Entre a Teoria e a Prática: O Plano Flávio Bolsonaro sob a Sombra da Argentina de Milei

Ano VII, nº 133, 24 de Setembro de 2026

Por Clara Parra Dias, Júlia Almeida Reis, Pedro Guilherme Echila Rocha, Rafael Antonio Novaes Bevilacqua (Imagem: Daniel Freitas/PL)

A porta-voz econômica da candidatura de Flávio Bolsonaro anuncia que seu modelo é o projeto ultraliberal de Javier Milei, na Argentina. Embora as formulações tenham a mesma base conceitual do programa de Lula – o arcabouço fiscal deve ser mantido – a radicalidade e a velocidade de sua aplicação podem desorganizar a economia brasileira, como vem ocorrendo no país vizinho

Introdução

A poucos meses das eleições presidenciais de 2026, a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) começou a desenhar com mais clareza os contornos de seu programa econômico e o fez apontando, publicamente, para o governo do presidente argentino Javier Milei. Em declarações dadas em setembro deste ano, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, afirmou que as reformas promovidas na Argentina desde 2023 serviriam de inspiração para o que chama de “revogaço” — a revisão de mais de mil normas infralegais — e para a reversão de impostos criados ou elevados durante a gestão do ministro Fernando Haddad.

A aproximação declarada com o modelo argentino não é apenas retórica. Ela expressa, em diversos pontos, o próprio plano de governo do senador, que defende, segundo material divulgado, desburocratização, corte de gastos públicos, retomada de privatizações e um Estado com menor presença na economia. São diretrizes que dialogam diretamente com os pilares do liberalismo econômico adotado por Milei. Ocorre que essa mesma experiência argentina, tomada como referência, já revela hoje resultados ambíguos: se por um lado o país obteve controle inflacionário e superávit fiscal, por outro amarga aumento do desemprego, informalidade recorde, queda no consumo e uma desaprovação popular que ultrapassa a metade dos argentinos.

Nas próximas seções, o texto reconstrói a fala da coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, compara os eixos centrais de seu plano com as reformas argentinas, descreve o andamento prático dessas reformas na economia do país vizinho e examina os efeitos concretos sobre a população, antes de concluir com uma reflexão sobre os riscos e desafios de se importar esse modelo para a realidade brasileira.

Coordenadora econômica de Flávio promete “revogaço” inspirado em Milei 

A coordenadora do programa econômico da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Daniella Marques, afirmou nesta segunda-feira (14/9), durante o seminário “Brasil Hoje”, promovido pelo Instituto Esfera Brasil na Casa Fasano, em São Paulo, que um eventual governo do senador buscará inspiração nas reformas do presidente argentino Javier Milei. “Vamos usar de inspiração no que foi feito pelo governo de Javier Milei, na Argentina”, disse a ex-presidente da Caixa Econômica Federal à imprensa, classificando o líder ultraliberal como um “ótimo exemplo” em termos de recuperação da capacidade de investimento, redução de burocracia e de impostos. Segundo ela, o foco do futuro governo será colocar “as contas no azul” para permitir, consequentemente, “a redução da taxa de juros — hoje fixada em 13,75% ao ano pelo Banco Central.

O núcleo da proposta é o que sua equipe já chama internamente de “revogaço”: o mapeamento de mais de mil normas infralegais (entre regulamentos e obrigações acessórias) que seriam descartadas logo no início de um eventual mandato, com o objetivo declarado de “desburocratizar” a economia. “Iniciamos o mapeamento de mais de mil normas, entre obrigações acessórias e regulamentos infralegais, visando à desburocratização“, afirmou Marques.

A coordenadora foi além:. “Flávio fez uma orientação para a equipe. A gente trabalha na revogação e em voltar atrás em todos os impostos criados ou elevados pelo [ministro Fernando]  Haddad“, disse. A frase resume o tom da fala: um ataque direto à política tributária do governo Lula, apresentada como a origem do que ela chamou de “descontrole absoluto nas contas”, o qual, segundo ela, já se expressa”no balanço das empresas e das famílias”.

