Ano VI, nº 114, 13 de novembro de 2025
Por Lucas Santiago Portari, Mariana Silveira Gomes, Pamela de Lima, Rúbia Costa Machado* (Imagem:Ricardo Stuckert/PR)
Mesmo com o avanço na frente comercial e a retomada de conversas com os EUA acerca do Tarifaço, o governo Lula III se vê tendo que disputar a pauta nacional com setores da própria população brasileira. Paralelamente, o avanço de Trump na América Latina, por meio do combate ao narcoterrorismo e da geopolítica das terras raras, demonstra a forma pela qual os EUA não interpretam o formalismo da dita ‘despolitização’ como um freio ao seu próprio projeto de poder.
INTRODUÇÃO
Em um contexto marcado por tarifas e tensões, e após meses de atritos e declarações críticas entre os presidentes do Brasil e Estados Unidos, um encontro inesperado reacendeu o debate sobre uma possível reaproximação entre os dois países. Entre gestos diplomáticos e pressões empresariais, a reaproximação revelou não apenas a flexibilidade do Itamaraty, mas também o papel dos interesses econômicos num possível caminho para a reconstrução do diálogo e das relações comerciais entre as duas nações.
Apesar de apresentarem projetos políticos e posturas distintas — de um lado, o discurso multilateral e cooperativo de Lula; de outro, o nacionalismo econômico e o protecionismo característicos de Trump —, nota-se um esforço de articulação internacional que ultrapassa os governos – seja buscando conter o desgaste, seja no acirramento de agendas políticas flagrantemente conflitivas.
DESPOLITIZAÇÃO: CUSTO OU REGALIA?
Após meses de tensão entre Brasil e Estados Unidos — marcados pela imposição de tarifas ao Brasil e por ameaças à soberania nacional — um breve encontro entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 23 de setembro de 2025, durante a última Assembleia Geral das Nações Unidas, parece ter representado um ponto de virada nas relações bilaterais. Com uma suposta “química”, como dito por Trump, entre os dois presidentes, a simpática declaração de Trump sobre Lula causou surpresa geral – sobretudo por ter ocorrido após críticas indiretas de Lula, na mesma reunião, acerca da política externa dos Estados Unidos, com ênfase na postura diante do conflito entre Israel e Palestina e nas recorrentes tentativas de intervenção na soberania nacional. Para muitos, o episódio pode ter parecido isolado; contudo, de acordo com a Folha de S.Paulo, a reação de Trump pode ter sido influenciada pelo papel do empresariado na mediação das tensões entre os dois países, em especial pelo bilionário brasileiro Joesley Batista.
Segundo informações da Folha, Batista já havia se encontrado com Trump semanas antes do aceno do presidente dos Estados Unidos ao mandatário brasileiro. O empresário, dono da JBS – empresa de grande relevância no mercado bovino norte-americano –, defendeu que o diálogo deveria ser o caminho para a superação das divergências entre os dois países, sinalizando a busca por uma colaboração e articulação do empresariado diante do atual cenário econômico e político que envolve Brasil e Estados Unidos.
Assim como já abordado na última newsletter, o impacto das tarifas impostas ao Brasil acabou por afetar apenas 3,3% das exportações brasileiras. No entanto, os impactos desagradaram o empresariado brasileiro e norte-americano, que passaram a pressionar seus respectivos governos por uma reaproximação diplomática. O intuito estava na capacidade de garantir estabilidade nas relações comerciais e previsibilidade nos fluxos de investimento.
Nesse contexto, pouco mais de um mês após o encontro entre os dois presidentes na Assembleia Geral da ONU, Lula e Trump voltaram a se reunir, em 26 de outubro, em Kuala Lumpur, capital da Malásia, durante a cúpula da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático). A reunião, avaliada positivamente por ambas as delegações, abordou temas de relevância tanto para a agenda internacional quanto para os interesses nacionais, como as tarifas comerciais impostas ao Brasil e a crise diplomática envolvendo Venezuela e Estados Unidos.
O encontro simbolizou para o Brasil uma retomada do diálogo direto e institucional. Ainda assim, muitas precauções foram tomadas pelo Itamaraty para evitar qualquer possibilidade de constrangimento, como o ocorrido na discussão pública entre Donald Trump e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Dessa forma, torna-se evidente a postura cautelosa e estratégica da diplomacia brasileira, que buscou preservar a imagem do país e garantir que o diálogo ocorresse em bases de respeito e equilíbrio e, paralelamente, evitar um isolamento político brasileiro em relação aos Estados Unidos.
