Narcoecologia do crime organizado coloca sustentabilidade sob ameaça na Amazônia

Ano VI, nº 107, 07 de agosto de 2025 

 

Por Aline Conceição Abrantes da Silva, Giovana Plácido, Henrique Cochi Bezerra, Yohana Campos da Rocha, Jéssica de Assis Araújo, Joshua Alves de Oliveira, Maria Emília de Jesus Cardoso Lírio, Vitória Matumoto, Beatriz Dantas, Vitor Cristian Maciel Gomes, Vitória Maria Breda Veronezi e Olympio Barbanti (Imagem: Servidores do Ibama em operação contra garimpo na Amazônia – Ibama/2024)

 

Crime organizado avança na Amazônia fazendo uso de terras públicas para suas operações. Aumenta a correlação entre o tráfico de drogas e os crimes ambientais que produzem severos danos sociais e ao meio ambiente.

 

Introdução

Com a aproximação da COP30, o presidente Lula tem expressado a intenção que as delegações estrangeiras conheçam a Amazônia como ela é, com suas belezas, mas também seus conflitos – que não são recentes. Nesse contexto, ganha relevância o debate sobre o narcotráfico, diante da ocupação crescente do crime organizado em territórios ambientalmente protegidos no Brasil, especialmente na região Amazônica, destacando-se o Mato Grosso, o Mato Grosso do Sul e a Tríplice Fronteira (Brasil, Peru e Colômbia). Nessas regiões tem se observado a intensificação da conexão entre narcotráfico e os crimes ambientais, um fenômeno chamado atualmente na literatura acadêmica de narcoecologia.

 

Não se trata de fenômeno novo. O garimpo de Serra Pelada, no Pará, teve início em 1980 e, em 1988, começou a invasão da área indígena Yanomami. Desde esse início, drogas e armas estavam presentes,mas não em uma escala agora observada na Narcoecologia. Essa relação envolve o uso em larga escala da floresta e de seus recursos para atividades ilegais, como tráfico de drogas, garimpo e desmatamento, impactando em diversas regiões, simultaneamente, populações indígenas e comunidades extrativistas, causando grande impacto à rica biodiversidade da região amazônica, mas também em outros biomas (COUTO, 2018; UNODC, 2020; RACISMOAMBIENTAL, 2023).

 

Pista de pouso clandestina, vista de janela de avião; Roraima, 1989

Fonte: Arquivo do OPEB

 

Territórios ambientalmente protegidos compreendem unidades de conservação e terras indígenas, distinguindo-se judicialmente: as primeiras destinam-se à conservação ambiental (parques nacionais, florestas nacionais, reservas extrativistas, reservas biológicas, áreas de proteção ambiental e outras categorias de unidades de conservação). Por sua vez, as terras indígenas são reconhecidas por garantir os direitos originários dos povos sobre seus territórios. Ambos os tipos enfrentam, porém, a invasão do crime organizado, que explora as vulnerabilidades dessas áreas e de seus habitantes para ampliar o controle sobre esses espaços.

 

O extrativismo, historicamente base da economia tradicional desses territórios, jamais foi suficiente para tirar as pessoas da pobreza estrutural, entendida aqui como uma condição enraizada em desigualdades históricas, sociais e territoriais. Assim, muitas pessoas buscam melhorar suas condições de vida e acabam envolvidas, direta ou indiretamente, com o crime organizado, dado o ambiente de falta de perspectiva e escassez de políticas públicas efetivas.

 

O desafio fundamental na compreensão e no enfrentamento desse fenômeno é a ausência de dados robustos, sistematizados e transparentes, sobretudo acerca da extensão e “natureza exata” da participação direta ou indireta dessas populações nessas atividades ilícitas (CANALMEIO, 2025; BALIERO; NASCIMENTO, 2015). Essa lacuna representa um reflexo de um problema há muito tempo conhecido: a ausência do Estado nessas regiões, o que propicia grandes áreas sob domínio de atividades ilegais, dificultando a formação de políticas efetivas e perpetuando o ciclo da violência e degradação ambiental. O que há de novo e a ampliação da capacidade de ação do narcotráfico, e o uso sistemático que fazem das terras públicas que deveriam ser protegicas. Esse texto busca analisar esse problema, considerando os escassos dados disponíveis, e apontando a escassez de informações.

