No dia 24 de abril de 2026, o campus de São Bernardo do Campo da Universidade Federal do ABC (UFABC) foi palco de um momento histórico: a entrega do título de Doutor Honoris Causa ao embaixador Celso Amorim. A cerimônia reafirmou os laços profundos entre o diplomata e a instituição, celebrando uma trajetória dedicada à soberania nacional, à paz e ao desenvolvimento social.
Em um discurso tão histórico como a solenidade, Amorim descreveu a gravidade dos conflitos atuais e o desrespeito ao direito internacional como um “mundo em carne viva”, onde a guerra ameaça a ordem global. Também defendeu a soberania, alertando: “Quando se matam os negociadores, sobram os guerreiros”.
Em resposta a pedidos de comentários sobre o discurso do primeiro-ministro canadense sobre o papel das potências médias neste cenário – categoria da qual faria parte o Canadá e conceito muito debatido na academia, reafirmou o Brasil como “grande potência”.
E encerrou com uma frase que deve ecoar por muito tempo, não só aos ouvidos de quem estava presente na solenidade: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse Amorim, exigindo autonomia nacional e paz ativa.
Vozes da comunidade acadêmica
A cerimônia contou com falas emocionantes, que destacaram o impacto de Amorim na formação de novos internacionalistas e sua estatura como estadista. A Profa. Dra. Tatiana Berringer, madrinha da titulação, definiu Amorim como um “cavaleiro da paz” e uma escola de pensamento diplomático por si só. Destacou sua defesa intransigente da soberania, do multilateralismo e seu compromisso notável com a valorização das mulheres nos espaços de poder.
Tuany Alves Nascimento (aluna egressa de RI) relatou como a política externa “ativa e altiva” e a presença de Amorim na UFABC, especialmente no ciclo de palestras de 2019, foram fundamentais para sua trajetória como mulher negra da periferia, que hoje atua no Governo Federal.
Representando os estudantes, Marcio Caldo (Presidente do CARI) afirmou que a titulação simboliza a defesa da diplomacia como instrumento de diálogo e autonomia. Para os discentes, Amorim é uma referência concreta de que o Brasil pode ocupar um lugar mais justo no mundo.
Confira na íntegra o memorial sobre sua trajetória, o discurso do Reitor Prof. Dr. Dácio Roberto Matheus e o discurso de agradecimento de Celso Amorim.
Memorial Celso Amorim: uma trajetória de excelência
(Texto reproduzido na íntegra)
Celso Amorim nasceu em Santos em 3 de junho de 1942.
É diplomata, acadêmico e professor.
Entrou na Carreira Diplomática e se graduou, em 1965, pelo Instituto Rio Branco.
Efetuou estudos de pós-graduação na Academia Diplomática de Viena na Áustria e na London School of Economics and Political Science.
Em 1972 passou a servir na missão do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos (OEA).
Entre 1975 e 1977, foi assessor do ministro das Relações Exteriores, Azeredo da Silveira, na implementação de uma política externa pragmática, ecumênica e responsável.
A partir de 1979 chefiou a Divisão de Difusão Cultural (DDC) do Itamaraty e foi representante do MRE no Conselho Nacional de Cinema.
Em 1979, tornou-se diretor-geral da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), cargo que exerceu até 1982.
Entre 1990 e 1991, foi chefe do Departamento Econômico do Itamaraty, e liderou as equipes do Brasil que negociaram o Tratado de Assunção que estabeleceu o Mercosul
A partir de julho de 1993, no governo Itamar Franco (1992-1995), Celso Amorim ocupou pela 1ª vez o cargo de Ministro das Relações Exteriores do Brasil.
Em 2001, foi um dos representantes da delegação brasileira na Conferência da OMC, em Doha.
Foi nessa conferência que o Brasil liderou países em desenvolvimento na luta pelo licenciamento compulsório de patentes de medicamentos em casos de emergência nacional, relacionados à AIDS.
A partir de 2003, no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, voltou ao cargo de Ministro de Relações Exteriores.
Formulou e implementou uma política externa ativa e altiva de diversificação de parcerias direcionada para promover o desenvolvimento econômico e social nacional, bem como projetar o Brasil no mundo.
O Brasil participou e liderou uma série de coalizões e grupos internacionais importantes para a política global no período, como o G-20 comercial na OMC; o IBAS (formado por Índia, Brasil e África do Sul) e o BRICS.
Entre 2011-2014, Celso Amorim assumiu o Ministério da Defesa no governo de Dilma Rousseff.