Durante o encontro, Lula enfatizou o diálogo e o multilateralismo como medidas fundamentais para um cenário harmonioso. Em contraste, Donald Trump manteve uma postura estratégica, centrada em interesses econômicos imediatos e na defesa do protecionismo norte-americano. Apesar das diferenças de abordagem, o tom cordial da reunião evidenciou a disposição de ambos os líderes em reabrir canais de comunicação e encontrar pontos de convergência, sobretudo em temas de interesse comercial. Essa combinação de pragmatismo e diplomacia reafirma a tradição brasileira de buscar o equilíbrio entre soberania e cooperação, evitando alinhamentos automáticos e priorizando uma política externa orientada pela diplomacia.
Assim, a reaproximação entre Brasil e Estados Unidos, após um período de forte tensão e pressão diplomática, sinaliza um esforço mútuo de reconstrução do diálogo. Para o Brasil, trata-se da tentativa de encerrar as tarifas impostas e restabelecer uma relação amistosa e cooperativa. Já para os Estados Unidos, o movimento reflete o interesse em atender às demandas de setores empresariais e preservar espaços de influência na América Latina, em um momento de crescente concorrência global.
UM “NACIONALISMO ESTRANGEIRO” E A PROJEÇÃO BRASILEIRA
Nesse contexto, é importante observar a maneira pela qual as articulações brasileiras – para com os EUA – vão sendo feitas, e de que maneira reverberam no cenário internacional. Se pelo lado econômico pôde-se ver a movimentação de empresários acerca da mitigação aos efeitos do tarifaço, a variável política encontra-se ainda bastante tensionada. Para além do fato de figuras como a de Eduardo Bolsonaro manterem seu mandato, a forma pela qual a recomposição da direita brasileira se dá indica um movimento de sempre terem em mente a necessidade de uma figura política que os una. De qualquer forma, a pressão da oposição à administração Lula III possui dimensões diferentes quando comparadas entre cenário interno e externo.
No cenário doméstico, o sucesso de Lula na reunião na Asean forçou uma mudança de discurso – por parte da oposição – para a questão da Segurança Pública. Na esteira da megaoperação no Rio contra o Comando Vermelho, de 28 de outubro, o anúncio do dito “Consórcio da Paz” busca retomar a opinião pública, fazendo oposição à já apresentada PEC da Segurança Pública do Governo Federal, de abril de 2025. Numa tentativa de minar cada vez mais a influência federal nos estados brasileiros, dito consórcio possui como modelo a administração de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, para a pauta do policiamento e da violência urbana nas capitais brasileiras. Em texto anterior do GT, foram analisadas as flagrantes transgressões humanitárias perpetradas pelo salvadorenho, em nome da ordem doméstica. O reflexo no cenário internacional não tardou: mais especificamente, Paraguai e Argentina de prontidão classificaram as organizações do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho enquanto terroristas. Dito movimento fomenta uma geopolítica na qual fomenta o avanço de Donald Trump sobre toda a América Latina, agora incluindo o Brasil. Isso porque classificar grupos de narcotraficantes como terroristas deu ao presidente Trump liberdade para adotar medidas militares, com ou sem provas, contra territórios latino-americanos. Como explica a doutora em relações internacionais Rashmi Singh:
“Vimos recentemente como as forças armadas dos EUA começaram a usar a força contra cartéis de drogas estrangeiros, incluindo ataques com mísseis no Caribe […] Criminosos são motivados principalmente por lucros, enquanto terroristas são, em última análise, movidos por objetivos políticos, como mudança de regime ou concessões políticas. Isso significa que grupos terroristas não usam o crime para ganhar dinheiro para seus objetivos? Claro que não. Mas o objetivo final deles é sempre político e não financeiro.”
Portanto, pode-se observar a maneira pela qual as movimentações atuais da direita brasileira, ao defenderem interesses particulares dos governadores, mobilizados contra a figura de Lula por uma questão político-ideológica, resulta em um movimento pelo qual a questão nacional – via segurança pública – constitui um entrave ao projeto do próprio Governo Federal brasileiro.