Relação dívida/PIB não quer dizer muita coisa

Marques citou o salto da dívida pública bruta, que passou de 71,67% para 82% do PIB durante o governo atual, como justificativa para a urgência do ajuste, alertando que, sem mudanças, o país poderia ultrapassar 100% do PIB em dívida rapidamente. Em termos objetivos, a relação dívida PIB não significa muita coisa. Países centrais, em geral, têm dívidas ao redor ou acima de 100% do PIB, como Japão (204,4%), Estados Unidos (125,8%), China (102,25%) e Itália (138,4%), entre outros. De outra parte, Estados pobres têm débitos abaixo de 40%, a exemplo de Tadjiquistão (21,9%), Turcomenistão (3,7%), Bulgária (28,2%), República Democrática do Congo (24,6%), Estônia (27,8%) e Haiti (10,7%). Os dados estão na página do FMI.  

Apesar dessas proporções se constituírem em uma mitologia mercadista, existe a possibilidade virtuosa de se reduzir a relação dívida/PIB através do aumento do denominador, com o crescimento da produção e do emprego.

O que importa é o custo da dívida, ou qual a taxa básica de juros que os Bancos Centrais têm de fixar para que seus papéis se tornem atraentes para agentes financeiros e para regular a liquidez da economia. As taxas nos EUA e na zona do euro em geral não são altas quando comparadas às da periferia. As do Brasil são as mais altas do mundo. Já o baixo endividamento pode indicar desinteresse de investidores e ausência de um mercado de capitais com alguma robustez. Apesar disso, esse é o indicador que baliza as ações de governos neoliberais.

Arcabouço fiscal é consenso

No campo fiscal, a coordenadora garantiu que programas sociais como o Bolsa Família não serão tocados. O ajuste mirará, segundo ela, “privilégios” na estrutura da máquina pública e benefícios tributários considerados desnecessários. A estratégia passa por duas PECs anunciadas como prioritárias já na transição de um eventual governo Flávio: uma de contenção de gastos dos três Poderes, negociada com o “colégio de líderes” do Congresso como um “pacto de autocontenção” para recuperar a credibilidade do país perante os credores; e outra pelo fim da reeleição, que na visão da equipe permitiria que decisões econômicas deixassem de ser reféns do calendário eleitoral.

Sobre a reforma tributária do consumo, Marques disse que a campanha não pretende reabrir a discussão legislativa por completo: “a gente é a favor do arcabouço, não acha que vale a pena iniciar uma discussão legislativa de novo“, mas fará ajustes na regulamentação para reduzir o número de exceções. Na avaliação dela, a reforma nasceu com o objetivo de simplificar o sistema e reduzir a carga tributária, mas se transformou, ao longo da tramitação, em “uma colcha de retalhos de tantas exceções que cada um foi salvar o seu”, resultando em uma alíquota de referência estimada em 28% — que ela chamou de “a maior alíquota do mundo” — e em cinco tributos, em vez dos dois inicialmente prometidos. 

Questionada sobre o Banco Central, Marques evitou qualquer sinalização de embate com o atual presidente da instituição, Gabriel Galípolo, indicado por Lula. “Respeitamos profundamente a autonomia do Banco Central, que é um avanço institucional essencial para a nossa estabilidade econômica”, disse, defendendo que decisões sobre juros e a fiscalização do sistema financeiro permaneçam sob critérios técnicos da autarquia. Na política externa, a coordenadora fez questão de moderar o tom liberal-ortodoxo, afirmando que o objetivo é o diálogo com “todas as nações”, incluindo a China, e não o alinhamento automático ao eixo argentino-americano.

As promessas da direita brasileira e o alerta argentino

O que significaria a inspiração do Plano Econômico de Flávio Bolsonaro em Milei? De acordo com Felipe Erlich em sua reportagem da Veja, assim como fez o presidente argentino, uma série de normas seriam eliminadas e uma agenda de desburocratização criada. Daniella Marques, como previamente abordado, incluiu que mesmo sem mudar muito dos programas sociais, seriam metas os cortes no gasto público (“tesouraço”) e tributos criados no presente governo de Luiz Inácio Lula da Silva seriam revogados (“revogaço”). As privatizações persistem como um foco do partido de direita.

