Os africanos na COP 30

Ano VI, nº 116, 18 de dezembro de 2025

Por Nathalia de Andrade Costa, Isabella Werneck Zanon, Eloisa Goes, Matheus Dias de Albuquerque e Danilo Faustino (Imagem: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR)

 

Os países africanos tiveram participação importante na COP30 realizada no Brasil, na cidade de Belém. Um aspecto comum nos discursos dos representantes africanos foi o destaque para as proximidades entre as suas demandas e as demandas brasileiras, ressaltando o desafio para o enfrentamento da crise climática das economias periféricas e os processos de transição energética. A cooperação climática entre Brasil e África é uma área prioritária da política externa brasileira, focada na troca de experiências, tecnologias ambientais e desenvolvimento de projetos sustentáveis, especialmente em agricultura, bioeconomia e financiamento verde.

 

Namíbia 

Em 2024, Namíbia elegeu sua primeira presidente mulher, Netumbo Nandi-Ndaitwah, conhecida como NNN, que vem se comprometendo em aumentar os investimentos em agricultura,  diversificação da economia e criação de empregos, além de estabelecer uma agenda sustentável voltada à questão energética. A trajetória da presidente em questões políticas começa aos seus 14 anos, quando ingressa na Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO), movimento político fundado em 1960, que visava à luta pela independência da Namíbia sobre o regime de apatheid sul-africano.

O país vem registrando um crescimento econômico relativamente alto nos últimos anos, isso se dá pela Namíbia ser um país com terras raras, sendo o setor de mineração o principal motor da economia nacional, representando cerca de 10% do PIB anual (International Trade Administration, 2024). A extração de diamantes tem sido o principal subsetor da indústria de mineração namibiana, assim como das commodities de lítio, cobalto é urânio. Tão qual, é considerada por ter uma das maiores minas de urânio do mundo. Fora a pretensão de iniciar sua própria produção de petróleo bruto até 2030, diante da recente descoberta na Bacia de Orange, que se espera jazidas superiores a 10 bilhões de barris (G1, 2025). 

Desta forma, Namíbia vem se tornando um centro de grande capacidade energética no continente africano, isso é destacado no discurso da presidente NNN na Cop 30 em Belém, no Pará, com o anúncio da primeira usina de ferro verde da África, a Hylron Oshivela, que torna o país uma das lideranças globais em industrialização verde, o posicionando como um polo de energia sustentável. A Hylron é formado por um consórcio de empresas alemãs e namibianas do setor energético, em plena capacidade vai produzir um milhão de toneladas de ferro verde anualmente, e reduzirá 1,8 milhão de toneladas de emissões de CO₂, como também vai criar mais de 6.000 empregos na construção e 900 postos permanentes (European Commission, 2025). Ao viabilizar investimentos na área energética, Namíbia vem fortalecendo suas instituições, criando infraestrutura na gestão ambiental, reforçando a boa governança nacional e estabelecendo seu espaço na política Internacional. 

O encontro do G20 na África do Sul, também vem revelando uma nova camada deste sistema internacional que vem se formando, com a ausência de potências econômicas como EUA e Rússia, a participação da África tomou grande destaque. No qual, Namíbia protagonizou com a fala “A importância de abordar as prioridades de desenvolvimento a partir da perspectiva africana não pode ser subestimada” (CNN, 2025).

Portanto, a Namíbia sobre gestão de Netumbo vem demonstrando estar ativa e compromissada em fóruns e conferências internacionais, estabelecendo parcerias comerciais diversas, como com a China através da Exposição Econômica e Comercial China-África (CAETE), e com o Brasil, sobre governo Lula 3 e negociações da Namíbia fortalecer relações servindo como base portuária para os produtos brasileiros, Assim estimulando o comércio e a participação das empresas brasileiras nas oportunidades de investimento nos países da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC).

 

Moçambique

Em 2025, Moçambique comemorou seu cinquentenário da Independência e da relação de cooperação bilateral com o Brasil, aprofundando laços históricos, culturais e de amizade entre os dois países, construído partir de uma afinidade histórica compartilhada, assim como uma identidade cultural interligada e do idioma comum.

