As negociações financeiras na Cúpula do BRICS na Índia

Ano VII, nº 133, 24 de Setembro de 2026

Por Gabriel de Castro Soares, Guilherme Trifler, Gustavo Botão, Mariana Silveira, Pedro Lopes Abolafio, Jéssica Guerra, Rafaela Galhumi e Roberto Dalla (Imagem: Indian Foreign Ministry)

Em meio às tensões geopolíticas e à fragmentação da economia internacional, o BRICS busca avançar em alternativas ao sistema financeiro global. As negociações em Nova Déli expõem tanto o potencial quanto os limites da cooperação entre seus membros.

Introdução e contexto internacional

As conversas realizadas na 18ª Cúpula do BRICS, ocorrida entre os dias 12 e 13 de setembro em Nova Déli, na Índia, foram prejudicadas pelo conflito no Golfo Pérsico, que opôs Irã e Emirados Árabes Unidos, um país aliado dos Estados Unidos governado por Donald Trump (2025-2029). O uso do território emirati para o lançamento de ataques estadunidenses contra o Irã tornou o país árabe um alvo da retaliação militar e econômica iraniana, o que deteriorou rapidamente as relações entre os países. Essa não é a primeira vez que as ações de Trump interferiram em uma Cúpula do BRICS. Em 2025, o presidente estadunidense ameaçou tarifar os países do agrupamento caso houvesse avanços nas discussões acerca da redução de risco ao dólar (de-risking) na 17ª Cúpula do BRICS, no Rio de Janeiro.

Como resultado das divergências, a Cúpula do BRICS na Índia foi encerrada sem Declaração Conjunta, com o país anfitrião se limitando a emitir uma nota presidencial. Apesar disso, os países-membros do BRICS não se furtaram a criticar os efeitos negativos da guerra na economia mundial, a maneira como a África do Sul foi tratada por Trump durante a presidência do país africano do G20 e o imobilismo na reforma do sistema financeiro internacional.

A Cúpula na Índia 

A 17ª Cúpula do BRICS encerrou-se com a adoção unânime da Declaração de Nova Délhi, documento preparado ao longo de mais de quatrocentas reuniões técnicas e ministeriais conduzidas pela presidência indiana durante o ano. A agenda financeira, gestada nos encontros de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais em Jaipur (agosto) e Mumbai (setembro), partiu de um diagnóstico explícito sobre fragmentação comercial, protecionismo, pressões fiscais e vulnerabilidades de endividamento que recaem de modo desproporcional sobre economias emergentes.

Três eixos estruturaram as negociações: a interoperabilidade dos sistemas de pagamento e mensageria, com uso ampliado de moedas locais na liquidação de comércio e investimentos, sob mandato da BRICS Payment Task-Force e com ressalva expressa às prioridades nacionais; o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento, instado a diversificar fontes de captação e expandir operações em moedas locais; e o aperfeiçoamento do arcabouço de segurança financeira, com emendas ao Tratado do Contingent Reserve Arrangement. Somaram-se iniciativas de marca indiana, como o BRICS Risk Lab, voltado ao resseguro de infraestrutura, e o Consenso de Jaipur, sobre capital de giro para pequenas empresas. O consenso teve limites nítidos: a Índia recusou o endosso a uma moeda comum do bloco, e a proposta de interligação de moedas digitais de bancos centrais avançou com ressalvas quanto à baixa adoção global e às assimetrias técnicas entre membros.

A principal tensão, contudo, foi geopolítica. A guerra iniciada em fevereiro de 2026, com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e subsequente retaliação iraniana contra Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, colocou três membros do próprio bloco em lados opostos. A saída redacional foi, deliberadamente, elíptica: o texto manifesta “profunda preocupação” com a escalada e conclama à contenção, sem nomear os envolvidos nem empregar o termo “guerra”, ao mesmo tempo em que condena ataques a instalações nucleares sob salvaguardas da AIEA e exige cessar-fogo em Gaza. Essa divergência incide diretamente sobre a agenda financeira, já que parte do esforço de desdolarização parcial visa reduzir a exposição a sanções, interesse máximo de Irã e Rússia, mas objeto de cautela para Índia e países parceiros do Golfo. Nova Délhi ancorou o documento na noção de resiliência, traduzida como diversificação e não como substituição do dólar, evitando caracterizar o BRICS como coalizão antiocidental.