A leitura de Plano de Governo de Flávio Bolsonaro corrobora essas promessas. O subitem “Brasil mais barato” faz uma crítica a aumentos de tributação e do juro real apontados no governo atual, assim como ao endividamento elevado das famílias brasileiras. Defende medidas passadas bolsonaristas e, para um possível mandato, deseja reduzir impostos sobre a produção e consumo com “a revisão e o redimensionamento da reforma tributária em curso e da majoração de impostos efetuada pelo atual governo” bem como a dívida pública para estabilizar o juro e inflação.  

Em projetos como  “Brasil sem fila” e “Brasil que prospera” enfatiza as qualidades da desburocratização com a citação da Lei de Liberdade Econômica (2019), e propõe um “amplo revogaço regulatório” para rever normas que acredita serem obsoletas e racionalizar os sistema, além de simplificar e acelerar procedimentos tanto para indústria quanto para o campo. Seu discurso tangencia temas como meritocracia, uma interpretação de liberdade, incentivo ao empreendedorismo agregados à crença de uma redução de interferência econômica estatal. A lógica utilizada conecta-se diretamente com o neoliberalismo, autonomia e mercado livre de intervencionismo que abrem o plano do partido La Libertad Avanza de Milei em 2023, assim como todos os valores mencionados por ele. Comparativamente, porém, o brasileiro é menos extremo na visão das políticas públicas assistencialistas e de direitos trabalhistas do que o argentino.

Novamente, o diálogo prossegue, agora com propostas até mais semelhantes, nos eixos “Brasil que cumpre a Constituição” e  “Brasil que não volta atrás”, com a oposição a parte da estrutura interna do próprio país em afirmações sobre a necessidade de mudança. A parte final do plano de Flávio Bolsonaro prioriza o “tesouraço” como caminho de redução de custos governamentais e otimização da máquina pública, junto à prevenção de corrupção, reforma fiscal, cortes de ministérios, redução de despesas administrativas e “a revisão do pacto federativo e a redefinição das regras e dos processos orçamentários”. Adicionalmente, acredita na retomada do Programa Nacional de Desestatização, o que tem como consequência a ampliação do espaço para políticas de privatização.

Há dois anos, o jornalista Rob Plummer destacou em sua análise da BBC que até então o Governo de Milei havia sido marcado pelo corte de subsídios estatais aos combustíveis e cortes nos ministérios. Sua redução de gastos públicos, tal como a intencionada pelo candidato Bolsonaro, contribuiu para a mudança do perfil do país de deficitário para superavitário em  264,9 bilhões de pesos (cerca de R$ 896 bilhões na conversão atual) e recuo da inflação. O governo sofria dificuldades em conquistar maiorias no Congresso e até de construir consensos para viabilizar mais projetos (algo que possivelmente se replicaria no Brasil dada a forte polarização interna do país, independentemente dos resultados das eleições) 

Hoje, com dados atuais da InfoMoney, observa-se que a recuperação que o tornou popular se estagnou. O Produto Interno Bruto encolheu em relação ao trimestre passado, o desemprego aumentou, o número de empresas decresceu em mais de 30.000, elevaram-se os casos de inadimplência, o consumo caiu 2,4% no segundo trimestre, a renda familiar se encontra frágil e a falta de apoio, somada às incertezas políticas e preocupações com governabilidade, é vista como possível fonte do novo enfraquecimento argentino. A pesquisa da AtlasIntel apontou 58% de desaprovação do governo contra 38% de aprovação. É colocada em perspectiva uma possível reversão de reformas fiscais e de mercado realizadas.