 

Em pista clandestina de Roraima, garimpeiros e indígenas carregam avião monomotor em 1989; ao fundo, avião Douglas DC-3, com capacidade de carga de 3 toneladas.

Foto: Arquivo OPEB

 

Análise e Diagnóstico

No estado do Mato Grosso observa-se a consolidação de uma rota principal de entrada da cocaína, enquanto o Mato Grosso do Sul se destaca como corredor estratégico para a distribuição da maconha (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2025; MPF, 2024). Na Tríplice Fronteira, a disputa entre facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a Família do Norte (FDN) pelo controle das rotas ilegais tem impactos diretos sobre as comunidades indígenas, como os povos Tikuna, Ashaninka, Huni Kuin e Kulina. Esses grupos são frequentemente aliciados ou forçados a atuar no transporte fluvial de drogas, sofrendo também com a intensificação da violência (BALIEIRO; NASCIMENTO, 2015; ROSA, 2017; COUTINHO JR., 2017).

A expertise desses povos na navegação amazônica tem sido visada pelo narcotráfico, como demonstram operações policiais – a exemplo da Curare 2 (2014) –  que identificaram cultivos ilegais e rotas de tráfico em territórios indígenas.

Nesse contexto, o conceito de narcoecologia se amplia, evidenciando a correlação entre o tráfico de drogas e os crimes ambientais que produzem severos danos ambientais e sociais (UNODC, 2023; IGARAPÉ, 2023; BBC, 2023). O narcotráfico atua como agente financiador dessa dinâmica, utilizando terras públicas e indígenas para instalar pistas clandestinas que viabilizam operações de aeronaves e garimpos ilegais (COUTO, 2017; GEOAMAZÔNIA, 2023). Dados recentes apontam para um aumento expressivo tanto nas apreensões de entorpecentes quanto nos índices de desmatamento em áreas sob influência dessas redes (IMAZON, 2025; CDESC, 2024).

Área afetada pelo garimpo dentro da Terra Indígena Yanomami (RR); ao lado, pista clandestina com buracos causados por explosões realizadas pela Polícia Federal.

Fonte: Arquivo OPEB

A operação integrada “Ágata Amazônia” realizada em 2025 exemplifica a ação conjunta da Polícia Federal, Forças Armadas, Funai e Ibama na repressão ao narcotráfico, desmatamento e exploração ilegal, com apreensões de drogas, destruição de equipamentos ilícitos e apoio a mais de 70 comunidades indígenas.

Contudo, devido à vasta expansão territorial da Amazônia, à fragilidade institucional e à complexidade das redes criminosas (POLÍCIA FEDERAL, 2025; GLOBAL INITIATIVE, 2023), a dificuldade em estabelecer políticas duradouras ainda persiste, resultando em lideranças indígenas ameaçadas e assassinadas (RACISMO AMBIENTAL, 2023; BBC, 2023). O relatório mais recente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) sobre violência contra os povos indígenas no Brasil, com dados de 2024, registra 211 assassinatos de indígenas.

No âmbito regional, a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), tem reforçado a cooperação para enfrentar a narcoecologia, destacando a importância da resposta coordenada contra crimes ambientais e narcotráfico. A OTCA promove missões técnicas em parceria com o IBAMA para aprimorar a fiscalização, o monitoramento ambiental e o controle das atividades ilegais na Amazônia. Essas ações buscam alinhar recursos para combater conjuntamente o desmatamento, mineração ilegal, tráfico de drogas e crimes correlatos (OTCA, 2024; OTCA/IBAMA, 2024).