Em celebração à solenidade do 50º aniversário de relações diplomáticas entre os países, na capital Maputo, os presidentes das duas nações, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e o presidente de Moçambique, Daniel Chapo, assinaram acordos nas áreas de desenvolvimento, saúde, educação, diplomacia, empreendedorismo, promoção comercial, aviação civil, assistência jurídica e serviços agroflorestais. Destacando dentre as propostas uma cooperação sobre financiamento em infraestrutura, transição energética e adaptação às mudanças globais, que estejam em alinhamento com a agenda climática da COP 30, sediada pelo Brasil, na cidade de Belém, capital do Pará. O presidente Daniel Chapo também esteve presente na COP 30 e discursou sobre a dificuldade de conseguir recursos destinados a fundos climáticos, devido ao caráter burocrático excessivo, principalmente para os países em vias de desenvolvimento. Ele se referiu, possivelmente, ao episódio de 2021, na COP 26, em Glasgow, no Reino Unido, em que ativistas ambientais europeus foram contra o financiamento internacional para explorar as reservas de gás natural de Cabo Delgado em Moçambique. 

Ainda que o país africano atualmente venha trabalhando em uma transição energética em três diferentes frentes, de gás natural em  Inhambane (sul), carvão em Tete (centro) e gás natural liquefeito (GNL) em Cabo Delgado (norte), também há investimento para energias renováveis, destacando-se como a maior produtora de hidroeletricidade da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) através da Hidroelétrica de Cahora Bassa (HCB), com capacidade de gerar 2075 MW. A Associação Moçambicana de Energias Renováveis (AMER) anunciou que Moçambique ultrapassou a marca de 700 mil sistemas solares domésticos instalados em seu território (AIM news, 2025)

Afinal, o  compromisso e a  participação ativa do país na COP 30 está relacionado à urgência do enfrentamento às mudanças climáticas que se manifestam através de ciclones tropicais nos últimos dois anos. Portanto, Moçambique vem ganhando grande destaque em fóruns e organizações globais e regionais, como no caso dos acordos bilaterais entre Brasil e Moçambique, e o direcionamento para os temas de uma transição energética verde, abordado na COP 30.

 

Egito

A delegação egípcia chegou a Belém para a COP30 sob a liderança da Ministra do Meio Ambiente Manal Awad Mikhail em um movimento que foi ao mesmo tempo político, simbólico e profundamente estratégico, pois para o Egito estar na Amazônia significava dialogar com outro grande território moldado pela água, pela escassez e pela necessidade histórica de adaptação, conectando a experiência do Nilo às vulnerabilidades e potências do Amazonas, em uma leitura que o próprio discurso egípcio fez questão de enfatizar. O apoio do país ao documento FCCC/PA/CMA/2025/L.24, a proposta de decisão da Presidência da COP30 conhecida como Global Mutirão, foi explícito e alinhado com uma trajetória que o Egito já vinha construindo desde a COP27 em Sharm el-Sheikh, quando passou a defender com mais força mecanismos vinculantes de financiamento climático e transferência tecnológica, entendendo que sem esses instrumentos a ação climática se tornaria apenas retórica, distante das realidades do Sul Global (UNFCCC, 2025).

Para o Cairo, o Global Mutirão não representa apenas um consenso político amplo, mas sim uma ferramenta jurídica concreta capaz de sustentar projetos estruturantes, especialmente aqueles voltados à transição energética, como os ambiciosos planos nacionais de hidrogênio verde, que dependem diretamente de cooperação internacional, previsibilidade financeira e acesso a tecnologia. Em seu discurso no plenário, Manal Awad Mikhail deixou claro que o apoio egípcio ao texto se fundamenta na compreensão de que a ação climática deve ser pensada como um esforço coletivo de longo prazo, comparável às grandes obras civilizatórias do passado, e que o Mutirão legitima o Egito como um ator central na futura arquitetura energética entre África e Europa, ao mesmo tempo em que reconhece suas vulnerabilidades históricas relacionadas à água, à segurança alimentar e à estabilidade regional (ŞIK et al., 2025).

