Guerra na Ucrânia: Ofensivas, Diplomacia Global e Perspectivas de Escalada

Ano V, nº 86, 10 de outubro de 2024

 

Por André Cardoso Nogueira,  Antonio Pedro Miranda, Abner Carvalho e Souza,  Flávio Rocha de Oliveira, Márcio Rocha da Silva Filho, Paulo Del Bianco Giuffrida, Tarcízio Rodrigo Melo, Roberto Tadeu da Silva, Ronaldo Galdino. (Imagem: Pixabay)

 

A guerra na Ucrânia segue em escalada, com ofensivas ucranianas em Kursk e movimentações russas no fronte leste, ampliando a tensão no conflito. Nos EUA, as eleições presidenciais criam incertezas sobre o futuro do apoio estadunidense na crise ucraniana, enquanto na Europa, o debate sobre a guerra impacta importantes eleições. O Brasil, através do discurso de abertura de Lula na ONU, defendeu a pacificação e se posicionou como possível mediador ao lado de China e Índia.

 

Novos desdobramentos da guerra russo-ucraniana

 

A guerra na Ucrânia continua a se intensificar com movimentações estratégicas em diferentes frentes, empreendida pela Ucrânia em Kursk, no fronte norte, e pela Rússia na bacia do Donets, no fronte leste.

 

A invasão Ucraniana à região de Kursk, em agosto de 2024, ao sul da Rússia, surpreendeu analistas internacionais e os meios de comunicação, complicando ainda mais uma guerra que já se aproxima de seu terceiro ano de duração. Se o governo russo esperou uma guerra rápida, isso simplesmente não aconteceu graças ao apoio da OTAN a Kiev. O ataque ucraniano mostra como uma guerra pode se alongar, tornando-se um complexo um jogo de paciência, experiência e surpresas.

 

No início de 2023, uma tentativa inicial ucraniana de retomar seus territórios ao sul foi planejada e amplamente divulgada, proporcionando tempo à Rússia para se preparar, resultando em uma operação frustrada. Agora, mais de um ano depois, a invasão de Kursk permaneceu em completo silêncio até ser efetivada, surpreendendo Moscou. 

 

Os soldados ucranianos não apenas aprenderam na prática; fontes indicam que as tropas encarregadas da operação em Kursk, junto a dezenas de vilarejos próximos, são algumas das mais bem treinadas do exército de Zelensky. Com o controle de cerca de 1.300 quilômetros quadrados do território russo, a ocupação ucraniana afeta uma área responsável por 4% da produção de grãos da Rússia, alterando rotas agrícolas e causando um prejuízo estimado em torno de 1 bilhão de dólares, segundo Alexei Smirnov, governador de Kursk. Enquanto as operações de Kiev provocam um rearranjo de forças na frente oriental da guerra, Vladimir Putin e seus generais se organizam e ampliam o conflito na frente leste.

 

A situação a leste da bacia do Donets segue preocupante para o lado ucraniano. Em agosto deste ano, diante da escalada de tensões com o avanço das tropas russas na região, as autoridades emitiram ordens de evacuação para as cidades próximas da linha de frente. Mais de 20 mil pessoas já deixaram Pokrovsk, que se tornou um alvo estratégico das tropas russas após a captura de Avdiivka em fevereiro. Com uma população de aproximadamente 70 mil habitantes, Pokrovsk era um centro industrial, com muitos trabalhadores nas minas de carvão, metalurgia e construção de maquinários

 

Nas últimas semanas, o distrito de Pokrovsk se tornou o epicentro da disputa territorial no leste da Ucrânia. A Ucrânia utiliza a malha ferroviária que atravessa a cidade para fornecer tropas, suprimentos e evacuar feridos. A perspectiva apresentada pela mídia indica que uma possível perda da região para a Rússia significaria uma grande derrota para a Ucrânia no conflito. O sucesso ucraniano, demonstrado pelo ataque de drones em Ramenskoye e a ocupação em Kursk, é contestado. Em uma declaração ao Fórum Econômico Oriental, Putin sugeriu que o objetivo de Kiev era forçar a Rússia a impedir a ofensiva em Donbass. Entretanto, ao conter grandes perdas de território, a investida do exército russo prosseguiu sem a necessidade de transferir tropas de Donbass para Kursk.

