipre em 1974, os Estados Unidos, na época sobre o mandato de Richard Nixon, junto a membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte, estabeleceram um embargo de armas à Turquia, até então dependente militarmente das nações ocidentais. Em respostas a essas limitações, a indústria de defesa turca deu início a remodelagem de sua indústria armamentista, investindo no setor de desenvolvimento de tecnologias. 

 

Então, a partir da década de 1980,  o país deslanchou no fornecimento de armamentos e tecnologias bélicas para diversos mercados globalmente, projetando tecnologias e armamentos turcos nos principais conflitos, exércitos, forças da Eurásia e África . A transformação do setor de defesa veio acompanhada de um fortalecimento da política externa turca, de modo a tornar o país  em um protagonista na conjuntura global. Foram estabelecidos acordos de fornecimento de armas, cooperações e parcerias no setor de defesa e desenvolvimento de tecnologias militares com demais países membros da OTAN e nações asiáticas e africanas, expandindo a área de influência internacional turca.

 

A Turquia foi bem sucedida na fabricação de drones. Ela se tornou um exportador de drones influente e exibiu um importante papel nas disputas entre Armênia e Azerbaijão na região de Nagorno-Karabakh. O ano de 2020 foi marcado pela intensificação do fornecimento de tecnologias militares turcas para forças azeris presentes na provincia, oferecendo vantagem ao Azerbaijão na disputa. Além disso,  em fevereiro de 2022, quando houve o avanço russo sobre Kiev, a Turquia forneceu drones Bayraktar TB2 à Ucrânia (e  Anacara não rompeu relações com a Rússia). Empresas turcas aumentaram também a exportação de produtos de uso dual, ou seja, que podem servir a usos civis e militares, para a Rússia. A política multilateral turca atraiu críticas e pressões da OTAN e seus aliados, principalmente dos Estados Unidos, o que levou Ancara  a limitar parte das exportações à Rússia em  2024. 

 

A Turquia tenta conciliar sua política externa de manter-se influente no leste Europeu, manter boas relações com a Rússia e Ucrânia, e, simultaneamente atender aos interesses da OTAN. Mas o avanço da influência Turca não se limitou a Europa. Com ofertas e preços atrativos, a indústria de defesa de Ancara representa uma forma alternativa de fornecimento de armamentos para nações asiáticas e africanas que desejam se livrar da hegemonia estadunidense e chinesa. O país tornou-se então uma peça estratégica em conflitos regionais sob a posição de fornecedor e, ao mesmo tempo, mantendo boas relações com partes opositoras em uma mesma disputa. É o caso do Conflito da Caxemira, no sul asiatico : entre Abril e Maio de 2025, após uma troca de disparos entre Paquistão e Índia na região da Caxemira, a força militar indiana identificou uso de drones turcos pelo Paquistão nos ataques. Embora o acontecimento represente uma aproximação turco-paquistanesa, as relações Índia-Turquia não foram cortadas, ilustrando o sucesso da política multilateral e do aumento da influência Turca na Ásia.

 

O Brasil vem estreitando relações diplomáticas com a Turquia em diversos setores, em especial o setor de defesa, desde os primeiros anos do século XXI. Um marco fundamental para essa colaboração foi o Acordo sobre Cooperação em Assuntos Relacionados à Defesa, celebrado em Brasília em 2003. Este acordo, promulgado em 2008 após aprovação do Congresso Nacional, tem como objetivo incentivar e aumentar a cooperação no setor de defesa. A intensificação dessa parceria tornou-se mais evidente em 29 de março de 2012, quando ambos se reuniram para conversar sobre uma potencial parceria estratégica, reunindo representantes governamentais e das indústrias de defesa de ambos os países em Brasília. Na reunião, foi discutido o cenário e as perspectivas das indústrias de defesa, e foi iniciada a preparação para a visita ao Brasil do Ministro da Defesa turco, Ismet Yilmaz. A Turquia destacou a prioridade de fornecimento interno antes da exportação, com mais de 300 projetos e investimentos em pesquisa. Foi definido um Grupo de Trabalho Industrial para uma agenda conjunta entre os dois países. 

 

Em agosto de 2013, a parceria foi ampliada com a criação de cinco grupos de trabalho específicos nas áreas naval, aeronáutica, espacial e defesa cibernética. Na área naval, discutiu-se o desenvolvimento conjunto de corvetas e fragatas, com a Turquia tendo um projeto próprio que pode interessar ao Brasil, que também possui um projeto nativo. Porém, nessa área não houve avanços significativos, com a Marinha brasileira fechando um acordo com os alemães para construção e obtenção de fragatas. No setor aeronáutico, a Turquia focou em projetos de helicópteros militares de ataque (sob licença) e drones, enquanto o Brasil tem experiência na fabricação de aviões, com a Embraer. A tentativa é de aplicar o conceito de emprego dual (civil e militar) das aeronaves, além da possibilidade de montagem de helicópteros turcos no Brasil e de aviões brasileiros na Turquia. O grupo espacial explora cooperação em sistemas de lançamento e satélites, o de comando e controle focará na área de comunicações militares e o quinto grupo será relacionado com a segurança e defesa cibernética.