Essa posição está diretamente conectada à atualização das Contribuições Nacionalmente Determinadas do Egito, que passaram a enfatizar com maior clareza a descarbonização da indústria pesada, a modernização logística do Canal de Suez e a consolidação do país como um hub energético verde, especialmente no contexto do hidrogênio, como apontam Ringel e Stöckigt (2024). Durante a COP30, essa estratégia encontrou pontos de convergência evidentes com o Brasil, tanto pela atuação conjunta no âmbito do BRICS quanto pela defesa comum de um fortalecimento da voz do Sul Global nas negociações climáticas, com destaque para temas como financiamento, adaptação e justiça climática. As conversas bilaterais giraram em torno da troca de experiências sobre gestão de bacias hidrográficas sob estresse climático, cooperação agrícola em áreas áridas e semiáridas e o papel da inovação tecnológica como vetor de desenvolvimento, dialogando com as análises de Sharaan e Ibrahim (2024) sobre adaptação local e com as reflexões de Dauvergne e Qi (2024) acerca da integridade do Acordo de Paris. Ao final, a mensagem transmitida pela delegação egípcia foi clara, o país não se vê como vítima passiva da crise climática, mas como um agente ativo de transformação, disposto a combinar tradição milenar e inovação energética para ocupar um lugar central na solução global (SIS, 2025).

 

Mauritânia

A participação da Mauritânia na COP30 foi marcada por um discurso que trouxe para o centro do debate a realidade do Sahel, da aridez crescente e da vulnerabilidade estrutural que historicamente molda o país, sob a liderança da Ministra do Meio Ambiente Messouda Baham Mohamed Laghdaf, cuja fala combinou dados técnicos e uma leitura política clara da urgência climática. O apoio mauritano ao Global Mutirão foi apresentado como uma decisão de sobrevivência estratégica, pois para o país o documento representa a possibilidade concreta de transformar a lógica de resposta emergencial à desertificação em uma política de adaptação estruturante, capaz de gerar desenvolvimento econômico e segurança alimentar de longo prazo (AURÉLIEN, 2024).

Para a Mauritânia, o Global Mutirão é central porque fortalece o financiamento para adaptação e para o Fundo de Perdas e Danos, elementos indispensáveis diante do avanço da desertificação, da pressão sobre os recursos hídricos e da instabilidade dos sistemas produtivos locais. A ministra destacou que o texto cria as condições jurídicas necessárias para ampliar projetos como a Grande Muralha Verde, entendida não apenas como uma iniciativa ambiental, mas como um corredor integrado de desenvolvimento, geração de renda e proteção social, permitindo que o país direcione recursos para infraestrutura resiliente em vez de permanecer preso a ciclos sucessivos de crise humanitária (NHAMO; CHAPUNGU, 2024).

A assinatura do Mutirão também foi apresentada como um passo decisivo para viabilizar a ambição energética da Mauritânia, expressa em sua NDC, que prevê uma redução incondicional de emissões de 11%, podendo chegar a 92% até 2030 de forma condicionada ao apoio internacional (UNFCCC, 2021). Esse apoio é visto como essencial para destravar investimentos em energia eólica e hidrogênio verde, setores nos quais o país possui vantagens naturais significativas. Nesse contexto, a ministra ressaltou a importância da cooperação Sul-Sul, apontando o Brasil como um parceiro estratégico, especialmente pela experiência brasileira na gestão de biomas complexos e no desenvolvimento de políticas ambientais integradas, criando uma complementaridade de saberes entre adaptação à aridez e conservação de ecossistemas tropicais. A Mauritânia deixou Belém com a narrativa de que suas paisagens áridas não representam estagnação, mas potencial, e que a transição energética global depende diretamente da capacidade africana de transformar vulnerabilidade em oportunidade (AMI, 2025).