 

Se as tropas que o governo Zelensky enviou para a Kursk eram composta de soldados descansados, treinados por integrantes da OTAN nas armas fornecidas pela aliança ocidental, então é de especular que a ação, apesar de ousada, pode simplesmente ser contraproducente para a Ucrânia: as forças melhor equipadas sendo derrotadas e, no limite, destruídas, manda um sinal para os EUA e a Europa de que o momento da negociação está se aproximando e que nenhum montante de ajuda pode alterar o resultado atual do conflito. Qualquer tentativa de jogar um peso decisivo, em termos de ajuda militar, com uma possibilidade real de derrotar a Rússia pode cruzar certas linhas vermelhas envolvendo o uso de armas nucleares – e isso não é algo que os tomadores de decisão em Washington desejam.

 

Eleições Americanas: a disputa entre continuidade e negociação da guerra

 

A escalada do conflito na Ucrânia coincide com um momento de incerteza na política externa dos Estados Unidos, à medida que as eleições presidenciais se aproximam e a abordagem do próximo governo para a guerra ainda é nebulosa.

 

Os acontecimentos anteriores às eleições presidenciais dos Estados Unidos destacam a divergência entre os candidatos Donald Trump (Partido Republicano) e Kamala Harris (Partido Democrata) quanto aos planos para a atuação da política externa estadunidense na Guerra da Ucrânia, especialmente no apoio que os EUA fornece ao país. Enquanto, por um lado, Kamala Harris declara pretender continuar com o apoio econômico, militar e diplomático à Kiev empreendido por Joe Biden, Donald Trump possui uma abordagem que pode ser vista, em princípio, como isolacionista e constantemente questiona os grandes montantes financeiros dos EUA aplicados na guerra.  Ao mesmo tempo, é apresentada, pelo candidato republicano,  um plano para negociar um acordo para o fim da guerra entre a Ucrânia e a Rússia de forma rápida e baseada na cessão de parte do território para Moscou.

 

Durante o seu governo, Donald Trump estreitou laços com a Rússia e frequentemente elogiou Putin, tendo em vista que considerava (e ainda considera) a China como uma ameaça maior do que a Rússia. Além disso, recentemente Trump tem questionado o modelo de funcionamento da OTAN, especialmente pela desigualdade de gastos com defesa entre os países membros, com os Estados Unidos tendo que gastar mais do que os parceiros europeus.

 

No debate presidencial de setembro, Trump foi questionado sobre seu posicionamento em relação à vitória da Ucrânia na guerra. Ele respondeu que sua prioridade seria interromper o conflito e incentivar ambos os países a negociarem um acordo. Fontes anônimas do jornal Washington Post e especulações da mídia indicam que o ex-presidente tem a intenção de promover um acordo entre Ucrânia e Rússia, que incluiria a cessão da Crimeia e da região de Donbass para a Rússia, além de cortar o envio de ajuda militar. Publicamente, Trump afirmou que, se eleito, poderia finalizar o acordo entre os dois países em 24 horas, antes mesmo de ser eleito, embora não tenha detalhado como faria isso de maneira tão rápida. Essa postura reflete seu interesse em redirecionar a política externa dos EUA para focar nas ameaças da China, enfraquecer a dependência militar, industrial e econômica da Rússia em relação à China, e conter a expansão da OTAN.

 

O plano de Trump levanta algumas questões. O acordo beneficiaria o presidente russo, Vladimir Putin, ao ceder territórios ucranianos, e não está claro se o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, aceitaria essa proposta, principalmente sem garantias de que a Rússia não retomaria as hostilidades. No entanto, a estratégia de Trump, caso eleito, seria pressionar a Ucrânia a aceitar os termos, ameaçando reduzir a assistência militar a Kiev, o que enfraqueceria sua capacidade de continuar a guerra.