Ademais, a OTCA articula uma agenda regional para fortalecer a proteção ambiental, o desenvolvimento sustentável e a segurança pública, enfatizando a necessidade de cooperação internacional, especialmente na Tríplice Fronteira, para harmonizar normas e ampliar a efetividade das operações conjuntas. Essa cooperação é fundamental para romper com a ausência histórica do Estado e enfrentar a complexidade do crime organizado transnacional na região (OTCA, 2025).

Análise de Alternativas

Analisando as alternativas para o enfrentamento da narcoecologia, as ações repressivas conjuntas e constantes envolvendo a Polícia Federal, Forças Armadas, Funai e Ibama fortalecem a presença do Estado em áreas vulneráveis e desarticulam as redes ilegais. No entanto, é necessário diversificar e aperfeiçoar essas estratégias. A atuação da Marinha no bloqueio do tráfico fluvial, da Aeronáutica na contenção do tráfico aéreo e o uso de tecnologias de monitoramento, como drones, podem reforçar o controle territorial e dificultar a atuação dos grupos criminosos.

Além disso, atividades de inteligência são fundamentais para desmontar as redes de financiamento e logística do narcotráfico, sendo essencial descobrir a origem da droga e traçar um fluxo reverso que permita desmantelar o esquema desde sua base até os pontos de distribuição. Apesar de sua importância, essas ações repressivas podem provocar uma escalada da violência, apresentam custos elevados e seu impacto tende a ser pontual se não forem contínuas.

Outra alternativa fundamental seria reduzir as vulnerabilidades socioeconômicas nas comunidades indígenas e extrativistas, entendidas aqui como a ausência ou precariedade de serviços públicos e oportunidades econômicas, promovendo o acesso a serviços essenciais como saúde, educação, segurança e geração de renda. Essa abordagem diminui os riscos de aliciamento e violência por parte das redes criminosas, mas exige planejamento e investimentos de longo prazo, com retorno não imediato.

Por fim, ampliar a cooperação regional e internacional fortalece o alcance das medidas preventivas e repressivas, possibilitando respostas coordenadas contra o crime organizado transnacional. Contudo, entraves legais e burocráticos podem dificultar a eficácia e a agilidade dessas ações conjuntas.

Portanto, a combinação integrada dessas estratégias é essencial para formular uma resposta ao avanço da narcoecologia na Amazônia.

Recomendações

Enfrentar a narcoecologia exige uma resposta articulada entre ações repressivas, políticas públicas e cooperação internacional. Reforçar a presença do Estado por meio de operações integradas, com atuação terrestre, fluvial e aérea, envolvendo de forma contínua as Forças Armadas e o uso de inteligência infiltrada nas comunidades, além de tecnologias como drones, são elementos essenciais para enfrentar de maneira efetiva o crime organizado e conter seu avanço.

Paralelamente, seria necessário reduzir as vulnerabilidades das comunidades afetadas, garantindo acesso a direitos básicos e alternativas econômicas. Por fim, a cooperação com países vizinhos, especialmente na Tríplice Fronteira, deve ser ampliada, com troca de inteligência, operações conjuntas e harmonização legal. A combinação dessas frentes é fundamental para conter a expansão do narcotráfico e preservar os territórios da Amazônia.

Conclusão

A narcoecologia apresenta-se como uma ameaça complexa que envolve o tráfico de drogas, crimes ambientais e agressões a comunidades indígenas e às comunidades extrativistas, prejudicando a dinâmica territorial, social e ambiental da Amazônia como um todo e de regiões protegidas em partucular. A falta de informações organizadas e claras sobre a magnitude do problema revela a vulnerabilidade institucional e torna mais difícil a criação de políticas públicas efetivas.

 

Nesse contexto, é crucial implementar estratégias integradas que juntem ações punitivas, presença constante do Estado, políticas sociais que promovam a inclusão e colaboração internacional. Somente por meio de uma abordagem conjunta será viável reduzir os impactos devastadores desse fenômeno e garantir a soberania do país, a conservação do meio ambiente e a proteção das populações tradicionais e indígenas.