 

Quênia

O Quênia chegou à COP30 com uma postura assertiva, sustentada pela experiência concreta de já operar uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, sob a liderança do Vice-Presidente Kithure Kindiki, que deixou claro desde o início que a delegação não estava em Belém para pedir concessões, mas para exigir coerência entre discurso climático e ação financeira. O apoio ao Global Mutirão veio acompanhado de uma cobrança direta por agilidade no desembolso de recursos, pois, para Nairóbi, não há sentido em compromissos ambiciosos se o financiamento não acompanha a velocidade com que os impactos climáticos atingem o continente africano (QUÊNIA, 2025).

Para o Quênia, o Global Mutirão legitima uma agenda de justiça climática que o país defende há anos, ao reconhecer a necessidade de ampliar rapidamente a capacidade global de energia renovável e fortalecer políticas de adaptação. O documento é visto como um instrumento capaz de destravar investimentos privados e acelerar a universalização do acesso à energia limpa, especialmente em áreas rurais e periféricas. Em seu discurso, Kindiki foi incisivo ao afirmar que a demora na implementação das promessas climáticas tem custos humanos concretos, classificando a inação como injusta e moralmente inaceitável, além de defender uma reforma profunda do sistema financeiro internacional, uma posição que dialoga com análises sobre o discurso climático nas COPs (MAH; SONG, 2024).

Essa postura encontra respaldo no histórico do país, que já gera mais de 90% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, com destaque para a energia geotérmica, buscando ampliar ainda mais essa capacidade (ROTICH et al., 2024). O Global Mutirão fortalece a posição queniana ao alinhar o financiamento climático às metas de sua Segunda NDC para o período 2031–2035, que inclui compromissos ambiciosos de reflorestamento, eficiência energética e inclusão social (UNFCCC, 2025). Durante a COP30, o Quênia também aprofundou o diálogo com o Brasil, especialmente em temas ligados a biocombustíveis e governança ambiental, reforçando uma atuação conjunta do Sul Global. O país se consolidou em Belém como um exemplo de que a transição verde pode ser rápida, justa e socialmente enraizada, combinando expansão energética de baixo carbono, proteção de ecossistemas como os manguezais de Lamu e a distribuição equitativa dos benefícios da economia verde (GORE et al., 2025; NJENGA et al., 2025; MUSONYE et al., 2025).

 

África do Sul

No que concerne à África do Sul, sua atuação na COP30 foi marcada pela reafirmação do compromisso com o Acordo de Paris e com os princípios da equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. O Ministro Dion George destacou que, conforme apontado pelo Balanço Global, os avanços em mitigação, adaptação, bem como em perdas e danos, têm ocorrido em ritmo excessivamente lento, o que demanda uma aceleração imediata dos esforços internacionais. A delegação sul-africana também manifestou forte preocupação com a adoção de medidas comerciais unilaterais por países desenvolvidos sob o pretexto climático, que possam comprometer o desenvolvimento industrial e socioeconômico dos países em desenvolvimento, dificultando uma transição justa e enfraquecendo o enfrentamento global da crise climática.

As expectativas da África do Sul para a COP30 foram claras e centradas em três eixos principais: a necessidade de que o Objetivo Global de adaptação apresente indicadores mensuráveis e financiamento adequado; a capitalização efetiva do Fundo de Perdas e Danos; e o avanço da meta de mobilização de um financiamento concessional e subvenções para os países em desenvolvimento.

No plano doméstico, o país tem demonstrado ações concretas. A África do Sul submeteu sua segunda Contribuição Nacionalmente Determinada, estabelecendo uma nova meta de mitigação para 2035, entre 320 e 380 megatoneladas de CO₂ equivalente, além de promulgar a Lei de Mudanças Climáticas, que fortalece o arcabouço institucional da política climática nacional.

No setor energético, a África do Sul encontra-se em um processo de transformação estrutural, com foco na ampliação das fontes renováveis e na reforma de seu mercado de eletricidade. O objetivo é expandir a rede para viabilizar a adição de 30 gigawatts de nova capacidade instalada até 2030. Esse esforço é orientado pelo Plano Diretor de Energia Renovável, que vincula a expansão da infraestrutura energética à industrialização, promovendo a geração de empregos nas cadeias de energia solar, eólica, baterias e hidrogênio verde, de modo a assegurar um crescimento econômico simultaneamente inclusivo e de baixo carbono, além de impulsionar a descarbonização de setores intensivos em emissões, como o aço e o alumínio.