A partir de 2023, no novo mandato do presidente Lula, retornou ao governo, no cargo de Assessor Chefe da Assessoria Especial da Presidência da República.
Celso Amorim se distingue por grandes contribuições para as relações internacionais e diplomacia brasileira e mundial, pela defesa de valores de democracia, direitos humanos, e desenvolvimento econômico e social que são também valores desta universidade, da UFABC.
Universidade a qual teve a honra de receber Amorim em múltiplas ocasiões.
Destaca-se sua participação na “I Conferência Nacional de política externa” de 2013, que foi realizada no campus São Bernardo do Campo, inaugurando este grande auditório, na qual ele e também Lula estiveram presentes.
Essa relação se aprofundou quando Amorim foi Ministro da Defesa e ajudou a viabilizar e agilizar a tramitação do pedido da UFABC à Força Aérea Brasileira para ceder um avião de pequeno porte e um helicóptero para o Bacharelado em Engenharia Aeroespacial.
E se aprofundou ainda mais a partir de 2019, quando o Embaixador deu em nossa Universidade um ciclo de palestras sobre a experiência da política externa brasileira nos primeiros governos Lula, marcando o lançamento do Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (Opeb).
Por tudo isso, pelas suas contribuições ao Estado brasileiro, à diplomacia, à academia, a esta universidade.
Pelo humanista e defensor da paz, da democracia, dos direitos humanos, em especial nesse mundo que hoje tem negado tão abertamente esses valores, a UFABC concede o título de Dr. Honoris Causa a Celso Amorim.
Pronunciamento do Reitor Prof. Dr. Dácio Roberto Matheus
(Texto reproduzido na íntegra)
Quero cumprimentar nosso ilustre homenageado Embaixador Celso Luis Nunes Amorim e agradecer a honra de tê-lo conosco nesta noite festiva.
Cumprimento nosso Excelentíssimo Ministro da Educação, Leonardo Barchini, em nome de quem cumprimento as demais autoridades e representações do governo federal.
Cumprimento nossa vice-reitora Profa. Mônica Schroeder, em nome de quem cumprimento todas e todos os dirigentes, docentes, técnicos e técnicos administrativos da UFABC.
Cumprimento as professoras Tatiana Berringer de Assumpção e Ana Tereza Lopes Marra de Sousa, em nome de quem cumprimento todo corpo docente proponente da presente honraria.
Cumprimento a aluna Tuany Nascimento, egressa do curso de Bacharelado de Relações Internacionais, e o aluno Márcio Caldo, presidente do Centro Acadêmico de Relações Internacionais, em nome de quem saúdo todas e todos os discentes da UFABC.
Demais autoridades, cumprimento à todas e todos convidados que nos dão a honra de suas presenças nesta noite.
A homenagem que hoje prestamos ao Embaixador Celso Amorim reconhece, ao longo de mais de cinco décadas de serviço público, uma trajetória ímpar na defesa dos interesses nacionais, na construção da integração regional e na projeção do Brasil como ator global protagonista.
Reconhece também seu papel na formulação de uma política externa altiva e ativa e o seu profundo compromisso com os valores democráticos, com os direitos humanos e com o desenvolvimento social.
A relação de Celso Amorim com a Universidade Federal do ABC não é apenas protocolar, mas afetiva e acadêmica.
Em 2013, o então ministro das relações exteriores esteve neste mesmo campus de São Bernardo do Campo, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para inaugurar este auditório durante a “I conferência nacional de política externa”.
Mais tarde, como Ministro da Defesa, foi um parceiro fundamental para viabilizar a cessão das aeronaves que hoje servem ao nosso bacharelado em engenharia aeroespacial.
E, mais recentemente, como acadêmico e pensador, contribuiu diretamente para o lançamento do Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, o Opeb, fortalecendo os laços entre a diplomacia e a produção de conhecimento em nossa universidade.
Por sua trajetória de dedicação ao estado brasileiro, pela defesa intransigente da paz e da democracia em um mundo que tanto delas carece, e pelas significativas contribuições prestadas ao desenvolvimento desta instituição, é com muita alegria que a universidade federal do abc entrega este título de doutor honoris causa ao Embaixador Celso Amorim.
Seja muito bem-vindo à galeria dos doutores e doutoras honoris causa da UFABC, galeria esta que nos enche de orgulho pela relevância dos nomes que a compõem para nossa comunidade, para a região, para o país e para o mundo e nos identifica com as grandes causas da sociedade contemporânea e os maiores valores da humanidade.