Declaração de Nova Déli 

A Declaração de Nova Déli apresenta temas como o fortalecimento do multilateralismo, críticas a medidas tarifárias unilaterais e apelos pela paz e solução para conflitos globais. No campo das finanças, os integrantes reafirmaram o apoio a um sistema multilateral de comércio centrado na Organização Mundial do Comércio (OMC) e clamaram pela restauração imediata de um mecanismo de solução de controvérsias “plenamente funcional”. Contudo, dentro de todo o bloco financeiro discutido, a manutenção de iniciativas existentes (NDB e CRA) são predominantes em comparação com a criação de novos projetos. 

Criados na Cúpula de 2014, em Fortaleza, o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e o Arranjo Contingente de Reservas (ACR) são as principais iniciativas financeiras do BRICS que voltadas a ampliar o poder de barganha e as opções de financiamento dos seus membros frente às instituições como FMI e Banco Mundial. O NDB, por exemplo, opera desde 2016 e conta com o financiamento de mais de US$40 bilhões destinados a projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável. Sua membresia também evoluiu no decorrer dos anos, passando de cinco membros (os fundadores) para 10 e com o ingresso de mais alguns outros países já aprovados pelo Conselho de Governadores do NBD.

O banco, porém, enfrenta dificuldades em realizar empréstimos em moedas locais, uma de suas metas constitutivas. As razões para isso abarcam o fato do banco ainda estar suscetível a sofrer sanções primárias e secundárias por parte dos EUA e de seus aliados, encontrando também as dificuldades de obtenção de rating elevado e, com isso, reduzir o custo de captação no mercado financeiro. Diante desse cenário, a instituição foi incentivada, de forma genérica e sem grande ênfase, a ampliar o financiamento em moedas locais, diversificar fontes de financiamento e expandir o número de membros (parágrafo 115 da declaração).

Além disso, talvez uma das contribuições mais significativas para o fortalecimento do NDB seja o lançamento do Portal de Conhecimento BRICS-NBD, criado para facilitar o intercâmbio e a articulação entre os grupos de trabalho do BRICS e as ações do NBD. Com isso, será possível, por exemplo, mapear que país já enfrentou determinado gargalo regulatório antes de outro tentar resolver o mesmo problema do zero, ou rastrear que projeto financiado pelo NDB testou algum modelo de financiamento simultaneamente público e privado com resultado replicável.

O ACR, por sua vez, foi criado para atuar como fundo monetário do grupo, um contraponto ao FMI, mas que, até o momento, nunca foi acionado, mesmo diante da completude de sua estrutura operacional e de vários testes de funcionamento. Segundo Paulo Nogueira Batista Júnior, antigo vice-presidente do NDB, o ACR carece do estabelecimento de uma unidade de monitoramento macroeconômico prevista em seu Tratado constitutivo, bem como da inclusão dos novos membros do BRICS que desejarem aderir ao arranjo. A Declaração de Nova Delhi não mencionou nenhum desses pontos nem a possível desdolarização do arranjo, que até o momento só permite swaps cambiais com dólares dos EUA. Já sobre a adesão dos novos membros ao arranjo, a Declaração fez uma vaga e burocrática referência, alegando aguardar a completude das discussões “em base voluntária e de acordo com circunstâncias específicas a cada país” (parágrafo 97 da declaração).

Por fim, deu destaque ao BRICS Pay, uma iniciativa que começou a ser discutida em 2024 na presidência russa dos BRICS e que consistiria em um sistema de pagamentos internacionais alternativo aos sistemas controlados pelo Ocidente (SWIFT e outros), que vêm sendo utilizados para sancionar e coagir países considerados hostis ou não-cooperativos, como Rússia e Irã, por exemplo. A Declaração reconheceu os estudos da Força-Tarefa de Pagamentos do BRICS (BRICS Payment Task Force – BPTF) sobre a interoperabilidade transfronteiriça dos canais nacionais de pagamento e de mensageria financeira. O documento também incentivou a continuidade das discussões sobre a liquidação de comércio e investimentos em moedas locais, sem prever a criação de uma moeda comum. O objetivo, destaca a declaração, é encontrar “soluções práticas que sejam rápidas, de baixo custo, mais acessíveis, eficientes, transparentes e seguras” (parágrafo 90), um claro contraponto ao que é oferecido pelos sistemas controlados pelo Ocidente. 

Entretanto, há um ponto de inflexão acerca da demora de implementação de iniciativas como o ACR e o BRICS Pay que diz respeito ao fato de ambas serem responsabilidade dos bancos centrais, conferindo-lhes o poder de obstruir essas iniciativas, mesmo que isso contrarie a orientação recebida dos líderes e dos ministros de Estado. Essa dinâmica ajuda a explicar por que a Declaração de Nova Déli, apesar de reafirmar o compromisso político com essas iniciativas, evita qualquer prazo vinculante ou métrica de execução para suas iniciativas. A ausência de pressão equivalente sobre as próprias instituições do bloco sugere que os líderes reconhecem, na prática, os limites de sua autoridade sobre os bancos centrais nacionais. Todavia, o documento consegue sustentar a narrativa de avanço coletivo sem forçar um confronto interno que a declaração, por natureza consensual, não tem como resolver.

