Ano VII, nº 133, 24 de Setembro de 2026
Por Isabella Werneck Zanon, Gabriel Gesteira, Anna Beatriz Sampaulo Paiva, Isabela Oliveira Silva (Imagem: Wikimedia Commons)
No leste da República Democrática do Congo, a epidemia de Ebola se sobrepõe a um cenário de guerra, deslocamentos forçados e fragilidade institucional. A combinação entre crise sanitária e conflito amplia os desafios para a saúde pública e a cooperação internacional
Antecedentes
A epidemia de Ebola na África Ocidental no período entre 2014 e 2016 foi o maior, mais mortífero e ameaçador surto da doença registrado na atualidade. Os primeiros casos aconteceram nas cidades de Guéckédou e Macenta, que viriam a se tornar o centro do contágio na Guiné, em dezembro de 2013 e progrediram substancialmente ao longo do ano seguinte. A princípio, os casos eram considerados como uma misteriosa febre hemorrágica, o que retardou o seu diagnóstico e ocasionou a morte de 23 pessoas (REUTERS, 2014).
À medida que o diagnóstico positivo para uma epidemia do vírus foi confirmado pelo Ministério da Saúde de Guiné, foram registrados os primeiros relatos de contágio por Ebola na Libéria, no condado de Lofa, enquanto continuam a ser registrados surtos do vírus na Guiné, mais especificamente em Guéckédou, Macenta e na capital do país, Conacri. Devido às fronteiras porosas da área e a alta propagação do vírus nos países vizinhos, Serra Leone confirmou a existência de casos nos distritos de Kenema e Kailahun, em maio de 2014. Esta proximidade geográfica entre os países da África Ocidental causou o agravamento da disseminação do vírus, de modo que “esses cinco distritos continuaram sendo os principais focos de transmissão nas regiões fronteiriças dos três países” (OMS, 2014).
À vista da rápida evolução da transmissão da doença para os demais países da África Ocidental, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a epidemia de Ebola em 8 de agosto de 2014, como uma emergência de saúde pública internacional. Ao analisar os dados sobre a propagação do vírus, conforme estatísticas da OMS (2014), certas características de Guiné, Libéria e Serra Leoa desencadearam o contágio: os três países mantêm intenso fluxo de pessoas através das fronteiras, sobretudo na região do epicentro, e as estradas ligam com facilidade vilarejos rurais e capitais densamente povoadas, e este trânsito constante favoreceu a disseminação da infecção.
A epidemia de Ebola, a sétima desde a descoberta da doença em 1976, terminou oficialmente em junho de 2016, com mais de 28 mil e 600 pessoas infectadas e 11 mil e 325 mortos. (OMS, 2016). Dessa forma, a epidemia de Ebola na África Ocidental entre 2014 e 2016 demonstrou como diversos fatores podem contribuir para a rápida expansão de uma doença infecciosa, como questões epidemiológicas, geográficas e sociais. Diante da dimensão alcançada pelo surto, a resposta passou a envolver também organizações internacionais e diferentes parceiros humanitários, além dos governos dos países afetados, com ações voltadas para identificação e acompanhamento de contatos, tratamento de pacientes e mobilização de recursos.
A experiência da África Ocidental também contribuiu para modificar a forma como novas epidemias de Ebola passaram a ser enfrentadas. Segundo a OMS, as lições aprendidas entre 2014 e 2016 foram posteriormente incorporadas às respostas a novos surtos, especialmente na República Democrática do Congo (RDC), com maior atenção à pesquisa, ao desenvolvimento de vacinas e tratamentos, à vigilância e ao envolvimento das comunidades (OMS, 2020).
Entretanto, a recorrência do vírus demonstra que o encerramento de uma epidemia não elimina os riscos associados a novos surtos. Em 2026, a RDC enfrenta novamente uma epidemia de Ebola, desta vez causada pelo vírus Bundibugyo, que se expandiu para diferentes províncias e levou a OMS a classificar o risco dentro do país como muito alto.
Epidemia na RDC
A epidemia de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) atingiu 1.003 casos confirmados e 254 mortes no final de junho de 2026. A província de Ituri abriga o epicentro da crise, respondendo por 91,3% das infecções registradas e 80,7% dos óbitos. Os dados do Instituto Nacional de Saúde Pública congolês revelam uma letalidade de 25,3%. Trata-se do maior surto já documentado da variante Bundibugyo.
A emergência atual impõe desafios práticos e científicos ao sistema de saúde local e à cooperação internacional. O país enfrentou 17 epidemias da doença desde 1976. A quase totalidade desses eventos foi causada pela cepa Zaire. A variante Bundibugyo possuía um histórico restrito. Ela havia provocado apenas dois eventos epidêmicos conhecidos: um em Uganda no ano de 2007 e outro de menor escala na cidade congolesa de Isiro em 2012. O ineditismo das proporções para esta cepa específica exige adaptação rápida dos protocolos epidemiológicos e reforço no desenvolvimento de vacinas direcionadas.