Discurso de agradecimento: Embaixador Celso Amorim
(Texto reproduzido na íntegra)
Magnífico Reitor Dácio Roberto Matheus, Vice-Reitora Mônica Schröder, Professora Doutora Tatiana Berringer, Professora Doutora Ana Tereza Lopes Marra de Souza, Demais professores e alunos aqui presentes, é uma honra receber este título da Universidade Federal do ABC.
Tenho muito orgulho de ter acompanhado a UFABC desde seus primeiros passos, testemunhando o desenvolvimento de seu projeto pedagógico inovador. Aqui sempre encontrei as portas abertas para o livre debate de ideias.
É uma satisfação especial ser agraciado com o mesmo título recebido pelo presidente Lula, primeiro doutor honoris causa da UFABC, e pelo presidente Pepe Mujica (in memoriam), grande humanista e líder intelectual da nossa região. Por ser o berço do sindicalismo, o ABC ocupa um lugar especial na história política do Brasil contemporâneo.
Esta Universidade nasceu de demandas de sindicalistas que, por décadas, buscaram a modernização tecnológica do ABC e a inclusão social dos que aqui viviam. Ela é um exemplo eloquente das conquistas da luta dos trabalhadores.
O processo de criação da UFABC ilustra o clima que prevaleceu nos primeiros mandatos do presidente Lula e da presidenta Dilma e que segue prevalecendo. Foi um período de otimismo, em que víamos sucessivamente projetos se tornando realidade. Um período em que o sonho de um país mais justo estava se realizando.
Este histórico de luta também remete a um tema central que gostaria de discutir hoje, que é o da soberania. Um país soberano é um país capaz de pensar por conta própria. Um país soberano é um país livre para escolher o caminho que mais beneficie o seu povo e os seus interesses.
No conturbado mundo em que vivemos, questões como a autonomia tecnológica, a diversificação de parcerias e a independência na tomada de posições tornam-se ainda mais relevantes.
Há seis meses, se me perguntassem qual a maior ameaça global, eu não teria dúvidas em responder: a mudança do clima. Hoje, a principal ameaça voltou a ser a guerra – sem que a mudança de clima tenha deixado de ser uma grande ameaça. Estamos vivendo em um mundo em carne viva. O interesse bruto se revela de forma escancarada e antigas ilusões, como a esperança na prevalência do direito internacional, caíram por terra.
A retração do espaço de diálogo e a centralidade da força como instrumento político são as características, infelizmente, mais marcantes do período em que vivemos. Já não resta dúvidas de que a ordem internacional que conhecíamos acabou. Resta saber sobre que bases a próxima ordem internacional será construída.
A guerra iniciada por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã coloca o mundo inteiro em estado de alerta. O conflito é grave por uma série de motivos: o flagrante desrespeito ao direito internacional; o grande número de países envolvidos; as graves perturbações ao fluxo de comércio e a possibilidade de entrelaçamento com outras guerras em curso.
Neste momento de profunda instabilidade, é interessante recordar uma troca de cartas que ocorreu entre 1932 e 1933 entre Albert Einstein e Sigmund Freud. Nessa correspondência, Einstein propõe a Freud a seguinte indagação “existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?”.
Em suas ponderações sobre o assunto, Einstein fala sobre a possibilidade de instituir um organismo legislativo e judiciário que pudesse arbitrar todo conflito que surgisse entre as nações. Ele mesmo reconhece, entretanto, a dificuldade de execução dessa proposta, que envolveria uma renúncia de soberania.
Dadas as dificuldades de ordem institucional, Einstein mostra-se especialmente interessado em saber se Freud conheceria alguma maneira de controlar o impulso de ódio e destruição que existe na mente humana. Freud concorda que as guerras poderiam ser evitadas se a humanidade se unisse para estabelecer uma autoridade central com o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses.
No entanto, afirma que, sem o poder necessário para implementar suas decisões, tal instituição seria inútil. Ao discorrer sobre os instintos humanos, Freud argumenta que de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens. No entanto, reconhece que o estreitamento dos vínculos emocionais entre as pessoas pode ajudar a prevenir a guerra.
Essa troca de cartas ocorreu há quase 100 anos, mas as questões que levantam continuam atuais. Estamos novamente em um momento de crise, em que é preciso repensar o desenho institucional que foi criado para prevenir as guerras.