Manifestações do BRICS acerca do G20 nos Estados Unidos

Além disso, a passagem da presidência do G20 para os Estados Unidos, em 2026, ocorre em um contexto de crescente fragmentação da economia internacional e recoloca no centro do debate a função do grupo como principal espaço de coordenação econômica entre grandes economias desenvolvidas e emergentes, o qual se mostra ao mesmo tempo cada vez mais necessário e cada vez menos eficiente nesse momento de desintegração. Revelando essa contradição uma vez que mesmo com a própria Declaração de Líderes do G20 de 2025 reafirmou o compromisso com o G20 como o “principal fórum de cooperação econômica internacional”, na prática isso acontece com pouca concretude, com certos aspectos da cúpula do BRICS revelando como esse multilateralismo foi deixado de lado na guerra comercial travada por Donald Trump.

O posicionamento do BRICS, ainda que com um frágil e quase impossível consenso interno, retoma o argumento de que frente ao aumento da instabilidade e insegurança econômica internacional é mais do que nunca necessário negociar os parâmetros da governança econômica mundial, e tenta reafirmar um compromisso com esse multilateralismo. A literatura sobre o fórum destaca justamente essa característica: os países do BRICS utilizam o G20 simultaneamente como espaço de participação na governança existente e como plataforma para defender reformas na arquitetura financeira internacional. Dinâmica essa que foi muito podada na atual presidência do fórum, que perdeu qualquer desempenho significativo instrumentalizando-o para as próprias disputas.    

Nesse sentido, essa relação torna-se particularmente evidente quando se observa a agenda financeira construída durante a presidência indiana do BRICS em 2026. A Declaração de Nova Déli enfatiza a necessidade de reformar a governança econômica global para ampliar a representação dos mercados emergentes e países em desenvolvimento nas Instituições de Bretton Woods (IBW), defendendo mudanças importantes no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial (BM), incluindo maior participação dos Mercados Emergentes e Países em Desenvolvimento (Emerging Markets and Developing Countries – EMDCs) nas quotas, no poder de voto e nos mecanismos de governança, refletindo as necessidades do sistema financeiro internacional em um novo tempo e contexto mais tensionado.

A África do Sul, por exemplo, demonstra justamente a força da defesa da ampliação da influência dos países emergentes. Como membro pleno do G20 e também integrante dos BRICS, sua atuação tornou-se bastante relevante, em especial, a partir da articulação de questões relacionadas ao desenvolvimento. A Declaração de Líderes de 2025, por exemplo,  reconheceu a importância de ampliar a voz da África no G20 e reafirmou o compromisso com o continente, enquanto a União Africana passou a integrar formalmente o grupo como membro. Outro exemplo disso é justamente a Declaração de Nova Déli, documento final aprovado na 18ª  cúpula dos BRICS, onde os membros voltaram a defender uma participação mais significativa dos países emergentes e em desenvolvimento, reforçando a necessidade de maior representação nas instituições internacionais. A declaração explícita que diante de um contexto internacional desigual, a promoção do diálogo entre regiões em desenvolvimento é ideal e necessária para que exista a possibilidade de um futuro de governanças mais igualitárias e benefícios mútuos. 

A tensão entre Washington e as demandas articuladas pelo BRICS, portanto, não elimina a importância do G20, pelo contrário, ela justamente evidencia por que o fórum permanece central para as negociações econômicas internacionais. Isto é, enquanto a presidência norte-americana representa a continuidade do G20 como espaço privilegiado de coordenação entre as maiores economias, a agenda financeira desenvolvida na Índia demonstra que os países do BRICS pretendem utilizar os mecanismos multilaterais existentes para pressionar por reformas na ordem econômica internacional. Nesse cenário, a defesa da participação africana conecta-se diretamente à reivindicação mais ampla por uma governança econômica internacional capaz de refletir a transformação da dinâmica de influência geopolítica.

Declaração Conjunta de Ministros de Finanças e Presidentes de Bancos Centrais 

O documento elaborado pelos ministros das finanças e presidentes de bancos centrais classificou as tensões geopolíticas, o protecionismo, a incerteza política, pressões inflacionárias e vulnerabilidades financeiras como os principais problemas econômicos globais. A imposição de barreiras tarifárias e não-tarifárias unilaterais em desacordo com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) foi especialmente criticada no documento, embora sem menção aos Estados Unidos. Os signatários do documento reiteraram o “apoio a um sistema de comércio multilateral aberto, transparente, inclusivo, não discriminatório e baseado em regras, tendo a OMC como seu eixo central”.