Da “motosserra” ao aprofundamento das desigualdades 

Javier Milei assumiu a presidência da Argentina em 10 de dezembro de 2023 e anunciou que “motosserraria” o Estado. A metáfora ilustra o modelo econômico defendido pelo argentino, caracterizado pelo corte radical e sem negociação das estruturas públicas (Rocha, 2026). O seu primeiro discurso após ser eleito expôs os elementos mobilizados para dar legitimidade à agenda econômica, ao anunciar uma “reconstrução da Argentina”, iludindo uma crítica aos modelos políticos anteriores — peronismo e kirchnerismo — baseados no papel ativo do Estado. 

Segundo Milei: “Hoje voltamos a abraçar as ideias de liberdade. Hoje começa o fim da decadência. Hoje termina a ideia de que o Estado é um butim que se reparte entre os políticos e seus amigos. A Argentina tem futuro, e esse futuro é liberal.” Esses elementos discursivos funcionam como um instrumento de poder que delimita o que pode ser dito e pensado sobre a economia, produzindo uma verdade de que há somente um caminho a ser trilhado pela Argentina (Foucault, 1996).

Ao apresentar o Estado como “butim” e a decadência como consequência da intervenção estatal, Milei dá sentido e funcionalidade para seu pensamento econômico ultraliberal. Ele é definido como uma reorientação abrupta com um ajuste fiscal severo e discurso pretensamente antissistêmico. As medidas incluem corte de gastos, desregulamentação acelerada e eliminação de subsídios, atingindo negativamente a estrutura social, o campo fiscal e a inserção regional e internacional da Argentina (Lucchesi, 2025).

Além disso, o alinhamento unilateral com os Estados Unidos e a transferência de responsabilidades públicas a atores privados, tanto locais quanto internacionais, representam elementos centrais da estratégia econômica de Milei. Ambos foram bem recebidos pelo setor financeiro e agroexportador, de modo que a austeridade criou um terreno favorável para a entrada do capital estrangeiro, configurando-se em um ambiente favorável ao rentismo, às custas do desemprego, queda do consumo e cortes dos programas sociais (Lucchesi, 2025).

O presidente argentino consolida-se como uma figura central da extrema-direita na América Latina. Esse cenário o transformou em um instrumento da política externa norte-americana para influenciar e reproduzir esse mesmo contexto político e econômico na região. Um exemplo disso foi sua aparição no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência do Brasil, fato que elucida a tentativa de transferência do modelo político e econômico ultraliberal argentino para o contexto brasileiro. 

O arranjo econômico argentino é alvo de críticas, uma vez que é marcado pela privatização e pela desregulamentação em massa da economia, das leis trabalhistas e dos sindicatos, tendo como foco o fortalecimento do capital financeiro internacional e, consequentemente, o enfraquecimento da economia nacional. 

Segundo Lucchesi (2025), Milei não afasta totalmente o Estado da esfera econômica, mas o redefine para sustentar, dar sentido e dinamismo ao seu pensamento econômico, aprofundando a crise do neoliberalismo e, por conseguinte, as desigualdades sociais. Esse aspecto foi evidenciado nos cortes das aposentadorias e dos salários, o que reduziu o consumo para controlar a inflação no curto prazo, mas que, no longo prazo, alarga as assimetrias socioeconômicas. Nesse contexto, metade dos argentinos (50%) rechaça as medidas econômicas de Milei, demonstrando a insatisfação popular e o esvaziamento da esperança por um futuro glorioso, defendido pelo ultraliberal no campo prático. Afinal, não há um futuro próspero quando a dimensão social é subordinada à lógica da austeridade. 

O impacto sobre a população 

Os impactos de Milei sobre a população argentina concentram-se na deterioração das condições de mercado de trabalho, caracterizada pelo aumento expressivo do desemprego e da informalidade. Segundo matéria da Redação Brasil 247 (2026), o desemprego subiu para 7,9%, atingindo cerca de 1,16 milhão de pessoas nas principais áreas urbanas. Paralelamente, a taxa de informalidade alcançou o recorde histórico de 45%, somando 6,1 milhões de trabalhadores sem vínculo formal e desprovidos de garantias trabalhistas. Conforme o jornal, esses números refletem a perda de postos de trabalhos registrados entre 2025 e 2026, período no qual foram eliminados 121 mil vagas informais no setor privado e 30,5 mil no setor público, além do encerramento definitivo de mais de 31 mil empresas no país desde o início da gestão.