É preciso refletir sobre como restaurar a credibilidade do direito internacional após tantas violações. Aqueles que acreditam que a guerra é um meio eficaz de solução de problemas esquecem-se das lições da história. Como disse o primeiro-ministro da França Georges Clemenceau durante o longo processo de negociação que se seguiu à Primeira Guerra Mundial: “é muito mais fácil fazer a guerra do que a paz”.
É o que se vê hoje no caso do Irã. A tática de decapitação adotada por Israel e pelos Estados Unidos não foi suficiente para mudar a natureza do governo iraniano. Os sinais, na realidade, vão na direção oposta: a Guarda Revolucionária parece ter ganhado ainda mais peso na atual configuração de forças. Em outras palavras, “quando se matam os negociadores, sobram os guerreiros”.
Em 2010, o Brasil, sob a direção do presidente Lula, tentou, juntamente com a Turquia, encontrar uma solução diplomática para a questão do programa nuclear iraniano. À época, o problema era muito mais simples: não apenas a quantidade de urânio enriquecido detida pelo Irã era muito menor, mas os níveis de enriquecimento também eram muito mais baixos.
A Declaração de Teerã, como ficou conhecido o documento que assinamos em maio de 2010, tinha um objetivo principal: a criação de confiança. Infelizmente, nossa iniciativa não contou com o apoio dos P5. Desde então, sucessivas oportunidades de negociação foram desperdiçadas.
Os Estados Unidos atacaram militarmente o Irã enquanto negociações diplomáticas estavam agendadas. Como expressou o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, foi um episódio de profunda quebra de confiança. E a confiança é o elemento essencial da diplomacia e de qualquer tipo de negociação.
A guerra na Ucrânia também é um exemplo de que é mais fácil começar um conflito do que terminá-lo. Em 2024, o Brasil buscou, juntamente com a China, contribuir para a retomada do diálogo entre Rússia e Ucrânia. Lançamos, à margem da Assembleia-Geral da ONU, o Grupo de Amigos da Paz, composto por países do Sul Global interessados em contribuir para uma solução diplomática.
Com a mudança de governo nos Estados Unidos, estabeleceu-se uma nova dinâmica. No entanto, mesmo com a proclamada determinação do presidente dos Estados Unidos de pôr fim à guerra, ainda não foi possível chegar a um acordo de paz.
O Brasil é um país tradicionalmente comprometido com a paz. Isso não significa que podemos descuidar de nossa defesa. Precisamos continuar investindo na capacidade de dissuasão.
É fundamental que qualquer ator externo saiba que uma eventual agressão implicaria custos e danos relevantes. Para alcançar uma autonomia verdadeira, é preciso ter disposição política para trilhar caminhos difíceis.
No último dia 25 de março, ocorreu a apresentação do F-39 Gripen, o primeiro caça supersônico produzido no Brasil, inclusive parte dele aqui em São Bernardo do Campo. Potencialmente, teremos um centro de exportação do Gripen para a América Latina e também para outras regiões. Tenho muito orgulho de ter participado, durante o governo Dilma Rousseff, deste projeto do ministério da Defesa. Foi preciso persistir no critério de transferência de tecnologia na abertura do código-fonte. Hoje estamos colhendo os frutos dessa escolha, com uma base industrial de defesa que saiu fortalecida.
No final do ano passado, o Congresso aprovou um projeto de lei que garante R$30 bilhões para projetos estratégicos de Defesa nos próximos 6 anos, que ficarão fora do teto de gastos. É uma garantia mínima para a continuidade de projetos que exigem investimentos de longo prazo. Para que o país cresça e se desenvolva, é preciso ter paz.
Mas não basta dizer ao mundo que o Brasil é um país pacífico. No mundo em que vivemos, sendo o Brasil um país dotado de riquezas materiais como minerais críticos, potencial em inteligência artificial e protagonismo na energia limpa, há muitos fatores que podem levar uma potência externa a adotar uma postura agressiva em relação a nós.
Muitos perguntam: “Para que serviria uma guerra? O Brasil perderia de qualquer forma, seja contra os Estados Unidos, seja contra a China.” Não é essa a questão. Trata-se de ter a capacidade mínima de dissuasão — de demonstrar que qualquer agressão implicará custos reais ao agressor. É essa percepção que precisa estar presente no cálculo dos outros países, para que não nos tornemos vítimas como tantos outros hoje estão sendo.
Poderia abordar ainda muitos outros aspectos relacionados aos minerais críticos, mas sobretudo quero deixar claro: isso não é uma questão apenas de governo, nem meramente técnica. É, acima de tudo, uma questão política — e, por ser política, é também uma questão para a opinião pública. Lembro-me, ainda criança, de ouvir que a Petrobras não chegaria a nada e que o petróleo ficaria para sempre embaixo da terra.