 

Referências Bibliográficas: 

BALIEIRO, Luiz Felipe de Vasconcelos D.; NASCIMENTO, Izaura Rodrigues. Tríplice Fronteira Brasil, Peru e Colômbia e as implicações com o narcotráfico. Textos & Debates, Boa Vista, n. 26, 2015.

 

BBC NEWS BRASIL. Facções controlam tráfico e financiam crimes ambientais na Amazônia. 15 mar. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cje53pd1337o. Acesso em: 15 jul. 2025.

 

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Polícia Federal. Operação Ágata Amazônia 2025: resultados e impactos. Brasília, 2025.

 

CENTRO DE ESTUDOS SOBRE DROGAS E DESENVOLVIMENTO SOCIAL COMUNITÁRIO – CDESC. Tráfico de drogas na Amazônia e efeitos no meio ambiente: uma análise exploratória. São Paulo, 2024. Disponível em: https://cdesc.org.br/wp-content/uploads/2024/06/boletim-trafico-amazonia-v3.pdf. Acesso em: 15 jul. 2025.

 

CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO (CIMI). Relatório de Violência contra os Povos Indígenas no Brasil 2024. São Paulo: CIMI, 2024. 

 

COUTINHO JR., Walter. Segurança comunitária em terras indígenas: um pleito tikuna no Alto Solimões. Laudo Pericial. Brasília: MPF, 2017.

 

COUTO, Aiala Colares de Oliveira. Do poder das redes às redes do poder: necropolítica e configurações territoriais sobrepostas do narcotráfico na metrópole de Belém-PA. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Pará, 2018. Disponível em: https://ppgdstu.propesp.ufpa.br/ARQUIVOS/documentos/AIALA%20COLARES%20DE%20OLIVEIRA%20COUTO.pdf. Acesso em: 15 jul. 2025.

 

GEOAMAZÔNIA. Geografia das redes do narcotráfico na Amazônia. Revista GeoAmazônia, Belém, v. 11, n. 22, p. 46-67, 2023. Disponível em: https://periodicos.ufpa.br/index.php/geoamazonia/article/view/13828. Acesso em: 15 jul. 2025.

 

GLOBAL INITIATIVE. Amazon Underworld: Economias criminosas na maior floresta tropical do mundo. Londres, 2023.

 

IGARAPÉ INSTITUTE; INSIGHT CRIME. Amazônia saqueada: raízes do crime ambiental nas regiões de tríplice fronteira. 2023. Disponível em: https://igarape.org.br/wp-content/uploads/2023/08/Amazonia-Saqueada-as-raizes-do-crime-ambiental-nas-regioes-de-triplice-fronteira.pdf. Acesso em: 15 jul. 2025.

 

IMAZON. Ano de 2025 começa com aumento de 68% no desmatamento da Amazônia. Fev. 2025.

 

RACISMOAMBIENTAL.NET.BR. “Narcoecologia”: ONU aponta relação entre tráfico de drogas e desmatamento na Amazônia. 2023. Disponível em: https://racismoambiental.net.br/2023/06/28/narcoecologia-onu-aponta-relacao-entre-trafico-de-drogas-e-desmatamento-na-amazonia/. Acesso em: 15 jul. 2025.

 

ROSA, F. Javier Ullán de La. Los indios Ticuna del Alto Solimões y el narcotráfico. 2017.

 

UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME – UNODC. World Drug Report 2020. Viena: United Nations, 2020.

OTCA – ORGANIZAÇÃO DO TRATADO DE COOPERAÇÃO AMAZÔNICA. Fortalecendo alianças internacionais para a proteção da Amazônia. 2024. Disponível em: https://otca.org/pt/otca-fortalece-aliancas-internacionais-para-a-protecao-da-amazonia/. Acesso em: 4 ago. 2025.

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