Além disso, o acirramento da tensão entre EUA e Venezuela também traz controvérsias acerca do posicionamento brasileiro na América Latina. Isso porque a relação entre Lula e Nicolás Maduro, atual presidente da Venezuela, vem de uma sequência de desavenças entre as duas figuras. Desde o episódio do não reconhecimento do brasileiro acerca das eleições venezuelanas, passando pela ameaça do venezuelano em tratar Celso Amorim, atual Assessor-Chefe da Assessoria Especial do Presidente da República do Brasil, enquanto persona non grata, a geopolítica lationamericana se encontra numa situação pela qual é de interesse de Trump que cisões entre os latinoamericanos se intensifiquem. O presidente brasileiro, por sua vez, caminha em “cacos de vidro”, na medida em que a pauta de uma América Latina unida implica colocar em segundo plano as desavenças com Maduro, em nome de manter seu relativo protagonismo em oposição à Trump. O estadunidense, por sua vez, dobra a aposta no dito “combate ao narcoterrorismo”, utilizando tal justificativa para, desde setembro, realizar bombardeios à barcos venezuelanos na região do Pacífico.
INSTRUMENTALIZAÇÃO DE PAUTAS E UMA AMÉRICA EM DISPUTA
A expansão da influência trumpista na América Latina deve ser lida não como um movimento puramente ideológico, mas como um esforço estratégico que instrumentaliza identidades políticas e agendas públicas para assegurar vantagens geoestratégicas e econômicas. A nova direita global opera por afinidades pragmáticas: valores e rótulos ideológicos servem como verniz legitimador, enquanto o cerne da ação é orientado por interesses de segurança, acesso a recursos e influência regional.
No caso argentino, as declarações públicas de Donald Trump condicionando apoio a resultados eleitorais — ainda que direcionadas às eleições legislativas — ilustram esse uso instrumental do apoio externo como alavanca de poder regional. Em paralelo, a reabertura de canais com lideranças ideologicamente distantes, como Luiz Inácio Lula da Silva, demonstra que o critério decisivo para Washington é, sobretudo, a utilidade geopolítica do interlocutor, mais do que a pureza ideológica. Essa alternância entre boicote e aproximação ressalta um padrão de realismo pragmático que predomina na estratégia trumpista (CEBRI, 2025).
Já no contexto latino-americano, essa lógica transparece claramente. Ao condicionarem apoio à eleição de determinados atores, essas práticas demonstram que os alinhamentos ideológicos são utilizados quando funcionam como alavanca de poder, e descartados quando se mostram inconvenientes. A contradição torna-se evidente quando Trump reabre canais de diálogo com Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que este seja identificado com a agenda progressista, o que mostra que “a identificação ideológica” para o trumpismo é maleável, ou seja, o critério decisivo para Trump é, sobretudo, a utilidade geopolítica do interlocutor, mais do que a pureza ideológica.
No caso argentino, as declarações públicas de Donald Trump condicionando apoio a resultados eleitorais, ainda que direcionadas às eleições legislativas, ilustram esse uso instrumental do apoio externo como alavanca de poder regional. Nesse contexto, no que tange o plano interno de segurança pública, o Brasil vivencia uma expressão da dinâmica supracitada: Trump sugere que o Brasil classifique facções criminosas como organizações terroristas, que reverberou internamente na criação do Projeto de Lei 1.283/2025, expõe o país à influência estadunidense. Segundo Agência Brasil, a PL que pretende equiparar as facções criminosas à prática do terrorismo expõe o Brasil à estratégia intervencionista dos Estados Unidos (EUA) na América Latina”. Logo, há o alerta para o fato de que o “crime organizado tem natureza distinta do terrorismo e que os confundir abre precedentes perigosos. Nesse contexto, tal processo, denominado “bukelização” da segurança pública no Brasil, materializa-se na adoção de uma retórica autoritária e punitivista inspirada em modelos latino-americanos de direita. Tal abordagem converge com a agenda trumpista de militarização das relações regionais e da securitização externa — reforçando a noção de que a “identificação ideológica” serve como rato d’água para práticas de intervenção e cooperação assimétrica.
Desse modo o Brasil passa a ocupar uma posição ambígua: é simultaneamente alvo e parceiro da expansão norte-americana. A conjugação do pragmatismo trumpista que instrumentaliza a identificação ideológica quando convém; a expansão de governanças amigas ou dóceis; e a difusão da lógica “bukelizada” da segurança cria um quadro no qual a “identificação ideológica” deixa de ser critério explanatório suficiente.