Hoje, o Brasil é o quarto ou quinto maior produtor de petróleo do mundo e conquistou a autossuficiência energética neste setor. Não estou defendendo os combustíveis fósseis — é preciso trabalhar para substituí-los —, mas essa transição levará tempo. O ponto é que o mesmo espírito que transformou o petróleo em soberania precisa se aplicar aos minerais críticos: não apenas os políticos, mas o povo brasileiro precisa afirmar que esses recursos são nossos. Não se trata somente de beneficiamento — embora isso seja importante. O mais essencial é sermos capazes de definir, nós mesmos, as nossas necessidades e os nossos interesses.
Na última edição do Fórum de Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez um discurso interessante. Carney discorreu sobre o momento de ruptura da ordem internacional, em que seria necessário reconhecer que uma ficção agradável, do mundo pacífico, chegou ao fim e encarar uma realidade geopolítica mais dura, em que o poder não reconhece limites. E nós nem estamos falando aqui sobre os conflitos econômicos, a quebra total da Organização Mundial do Comércio, o abandono do princípio da nação mais favorecida, a volta a uma filosofia comercial que predominou nos anos 30 e que contribuiu para a Segunda Guerra Mundial.
Não estou falando disso, mesmo porque não haveria tempo. Mas é esse mundo que nós precisamos enfrentar, esse mundo de desordem, esse mundo sem regras que não só sejam aceitas, mas discutidas multilateralmente. O primeiro-ministro canadense também falou do papel das potências médias – categoria da qual faria parte o Canadá – e como elas podem atuar nesse cenário. Defendeu a importância de recalibrar parcerias, diversificar relações e unir esforços com outras potências médias.
Recebi muitos pedidos de comentários a respeito desse discurso. Sei que esse conceito também é muito debatido na academia. Estou plenamente de acordo com o diagnóstico de ruptura da ordem internacional. Não concordo, no entanto, em classificar o Brasil como uma potência média. Não tenho nenhum medo de dizer que o Brasil é uma grande potência. O Brasil não é uma superpotência, até porque não possui armas nucleares, e talvez nem seja do nosso interesse tê-las. Mas é, inegavelmente, uma grande potência: energética, ambiental, cultural e artística, como temos demonstrado mundo afora.
Mesmo sem o arsenal nuclear, o Brasil figura entre os quatro países que aparecem simultaneamente entre os dez maiores do mundo em economia, população e território — ao lado de Estados Unidos, China e Índia. Somos uma superpotência ambiental, membros fundadores do BRICS e do G20, e um país que vive em paz com dez vizinhos. O mundo que desejamos não é aquele em que alguns países se subordinam a outros, mas um mundo multipolar, no qual cada nação é livre para buscar, ativa e altivamente, as alianças que lhe sejam mais vantajosas.
Quando penso no papel do Brasil no mundo, não consigo imaginar um futuro que esteja dissociado dos vizinhos da América do Sul. Diferentes orientações políticas dos governos da região não devem influenciar os projetos de integração física.
Queremos concluir, no século XXI, algo que foi feito na América do Norte já no século XIX: a integração dos oceanos Atlântico e Pacífico.
Nos causa especial preocupação o futuro da Venezuela. O sequestro do presidente Maduro foi algo sem precedentes. Algo que não se viu nem mesmo no auge da chamada diplomacia das canhoneiras, na transição do século XIX para o século XX. A presidenta Delcy Rodriguez enfrenta uma situação de equilíbrio muito difícil.
Em nossa região, está em curso uma política de pressão máxima sobre o povo cubano. Máxima e cruel. O caso de Cuba é emblemático em muitos sentidos. Ele desnuda a crueldade das sanções e as dificuldades de superá-las
A velocidade do ciclo de notícias não pode fazer com que nos esqueçamos de outros casos de graves violações do direito internacional. O genocídio em Gaza e a guerra no Líbano merecem nossa continuada atenção.
O Brasil deve continuar contribuindo para um mundo de paz e para a construção de uma ordem multipolar mais equilibrada, que permita relações baseadas na autonomia, e não em alinhamentos automáticos. Não aceitamos ideologias baseadas em áreas de influência. Como diria meu amigo Paulo Nogueira Batista Jr., de cujo pai tive importantes lições de diplomacia, o Brasil não cabe no quintal de ninguém.