Segundo texto de Victor Farinelli (2026) no Jornal Opera Mundi, a rejeição ao governo apresenta índices ainda maiores nos principais centros urbanos do país, ultrapassando a marca de 70% tanto na Cidade Autônoma de Buenos Aires (72%) quanto na Província de Buenos Aires (71%). Esse desgaste político se expressa diretamente na própria base de apoio do Milei, sinalizando uma maior desaprovação dos eleitores. Conforme a reportagem, cerca de 33% dos cidadãos que votaram no presidente nas eleições de 2023 admitem que o país está “caminhando na direção errada”. Além disso, é crença para 58% da população argentina que Milei não possui o conhecimento necessário para solucionar a crise econômica instaurada no país (Farinelli, 2026; Reinaldo, 2026).

Segundo artigo do economista Alexandre Lucchesi (2025), embora a gestão tenha alcançado a desaceleração da inflação e a obtenção de superávit primário, esses resultados decorrem primordialmente da compressão da demanda interna e da erosão real das despesas governamentais pela defasagem nos reajustes salariais e previdenciários.

No âmbito socioeconômico, a política de austeridade e o encarecimento do custo de vida resultaram em uma redistribuição regressiva da renda, elevando a taxa de pobreza para mais de 50% no primeiro semestre de 2024 e aprofundando a recessão nacional (LUCCHESI, 2025). 

Considerações finais

Através da análise realizada, foi observada a fala da coordenadora do programa econômico de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, destacando os princípios, principais objetivos e inspiração no programa de governo de Javier Milei do candidato com maiores intenções de votos em relação ao atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva para as eleições de 2026. 

Nos dois primeiros itens, suas afirmações, em sintonia com ambos planos de governo estudados, demonstram a aproximação do candidato brasileiro da direita com a lógica neoliberal e discursos sobre liberdade, mudanças, autonomia, meritocracia e empreendedorismo do argentino. Conjuntamente, indicam o uso de estratégias como aquilo que chamam de “tarifaço” e “revogaço”, além da eliminação de normas vistas negativamente ou como “desnecessárias”, busca de desburocratização, redução de tributos, cortes em despesas públicas e minimização da dívida pública. As semelhanças, dessa forma, ultrapassam o campo ideológico ao mostrarem-se tão presentes no plano de governo de Flávio Bolsonaro e tornam-se uma real possibilidade para o futuro do Brasil.

Ao dar continuidade nos itens concretos da Argentina, porém, a questão muda de se existem semelhanças entre as duas propostas para o quão desejáveis elas seriam no nosso país. A reflexão sobre a experiência revela as profundas limitações e contradições intrínsecas a esse modelo de “terapia de choque”. Em funcionamento desde 2023 na nação vizinha, ele obteve certo grau de sucesso na realização das metas, mas muitos dos ganhos foram obtidos à custa de uma compressão agressiva da demanda interna e da degradação das condições de vida da população. Suas alterações custaram a aprovação do povo, empregos, empresas, uma parcela do PIB, uma crise econômica e outros fatores de impacto negativo socioeconômico da nação.

Assim, em muitos sentidos, a trajetória recente argentina funciona mais como um alerta sobre os limites do ultraliberalismo do que como um modelo seguro de desenvolvimento como buscado por Flávio Bolsonaro. Transpor esse modelo para a realidade socioeconômica brasileira implica assumir riscos elevados. Em um país historicamente marcado por profundas desigualdades estruturais, a subordinação dos direitos sociais e do mercado interno à lógica exclusiva da austeridade fiscal pode exacerbar a vulnerabilidade social e fragilizar o próprio setor produtivo nacional, evidenciando a contradição de seguir os moldes argentinos. Afinal, a responsabilidade fiscal só se mostra verdadeiramente sustentável quando serve de alicerce, e não de ruína,  para o bem-estar social.

Referências

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