Em vez disso, a identificação aparece como ferramenta tática: mobilizada para deslegitimar adversários, cooptar aliados regionais e justificar intervenções ou arranjos de cooperação que garantam controle sobre recursos, rotas geopolíticas e agendas de segurança. Nesse contexto, a convergência entre Estados Unidos, Argentina, Paraguai e El Salvador ilustra a construção de uma coalizão informal de governos favoráveis à expansão da influência estadunidense, sustentada pelo discurso global da extrema direita e pela instrumentalização da segurança como eixo de legitimação política.
Fica explícito que, em última instância, a “identificação ideológica” torna-se, portanto, uma ferramenta retórica adaptável às circunstâncias: um mecanismo de mobilização de afetos políticos, mas que, na prática, cede lugar a uma agenda orientada por interesses de poder, segurança e controle regional, sobretudo na América Latina. Tal lógica é alimentada, bem como encontra o seu principal ponto de conexão na extrema direita global e a execução de sua agenda.
A GEOPOLÍTICA DAS TERRAS RARAS
O avanço das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil tomou forma em uma manobra cujas justificativas se revestiram de retórica política, mas na qual o alvo real era estratégico, as terras raras. As tensões entre Brasil e Estados Unidos, formalizadas pela imposição do ‘tarifaço’ de até 50% sobre produtos brasileiros, foi apresentada pelo presidente americano Donald Trump como uma retaliação política, utilizando a condenação e inelegibilidade de seu aliado, Jair Bolsonaro, como pretexto para a “caça às bruxas” e de práticas injustas no comércio bilateral internacional.
No entanto, as movimentações recentes sugerem que a crise diplomática esconde outro conflito geopolítico, o acesso às terras raras brasileiras. Estima-se que o Brasil possua entre 19% a 23% das reservas globais desses minérios. Os Estados Unidos informaram que o acesso a esses minerais estratégicos é um fator decisivo para qualquer avanço nas negociações comerciais, antes mesmo do anúncio do tarifaço. Com o aprofundamento das tensões, o encarregado de negócios americano na embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Gabriel Escobar, tornou-se mais “insistente” após ameaças tarifárias, deixando o interesse nos minerais explícitos, passando a ser uma exigência aberta dos EUA para com o Brasil, em relação aos minerais raros, revelando a prioridade de Washington na relação bilateral.
Essa pressão marca um esforço da administração trumpista para redesenhar o mapa político da América do Sul e perpetuar a posição do Brasil como um mero fornecedor de matéria-prima, obrigando-o a aceitar as decisões de Washington. Sob o viés de negociação comercial, opera-se uma estratégia de coerção que busca limitar a autonomia brasileira. Por um lado, conter seu projeto de reindustrialização – além de criar rachaduras no projeto político de Lula próximo a 2026, ano de eleições presidenciais; por outro enfraquecer sua atuação multilateral, recolocando o país nos eixo de alinhamento automático e subordinação aos interesses americanos.
Dessa forma, a proposta de reduzir o tarifaço em troca de cooperação no setor de terras raras configura um movimento para tentar despolitizar o conflito bilateral, alinhando estritamente ao aspecto comercial. Nesse sentido, os EUA buscam atenuar a crise diplomática, unicamente para viabilizar acordo estratégico sobre os minerais críticos, sendo seu foco central a necessidade de diminuir a dependência da China, que detém 90% da capacidade do refino de terras raras e controla 40% dos depósitos mundiais, além do controle quase completo de suas exportações.
Contudo, essa demanda foi interpretada como uma ameaça direta à soberania nacional. O presidente Lula respondeu enfaticamente que “ninguém põe a mão” nas terras raras, destacando que o Brasil pertence ao povo brasileiro e reafirmando a autoridade nacional. A reação do governo Lula expressa a resistência e proteção à soberania tecnológica do país em face das investidas geopolíticas estadunidenses. Mas a percepção de que ceder à pressão trumpista significa abdicar do controle sobre um ativo que pode redefinir o futuro industrial e tecnológico do país.
Dessa maneira, a soberania tecnológica é o ponto-chave da resistência brasileira. Existe, nessa questão, a possibilidade do Palácio do Planalto de encaminhamento de propostas que incluam investimentos em processamento nacional e mecanismos efetivos de transferência tecnológica. Com o intuito de romper a lógica histórica de mera exportação bruta desses recursos, ao manter uma cadeia nacional de minas e fábricas de ímãs, o Brasil deseja romper com o seu destino colonial de exportador de produtos de baixo valor agregado.