 

Esse direcionamento da política externa de Trump é reforçado pela escolha do senador de Ohio, J.D. Vance, como seu companheiro de chapa na corrida à vice-presidência. Vance é um crítico da ajuda dos EUA à Ucrânia e defende a reorientação dos esforços americanos para a Ásia Oriental, com foco especial na China. Dessa forma, caso sejam eleitos, é provável que Vance incentive Trump a manter esse redirecionamento na política externa, priorizando a contenção da China e reduzindo o envolvimento dos EUA na guerra na Ucrânia.

 

No debate presidencial mencionado, Harris declarou que manteria as políticas do governo Biden, com foco no fornecimento contínuo de ajuda militar e financeira à Ucrânia, além de garantir o apoio incondicional aos aliados da OTAN. A candidata tem uma relação mais próxima com Zelensky,  com quem se encontrou em diversas ocasiões, como na Conferência de Segurança de Munique, e tem denunciado repetidamente a Rússia desde a invasão. Durante seu discurso, Harris elogiou o trabalho do governo Biden e ressaltou a importância da OTAN para assegurar que a Ucrânia continue a lutar por sua independência, destacando que isso não seria possível se Trump ainda fosse presidente.

 

As eleições nos EUA têm gerado impactos na Ucrânia. Para o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento ucraniano, Oleksandr Merejko, as políticas de Trump são, em grande parte, retórica, embora ele reconheça a posição vulnerável da Ucrânia devido à sua dependência da ajuda americana. Embora Zelensky não tenha se pronunciado sobre o debate, ele se reuniu em Kiev com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e o chanceler do Reino Unido, David Lammy, buscando apoio para usar armas ocidentais na intensificação dos ataques contra a Rússia. Isso ocorreu em um momento de avanços russos no leste, estagnação da contraofensiva em Kursk e bombardeios em várias partes da Ucrânia, apesar da preocupação de que a Rússia possa interpretar essa ofensiva como um envolvimento direto da OTAN no conflito, o que poderia levar a uma escalada entre a aliança ocidental e Moscou.

 

Recentemente, Zelensky se reuniu separadamente com Kamala Harris e Donald Trump, após a Assembleia Geral da ONU em Nova York, com o objetivo de garantir apoio bipartidário dos EUA para encerrar a guerra por meio de um acordo “justo”, evitando um possível distanciamento norte-americano em caso de mudança na presidência. Durante o encontro, Harris reiterou seu apoio irrestrito à Ucrânia, afirmando que o país deve prevalecer no conflito e ressaltou que propostas de paz que envolvem a cessão de territórios ucranianos são, na verdade, “propostas de rendição”. Por outro lado, Trump mencionou seu bom relacionamento tanto com Zelensky quanto com Putin, e declarou que, se vencesse as eleições, resolveria a guerra rapidamente, mantendo a visão comum de que o conflito precisa ser interrompido o quanto antes.

 

O efeito da guerra na Ucrânia nas eleições europeias

 

A guerra em curso na Ucrânia não apenas impacta a dinâmica política nos Estados Unidos, como também afeta as eleições europeias. Ao longo deste ano, diversas eleições em nível federal e regional na Europa mobilizaram o debate público sobre a Guerra na Ucrânia. Partidos políticos se posicionaram em relação ao apoio que seus países têm dado à Ucrânia e aos custos internos associados, tanto em termos de ajuda militar e humanitária quanto em relação ao aumento do custo de vida resultante das sanções contra o gás russo. É importante lembrar que este ano já ocorreram maiores tensões sobre o tema dentro da União Europeia, especialmente após uma tentativa de assassinato contra o primeiro-ministro de esquerda da Eslováquia, Robert Fico, que ele atribui à sua posição anti-Ucrânia, manifestada em suas políticas de encerramento do apoio militar à Ucrânia e à sua entrada na OTAN, além de se opor às sanções contra a Rússia.