A participação sul-africana na COP30, realizada em Belém, destacou o país como uma ponte estratégica entre o Sul Global e as demandas por justiça climática. Um dos eixos centrais da atuação da delegação foi a defesa da “Transição Justa”, entendida como a integração entre metas ambientais e justiça social. Nesse sentido, a África do Sul apoiou a criação de um Programa de Trabalho para a Transição Justa, que inclua salvaguardas sociais e financiamento adequado para proteger trabalhadores, mulheres e comunidades mais vulneráveis, com especial atenção às regiões altamente dependentes do carvão.

Outro ponto relevante foi a posição sul-africana em relação aos minerais críticos. O país defendeu o processamento doméstico de recursos como platina e manganês, com o objetivo de agregar valor econômico, gerar empregos locais e promover maior equidade nas cadeias globais de suprimentos. Essa estratégia está alinhada à meta africana de ampliar em até 70% a agregação de valor nas exportações desses minerais até 2035.

Em um contexto africano mais amplo, a posição da África do Sul reflete uma visão compartilhada pelo continente, que busca financiamento climático e justiça internacional. Embora os países africanos sejam responsáveis por menos de 4% das emissões globais, sofrem de forma desproporcional os impactos das mudanças climáticas. Iniciativas como o Dia da África na COP30, organizado pelo Banco Africano de Desenvolvimento, evidenciaram o potencial do continente para mobilizar um grande aporte financeiro anual por meio de reformas nos mercados de carbono, além de gerar milhões de empregos verdes. Nesse sentido, a África do Sul desponta como liderança regional, apoiada por sua rica biodiversidade e abundantes recursos renováveis, sendo vista como protagonista em soluções como captura de carbono e expansão da energia limpa, contribuindo para fortalecer o debate sobre inovação climática africana. 

 

Gana

Para participação na Conferência sobre Clima em Belém (COP-30) realizada entre 10 e 21 de novembro, a República de Gana trouxe parlamentares do Congresso, seu Ministro de Terras e Recursos Naturais Emmanuel Armah-Kofi Buah, Ministro do Clima Seidu Issifu, Diretor chefe do Ministério do Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia Suweibatu Adam, entre outras figuras oficiais, como de órgãos climáticos e o Ministério da Agricultura. A presença de figuras de altas posições no governo demonstrou grande comprometimento com as pautas climáticas, tal qual a relevância dada ao evento.

Em alinhamento com a perspectiva do Continente Africano para a COP-30, Gana procurou abordar temas como: medidas alternativas e mais rápidas de financiamento climático aos países; modelos de contenção equânimes e justos aos países contra o aquecimento global, a justiça social e a preocupação com os países já impactados pelas mudanças climáticas, no qual diversos países da África Subsaariana fazem parte; como também apresentar ao mundo o que o país vem fazendo para desenvolver tecnologias de cultivo, plantio e reflorestamento em seu território (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2025). 

“De acordo com a Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, o continente pressionará por um aumento do financiamento climático, pela operacionalização do mecanismo de financiamento climático, o Fundo de Perdas e Danos, por uma transição energética justa e por um acesso equitativo aos mercados de carbono” (DW, 2025).

Houve a celebração do “Ghana Green Day” no dia 17/11 no qual representantes do país puderam apresentar na prática as políticas adotadas em seu território para reflorestamento, como projetos de alinhamento do governo com os agricultores e com o setor privado para maior acesso a dados meteorológicos através do programa Climate Smart Agriculture e Early Warning Systems e com base nisso trabalhar em políticas de prevenção a enchentes e desastres, através de monitoramento das condições meteorológicas e sua propagação aos produtores, evitando assim impacto nas colheitas. Além disso, os oficiais do país expuseram o status atual do Nationally Determined Contributions (NDC) – cfe traçado via Acordo de Paris – e os próximos passos do país frente a políticas de transição energética e de proteção ao meio ambiente (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2025).