Apesar da crise diplomática e das investidas de Trump, o Estado brasileiro demonstrou interesse em manter as relações comerciais e diplomáticas com os EUA. Essa resiliência é sustentada, em parte, pela já organizada cooperação do empresariado em ambos os países. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que “as empresas americanas são as que mais investem em terras raras no Brasil”. Os investidores americanos e britânicos já haviam injetado 150 milhões de dólares (mais de 2,7 bilhões de reais), na mina Serra Verde, investimento apoiado pelo governo americano, antes da escalada da crise diplomática.
A persistência de tais investimentos e a coordenação entre o empresariado de ambos os países são elementos que contribuem para o baixo impacto do tarifaço na balança comercial bilateral. Dessa forma, as terras raras surgem como uma moeda de troca que pode levar a uma desaceleração nas tensões, apesar das turbulências políticas.No contexto geopolítico, o Brasil usa suas reservas de minerais como um elemento de negociação, buscando novos parceiros comerciais para o desenvolvimento mineral, como a Índia, e investe em parcerias público-privadas no mercado internacional, mostrando que existe uma terceira via para Donald Trump.
Dessa forma, o conjunto de eventos deixa claro a tentativa de Trump deslocar o conflito do campo político para o âmbito estritamente comercial, na qual os EUA podem atuar de forma mais incisiva e com menos desgaste internacional. Em resposta, o Brasil reafirma sua soberania no ambiente externo e abre seu leque de parceiros para negociar os minérios críticos, sinalizando internacionalmente que não aceitará o alinhamento automático e busca uma terceira via às investidas norte-americanas.
Portanto, as disputas pelas terras raras vão além das tarifas. Elas expõem um confronto entre os Estados Unidos tentando manter sua hegemonia tecnológica e barrar a ascensão chinesa por meio da utilização mecanismos de coação internacional e, de outro lado, a tentativa brasileira de utilizar seus recursos naturais críticos como motor de desenvolvimento, assegurador de sua autonomia e inserção internacional. Nessa disputa, a despolitização se torna uma estratégia de poder para criar uma falsa pacificação entre os países, cujo objetivo é conseguir consolidar um acordo comercial acerca das terras raras brasileiras Utiliza-se uma retórica comercial que busca pressionar o Brasil a aceitar uma suposta cooperação que é, na prática, condicionada e assimétrica.
*Agradecemos também a professora Nathália Henrich pela orientação no texto
REFERÊNCIAS
Os bastidores da “química” entre Trump e Lula
Lula ataca sanções e tarifas comerciais dos EUA em discurso na Assembleia Geral da ONU
Joesley Batista teve encontro com Trump semanas antes de aceno a Lula
Entre pressões externas e disputas internas: as múltiplas ameaças a soberania brasileira
US Senate passes bill with Republican support to block Trump tariffs on Brazil
https://www.theguardian.com/us-news/2025/oct/28/us-senate-trump-tariffs-brazil?utm
Como as tarifas de Trump prejudicaram aliança entre Brasil e EUA em terras raras
Trump está de olho nas terras raras e no Brasil soberano
Encontro entre Lula e Trump pode selar acordo sobre terras raras e aliviar tarifaço
“Ninguém põe a mão”, diz Lula sobre interesse dos EUA em minerais críticos
Terras raras, a carta de Lula para negociar com Trump
https://istoe.com.br/terras-raras-a-carta-de-lula-para-negociar-com-trump
Terras raras fizeram EUA recalcular a rota com Brasil? O que pode mudar no mercado
EUA bombardeiam mais dois barcos no Pacífico: 6 morrem
Celso Amorim, persona non grata na Venezuela?
https://crusoe.com.br/diario/celso-amorim-persona-non-grata-na-venezuela/
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Exclusão e criação de um inimigo: violação de direitos fundamentas dos imigrantes pela administração Trump
A nova conversa entre Zelensky e Trump após reunião tensa na Casa Branca
Rio sob investigação: o que vem após as 121 mortes na megaoperação
Os Estados Unidos e o Sul Global
https://cebri.org/revista/br/artigo/213/os-estados-unidos-e-o-sul-global
Lula e Trump conversam sobre tarifaço duas semanas após encontro e ‘química’ na ONU
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Brazil rejects US request to classify local gangs as terrorist organizations
Os Estados Unidos e o Sul Global
https://cebri.org/revista/br/artigo/213/os-estados-unidos-e-o-sul-global
O mundo segundo Trump
https://cebri.org/revista/br/artigo/198/o-mundo-segundo-trump