 

Dentre as eleições que merecem mais destaque sobre essa questão, o caso da Alemanha se sobressai, sendo o segundo maior doador de ajuda militar e financeira à Ucrânia. As eleições regionais nos estados de Brandemburgo, Turíngia e Saxônia tiveram como um dos temas centrais o apoio concedido pelo país à Ucrânia, com tantos partidos pró-Rússia de extrema-direita (AFD – Alternativa pela Alemanha) e esquerda (BSW – Aliança Sahra Wagenknecht) atingindo grandes ganhos eleitorais. Para dimensionar a questão, na Turíngia a AFD e o BSW ficaram com 32% e 15% dos votos respectivamente, e na Saxônia a AFD teve 30% dos votos e o BSW com 11%. No seu manifesto eleitoral, a BSW afirma que a guerra gera instabilidade e responsabilizam a OTAN pela guerra, defendendo a necessidade de integrar a Rússia na arquitetura de segurança europeia, a AFD adota posição similar de responsabilização da guerra na OTAN e nos EUA e pede o fim do apoio militar e financeiro à Ucrânia. Esta questão vem cada vez pressionando mais o governo alemão, tanto que recentemente o primeiro ministro Olaf  Scholz comentou sobre a possibilidade de se chegar a um acordo com a Russia para o fim da guerra.

 

Outras duas eleições no qual o tema da Ucrânia também foi pauta dos debates políticos foram na França e na União Europeia. Nas eleições legislativas francesas, Marine Le Pen, líder do partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional, afirmou que se seu partido conseguisse obter a posição de primeiro ministro, ele impediria a utilização de armas de longo alcance francesas por parte dos ucranianos contra a Rússia e se opôs fortemente à declaração do presidente Emmanuel Macron de colocar tropas da França na guerra. Em contraste com as situações mencionadas, o recém-eleito parlamento europeu reafirmou seu comprometimento e apoio à Ucrânia, aprovando uma resolução, por 495 votos a favor, defendendo o confisco de ativos russos e sua transferência para o governo de Kiev, além de reiterar o comprometimento em continuar o processo de adesão da Ucrânia à OTAN e criticar a visita do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, à Rússia, demandando represálias contra a Hungria.

 

Atuação brasileira na pacificação da guerra

 

Para além do futuro instável da política externa estadunidense e do posicionamento de partidos de vários países europeus quanto à guerra na Ucrânia, o Brasil têm se posicionado como um importante ator propondo, internacionalmente, a resolução do conflito.

 

Na abertura da 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, fez um discurso abrangente, defendendo mudanças estruturais na ONU e destacando a importância de enfrentar diversas crises globais, com ênfase na crise na Ucrânia. Lula criticou a prioridade dada pelos governos ao aumento dos gastos com armamentos e equipamentos militares, que cresceram pelo nono ano consecutivo, em detrimento das ações de combate às mudanças climáticas, que, por sua vez, têm sido cada vez mais negligenciadas.

 

Ao abordar a guerra na Ucrânia, o presidente brasileiro alertou sobre o risco de o conflito se expandir, especialmente devido ao seu prolongamento sem perspectivas de paz. Além de reiterar a condenação do Brasil à invasão da Ucrânia, Lula reforçou sua visão de que os esforços militares e destrutivos não contribuem para que as partes alcancem seus objetivos. Ele defendeu a retomada do diálogo como caminho para a pacificação, mencionando os “Entendimentos Comuns entre a China e o Brasil sobre a Solução Política da Crise na Ucrânia”, visando ao fim das hostilidades. 

 

O presidente Zelensky, por seu turno, criticou fortemente as propostas de Brasil e China. Para ele, Brasília e Beijing fazem parte do jogo da Rússia no sentido de prejudicar a Ucrânia.

 

Em consonância com o discurso brasileiro, no Fórum Econômico Oriental, realizado na Rússia neste ano, Vladimir Putin sugeriu que o Brasil, juntamente com China e Índia, poderia atuar como mediador em negociações de paz entre Rússia e Ucrânia. Putin enfatizou que a Rússia nunca se recusou a negociar, mas que as negociações devem ser nos termos russos, destacando a importância da neutralidade militar da Ucrânia, uma vez que a possível filiação do país à OTAN é vista como uma ameaça pela Rússia – sendo um dos motivos alegados pelo Kremlin para a invasão à Ucrânia. Putin também mencionou que acordos para uma solução pacífica foram discutidos e assinados em Istambul, em 2022, mas foram posteriormente rejeitados pela Ucrânia.

 

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