As avaliações sobre os gargalos estruturais do enfrentamento divergem. O ministro da Saúde da RDC, Roger Kamba, atribui o alto volume de mortes à chegada tardia dos pacientes aos centros de tratamento. As equipes médicas atuando no terreno relatam superlotação nas unidades, obstáculos logísticos no transporte de doentes e alto risco de contaminação entre os próprios profissionais de saúde. Organizações da sociedade civil apresentam outros aspectos para a análise. Elas utilizam a crise congolesa para tensionar a governança global da saúde, apontando a lentidão do apoio financeiro internacional diante de múltiplas crises humanitárias simultâneas no continente.
O controle da transmissibilidade, que ainda não atingiu seu pico segundo as equipes de campo, servirá de teste imediato para as agências multilaterais. O monitoramento das próximas semanas indicará se o sistema global financiará a vigilância comunitária no tempo necessário e se garantirá poder de decisão efetivo à liderança científica africana na contenção do vírus
Epidemia e contorno políticos
As regiões da República Democrática do Congo com casos da mais recente epidemia de Ebola são as de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, ao leste do país. Essas regiões são afetadas simultaneamente pela doença e pelo conflito ( que já se desenrolava previamente) o que agrava a situação na região, multiplicando os desafios de um problema que naturalmente já possui muitas complexidades. Esse conflito gera como resultado uma crise humanitária e de segurança e é causado por uma guerra que envolve grupos armados, milícias locais, o exército regular e tensões regionais, especialmente com Ruanda. Há receios de que o conflito torne o combate à epidemia mais difícil, como também que a epidemia leve a negligência com problemas causados pelo conflito (Silva et al., 2026).
Organizações da Sociedade Civil de interesse público indicam que impactos sanitários e sociais de conflitos armados, deslocamentos forçados, crises humanitárias e aumento das tensões geopolíticas causam efeitos diretos sobre sistemas de saúde fragilizados, interrupção de serviços essenciais, agravamento da insegurança alimentar e o aumento da vulnerabilidade de populações civis, especialmente mulheres e crianças. (Morais et al., 2026). A crise de segurança dificulta as medidas de combate ao vírus, porque profissionais da saúde, centros de tratamento, laboratórios, ambulâncias e rotas de abastecimento médico têm que ser defendidas de interferências militares e políticas. Mesmo com o Direito Internacional protegendo os serviços de saúde em meio a conflitos, negociações práticas são necessárias para garantir o funcionamento do aspecto legal, ou seja, é necessário dialogar com cada um dos atores que controlam um determinado território da zona de conflito. (Ehl, 2026).
Um dos desafios apontado por acadêmicos é que as populações da região são altamente móveis entre as fronteiras internacionais e geralmente isso está relacionado a casos de povos semelhantes que vivem em mais de um país, além das trocas comerciais e diferentes relações entre as populações situadas nessas divisas. Somado a isso, pessoas são frequentemente deslocadas devido aos conflitos. Ao combinar isto com incidentes de segurança envolvendo interações de saúde, desafios operacionais surgiram tais como o acesso restrito das equipes de resposta, interrupção das atividades de vigilância e resposta, além do maior risco de que não se detectem transmissões. Por isso, é reforçado que os esforços para a resposta à epidemia tem que ser capitaneados pelas lideranças locais e baseados nas próprias comunidades. Acadêmicos também enfatizam a necessidade da formulação de recomendações de saúde pública adaptadas e direcionadas para as dinâmicas de mobilidade humana na região. (Silva et al., 2026; França et al., 2026).
Quanto aos deslocados, a situação nos abrigos é muito precária, com danos nas instalações (principalmente de higiene) e infiltrações pela chuva, o que leva as autoridades e as pessoas que vivem nos abrigos a apontar a extrema dificuldade de se evitar o contágio por doenças. Segundo o Programa Mundial de Alimentos, 7,8 milhões de pessoas estão deslocadas internamente em todo o país, enquanto 26,5 milhões enfrentam insegurança alimentar aguda. Os deslocados fogem da violência causada por grupos armados que assolam a região do Leste do Congo há décadas. Outro desafio apontado pelos autores que é gerado pelo conflito é a restrição ao acesso de fontes de água segura, que andam em conjunto com as questões de saneamento e têm impacto no agravamento da crise epidêmica (Morais et al, 2026; Silva et al, 2026; Ehl, 2026).
Por fim, cabe ressaltar que a epidemia também é espaço para a consolidação do poder político dos grupos rebeldes, que disputam e controlam regiões ao longo do Leste do Congo. Eles constroem suas próprias estruturas paralelas ao Estado para consolidar a sua supremacia. Do lado do governo, se ressalta que a província de Ituri, onde estão a maior parte dos casos, se encontra sobre regime militar desde 2021, porque uma autoridade militar substituiu a civil como forma de tentativa de neutralizar os grupos armados da região (Sales, 2026). Enquanto isso, no território do grupo M-23. quando os primeiros casos em seu território foram notificados, houve intensificação dos testes e estabelecimento de uma zona de crise. Há apoio também do país Ruanda, embora o estado, rival do Congo no conflito, negue ajuda aos rebeldes. O grupo afirmou que no final de junho o surto em seu território havia sido contido. Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde tem que cooperar de forma pragmática com os grupos rebeldes. Mas há o risco que a gestão da epidemia traga retorno em forma de prestígio político para esses grupos. Além disso, há risco que um dos lados do conflito (governo ou rebeldes) busque monopolizar a ajuda humanitária. A saúde nesse meio tem que ser despolitizada, monitorada e executada.
Referências:
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