 

Mais recentemente, um novo Acordo de Cooperação em Indústria de Defesa, firmado entre Brasil e Turquia em 2022, foi aprovado pela Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) em 2024. O documento estabelece um marco legal robusto para a proteção de informações sensíveis e propriedade intelectual, além de prever a transferência de tecnologia e a coprodução de equipamentos, o que pode reduzir custos e estimular a indústria nacional. O Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 262/24, que contém o texto deste acordo, está atualmente em análise na Câmara dos Deputados. 

 

Em 2023, uma visita de representantes de setores da defesa do Brasil à instalações da empresa turca Baikar inicia, na prática, a cooperação entre os países, com as três forças brasileiras conduzindo programas para adquirir drones. Além disso, durante a LAAD 2025, a Turkish Aerospace (TUSAŞ) e a Embraer assinaram um Memorando de Entendimento para a produção de jatos comerciais brasileiros na Turquia, aumentando ainda mais a cooperação entre os países e demonstra a expansão da Embraer para mais países do globo. Embora o Memorando de Entendimento se concentre principalmente na aviação civil, analistas sugerem que ele pode facilitar discussões envolvendo a exportação da aeronave KC-390, concorrente do C-130 Hercules da Lockheed Martin, para a Turquia. Ainda na LAAD 2025, a empresa turca Kale Jet Engines confirmou o contrato de exportação do motor KTJ-3200 para ser usada pela companhia brasileira SIATT em seu futuro míssil MANSUP-ER, demonstrando, mais uma vez, o fortalecimento da cooperação no setor de defesa entre o Brasil e a Turquia.

 

Publicado em novembro de 2025, em seu relatório anual de defesa de 2024, o governo francês reconheceu a rápida ascensão da Turquia como uma potência emergente no setor global de exportações de armamentos, destacando o país como exemplo de crescimento acelerado e de forte investimento estatal na indústria militar. O documento ressalta que a Turquia tem apresentado uma das progressões mais admiráveis entre os dez maiores exportadores de defesa do mundo, impulsionada especialmente pela produção e exportação de drones, que consolidaram sua presença em diversos mercados internacionais. A França compara o avanço turco ao da Coreia do Sul, apontando que ambos seguem uma trajetória de expansão tecnológica e estratégica que desafia o domínio tradicional das potências ocidentais no comércio internacional de armas.

 

Além disso, em 27 de outubro de 2025, foi assinado um novo acordo entre Ancara (Turquia) e Londres (Reino Unido). Os dois países fecharam um contrato de aproximadamente 9 bilhões de euros para a compra de 20 caças Eurofighter Typhoon pela Turquia. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer afirmou que o pacto fortalece a cooperação bilateral em defesa, gera cerca de 20.000 empregos britânicos e reforça a segurança da OTAN no sudeste europeu. Já o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan descreveu o contrato como “um novo símbolo da relação estratégica” entre os dois países.

 

Nesse contexto, ainda em 2025, o Turquia iniciou a produção do Tanque de Batalha Principal (MTB) Altay, seu mais novo carro de combate. O programa Altay, que teve sua origem com uma parceria do país com a Coreia do Sul, representa em seu mais novo blindado um ganho significativo para as forças armadas turcas, representando uma soberania estratégica e independência tecnológica em relação às importações de componentes e material industrial. Essa independência é marcada pelo motor BATU e todo o ecossistema autônomo de produção do país capaz de dar materialidade à essa nova geração de blindados.

 

Diante desse panorama, observa-se que a Turquia consolidou uma trajetória singular de ascensão no setor de defesa, combinando investimento tecnológico e atuação estratégica. Sua capacidade de equilibrar relações complexas revela um modelo flexível de política externa que potencializa sua influência global. Nesse contexto, o aprofundamento das relações com o Brasil, marcado por acordos, coproduções e intercâmbio tecnológico, insere ambos os países em uma lógica de benefícios mútuos e fortalecimento de suas respectivas indústrias de defesa. Assim, a parceria Brasil–Turquia se apresenta não apenas como uma cooperação bilateral, mas como parte de uma reorganização mais ampla do sistema internacional de armamentos e da política externa Turca, na qual novos atores buscam protagonismo e autonomia estratégica. 

 

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