Além do comércio, a Declaração Conjunta também defendeu reformas no sistema financeiro internacional, especialmente no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial (BM), instituições que têm sofrido grande interferência do governo Trump. No documento, os signatários defendem maior transparência nas instituições e o aumento da representatividade regional para refletir as transformações pelas quais a economia global têm passado. 

Em relação ao FMI, a Declaração Conjunta cobrou a entrada em vigor do aumento de quotas acordado na 16ª Revisão Geral de Cotas (General Review of Quotas – GRQ) e uma reforma significativa das cotas na 17ª GRQ, atualmente em discussão pelo Conselho de Governadores do FMI. Esse posicionamento está de acordo com o documento “Visão do BRICS do Rio de Janeiro sobre a Reforma das Cotas e da Governança do FMI”, que advoga por votos de acordo com o peso econômico de cada país, o que favorece os países emergentes.

Quanto ao BM, a Declaração Conjunta reivindicou procedimentos de gestão mais transparentes e inclusivos, defendendo expressamente um processo de escolha de lideranças “baseado no mérito” (merit-based), o que poderia aumentar a representação de EMDEs. O agrupamento reiterou a importância de instrumentos como a Revisão da Participação Acionária de 2025 (2025 World Bank Shareholding Review) como mecanismos críticos para o fortalecimento do multilateralismo. A revisão, realizada periodicamente, busca avaliar a estrutura acionária do BM e possibilitar eventuais ajustes na distribuição do poder de voto. Entretanto, documentos do próprio Banco Mundial apontam a existência de divergências entre os membros quanto à realização de alterações efetivas na participação acionária.

A Declaração Conjunta buscou apresentar o posicionamento do grupo diante dos recentes desafios e intervenções, enquanto, simultaneamente, continuaram defendendo pautas tradicionais, reafirmando seu papel como espaço de articulação dos países emergentes. Ao final, os ministros de finanças e presidentes de bancos centrais reiteram o compromisso de dar continuidade ao longo do ano nas iniciativas apresentadas, dando ênfase à busca pela garantia de uma “transição tranquila e continuidade do ímpeto sob a presidência da China em 2027”.

A presidência chinesa do BRICS em 2027 

A transição da presidência rotativa do BRICS para a China em 2027 ocorreu após uma Cúpula de Nova Déli marcada por divergências geopolíticas e dificuldades para alcançar um consenso entre os membros. Ainda assim, a Declaração de Nova Déli ressaltou a necessidade de continuidade das iniciativas do grupo e manifestou apoio à presidência chinesa e à realização da 19ª Cúpula do BRICS na China.

Nesse sentido, uma das principais expectativas para a presidência chinesa é a continuidade das iniciativas financeiras já desenvolvidas pelo BRICS, especialmente aquelas relacionadas às transações entre os países-membros. A agenda esperada para a presidência chinesa em 2027 aponta o uso de moedas locais como uma das prioridades do próximo ciclo. A Força-Tarefa de Pagamentos do BRICS (BRICS Payment Task Force) deverá continuar sendo um dos principais espaços para discutir essa agenda e facilitar as transações entre os países-membros.

O objetivo, contudo, não é a criação imediata de uma moeda comum ou de um sistema único de pagamentos. A Declaração de Nova Déli defendeu uma integração maior entre os sistemas de pagamento dos países e a ampliação do uso de moedas locais nas transações. Nesse sentido, a presidência chinesa poderá concentrar-se em transformar discussões acumuladas nos últimos anos em mecanismos de cooperação que possam ser efetivamente utilizados pelos países do bloco.

A China também deverá dar continuidade às discussões sobre a reforma da governança financeira internacional. A defesa de maior representação dos países emergentes e em desenvolvimento no FMI e no Banco Mundial já aparece tanto na Declaração de Nova Déli quanto na Declaração Conjunta dos ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do BRICS. A expectativa é que a China mantenha essa pauta e, ao mesmo tempo, fortaleça mecanismos próprios do BRICS, como o Novo Banco de Desenvolvimento.

Por fim, a presidência chinesa terá de lidar com uma questão que atravessa toda a atual agenda do BRICS: como avançar na cooperação econômica diante das divergências entre seus próprios membros. Assim, mais do que criar novas instituições, a Cúpula de 2027 terá como desafio transformar propostas já discutidas pelo grupo em mecanismos de cooperação que sejam efetivamente implementados, preservando o diálogo entre países com interesses cada vez mais diversos.

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