O país também esteve presente em demais eventos, como na agenda de “Implementação Concreta em Países Vulneráveis às Mudanças Climáticas: O Papel das Plataformas Nacionais” (Portal Cultura). 

Frente a um tema de extrema relevância e impacto a nações da região subsaariana do continente africano, o Ministro ganês Seidu Issifu trouxe a proposta de um Centro de Prática e Inovação em coordenação pelo CVF-V20 (Fórum de Vulnerabilidade Climática e Grupo dos 20 Vulneráveis) para que haja um melhor intercâmbio de informações e conhecimentos entre as nações a fim de gerar uma melhor implementação de ações climáticas de proteção.

As ações e discursos trazidos para COP demonstram o alinhamento de Gana com o discurso global da necessidade urgente de se pensar em um novo modelo de produção que se paute pela proteção do meio ambiente, a fim de garantir a manutenção da vida no planeta. A partir do papel de destaque regional acerca do tema, o país busca trazer à tona os impactos já causados aos países do sul global econômica, política e climaticamente e medidas para tentativa de reversão, traçando por caminho a adoção de práticas de suas populações originárias para o cuidado do solo. (DW, 2025)  

 

Nigéria

Como principal produtor de petróleo do continente africano, a participação da Nigéria na COP30 era vista com grande interesse. Além da reaproximação do governo Lula com o país, garantir uma interlocução com a alta cúpula nigeriana era parte chave para que as delegações africanas pudessem ganhar espaço nas discussões em torno das mudanças climáticas. As articulações entre os dois países tiveram como resultado  participação da delegação da Nigéria como a terceira maior do evento, atrás apenas do Brasil e da China. 

Durante uma visita do presidente Bola Tinubu ao Brasil em agosto, o presidente Lula confirmou que convidou sua contraparte nigeriano para apoiar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Uma vez que a Nigéria possui o maior ecossistema de manguezais, bioma incidente em regiões tropicais, o país se mostra como um pilar importante na construção das articulações para o novo fundo. Sendo um dos países signatários da criação do Fundo, a nação africana busca reforçar sua posição de liderança sobre o tema climático no continente. 

Em seu discurso no encontro com líderes mundiais em Belém, o vice-presidente nigeriano Kashim Shettima usou de seu tempo para reconhecer a situação delicada em que os recursos naturais se encontram, destacando que o cuidado das florestas e dos oceanos é uma responsabilidade coletiva. Além disso, o político deu atenção para as iniciativas nigerianas de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, tal como o fundo dedicado às mudanças climáticas e o mercado de carbono, além do plano de reflorestamento com metas para 2030. Outro destaque na fala de Shettima é o reforço de que países do Sul Global tem menor participação na crise climática, mas são os que mais sofrem com seus efeitos. Kashim foi incisivo na ideia de que justiça climática precisa ser implementa, fazendo os países que se beneficiam pela exploração serem aqueles que liderem a recuperação. 

A participação nigeriana é resultado da articulação da diplomacia brasileira e do próprio governo da Nigéria que historicamente utiliza espaços internacionais para alavancar suas agendas. Para o evento em Belém, o governo nigeriano tinha como objetivo defender sua ideia de que a “Nigéria acredita que a COP30 deve marcar o início de um novo pacto — um pacto que reconheça os ecossistemas africanos como bens globais que merecem investimento e proteção globais” (Shettima, 2025).

 

Referências Bibliográficas

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APEXBRASIL. “Estou de volta, Moçambique, e vou trabalhar ainda mais pela nossa presença na África”, afirma presidente Lula durante Fórum Empresarial em Maputo. Disponível em: https://apexbrasil.com.br/content/apexbrasil/br/pt/conteudo/noticias/-estou-de-volta–mocambique–e-vou-trabalhar-ainda-mais-pela-nos.html. Acesso em: 5 dez. 2025.

AURÉLIEN, D. Vulnerability to climate change in Sub-Saharan Africa. Climate Policy, 2024. Disponível em: https://www.cell.com/heliyon/fulltext/S2405-8440(25)00897-7. Acesso em: 24 nov. 2025.

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