As visões da Imprensa Brasileira sobre narcoterrorismo, securitização e soberania nacional

Ano VII, nº 122, 10 de Abril de 2026

       

Por Ana Júlia Moura, Bruno Fabricio Alcebino da Silva, Lígia Akemi Kushioyada e Maria Clara de Faria Lima (Imagem: Fotos Públicas. Foto: @SecWar. Departamento de Guerra dos EUA realizou três ataques cinéticos letais contra quatro embarcações operadas por Organizações Terroristas Designadas (DTO) que traficavam narcóticos no Pacífico Oriental.)

     

O termo “narcoterrorismo” voltou a ser fortemente debatido no Brasil, impulsionado por iniciativas dos Estados Unidos e por disputas políticas internas. Mas o que está realmente em jogo nessa classificação? Entre segurança, direito e soberania, a imprensa brasileira apresenta diferentes interpretações sobre o tema.

   

Contextualização   

       

Nos últimos anos, Washington tem ampliado a estratégia de enquadrar cartéis e redes transnacionais de tráfico de drogas como organizações terroristas. Em novembro do ano passado, o governo de Donald Trump classificou o chamado Cartel de los Soles como organização terrorista. Segundo o governo estadunidense, o grupo, que estaria ligado a redes de narcotráfico na Venezuela, seria liderado pelo então presidente Nicolás Maduro, acusação negada reiteradamente pelo governo venezuelano. Meses depois, em 3 de janeiro, forças militares norte-americanas realizaram uma operação de grande escala em território venezuelano, que resultou na captura de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. A ação representou uma escalada significativa na crise entre Washington e Caracas, consolidando o discurso norte-americano de combate ao chamado “narcoterrorismo” na região. Na esteira desses acontecimentos, autoridades norte-americanas passaram a discutir a possibilidade de incluir facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), em listas de organizações terroristas estrangeiras, o que gerou grande preocupação diplomática no governo brasileiro e reacendeu o debate interno.

        

Nesse quadro, é importante ressaltar os detalhes em torno desse tipo de classificação, que ainda é objeto de intenso debate jurídico e político no Brasil. Em termos gerais, o termo busca descrever situações em que organizações ligadas ao tráfico de drogas utilizam táticas típicas do terrorismo, como violência indiscriminada, intimidação social ou ataques contra instituições do Estado, para proteger ou expandir suas atividades. Essa definição contrasta fortemente com o modus operandi das organizações criminosas brasileiras, que têm atuação voltada sobretudo à obtenção de lucro por meio do tráfico de drogas, à conquista de territórios, bem como ao controle e à ampliação de suas zonas de influência. Assim, essa definição ainda permanece controversa segundo a legislação brasileira e boa parte da literatura jurídica, que pressupõem motivações ideológicas ou políticas para atos de terrorismo, algo que normalmente não caracteriza o funcionamento das facções do país.

        

Mais recentemente, no contexto brasileiro, essa disputa em torno do conceito de “narcoterrorismo” revela uma intensa guerra narrativa e jurídica. Setores mais conservadores da política e da segurança pública defendem a ampliação do conceito para enquadrar grandes facções como grupos terroristas, enquanto setores progressistas argumentam que essa classificação é inadequada, um alongamento conceitual potencialmente perigoso que mistura crime organizado e terrorismo de forma imprecisa e com graves consequências. A adoção desse enquadramento poderia abrir espaço para mudanças profundas nas políticas de segurança, ampliar instrumentos excepcionais de repressão e, no plano internacional, legitimar pressões externas ou intervenções sob o pretexto de combate ao terrorismo. Nesse sentido, o debate sobre o narcoterrorismo passa a envolver não apenas a definição do fenômeno criminal, mas também questões sensíveis de soberania e autonomia na formulação das políticas de segurança pública brasileiras.

       

Combate ao narcoterrorismo como cooperação estratégica 

        

Na imprensa alinhada à direita, representada por veículos como Revista Oeste, Crusoé e O Antagonista, a adoção do termo “narcoterrorismo” é defendida como uma atualização necessária e pragmática diante do colapso da segurança pública. Para esses portais, as facções criminosas extrapolaram a esfera do crime comum, atuando com domínio territorial e poderio bélico que desafiam o monopólio da força do Estado. Essa urgência se reflete no plano doméstico, quando veículos repercutem ativamente o projeto do deputado Coronel Meira (PL-PE), que propõe ampliar o crime de terrorismo, visando incluir as facções na tipificação penal. A narrativa ganha ainda mais força ao ecoar declarações de autoridades locais, como o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que cravou que o cenário enfrentado pelo Estado “não é mais crime comum, é narcoterrorismo”.

        

No âmbito internacional, essa vertente midiática enxerga a influência estadunidense não como uma ameaça intervencionista, mas como um pilar de cooperação estratégica contra uma ameaça transnacional. A mídia de direita reporta, com tom de alerta e de aprovação, as denúncias de narcoterrorismo nas Américas e a necessidade de alinhar o Brasil aos esforços ocidentais. Quando os EUA lançam uma nova operação contra o narcoterrorismo na América Latina ou quando o consulado dos EUA convoca a luta contra o narcoterrorismo, esses eventos são enquadrados como oportunidades de combate efetivo a redes que o Brasil, isoladamente, não tem conseguido desmantelar. Sob essa ótica, o crime organizado já colocou a verdadeira soberania em xeque.

         

Além disso, Revista Oeste e Crusoé dedicam amplo espaço para criticar a postura reativa da esquerda. A imprensa conservadora apontou que a recusa por parte do governo em tipificar as facções e aceitar a gravidade do problema deixa a segurança em segundo plano. Para os veículos de direita, a rejeição ao termo sob a justificativa de defesa da soberania nacional acaba, na prática, blindando a impunidade do crime. Assim, o debate sobre o narcoterror torna-se não apenas um diagnóstico sobre a segurança pública, mas um instrumento claro de clivagem política contra a esquerda.

        

A pluralidade conceitual diante do narcoterrorismo 

        

Os meios de comunicação alinhados ao centro político, representados pelo jornal Folha de S.Paulo, adotam uma postura mais crítica e de amplo pluralismo de opiniões. Com referências ao conceito de “narcoterrorismo”, o veículo abordou a temática com pareceres divergentes em editoriais e colunas de opinião, além das notícias oficiais. Um dos editoriais apresentados pelo jornal demonstra um posicionamento contra a classificação das principais facções criminosas, PCC e CV, como organizações terroristas. A posição da “Folha” indica que o uso do termo poderia servir de pretexto para uma futura intervenção internacional, ferindo a soberania nacional e tornando-a refém das demais nações, principalmente das estadunidenses. 

         

Em contrapartida, em texto do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Partido Novo) publicado pelo veículo, foi afirmado que as facções criminosas brasileiras devem ser consideradas como organizações terroristas devido às complexidades das estruturas internas e aos crimes envolvidos. Uma vez que a classificação seja imposta, o político defende a intervenção das Forças Armadas para garantir a segurança pública e a possível intervenção de instituições necessárias ao controle. 

         

A Folha não adota uma posição única no debate, mas também não se exime dele, ao publicar simultaneamente um editorial contra e um artigo de opinião a favor da classificação. O jornal estabelece o narcoterrorismo como um tema de controvérsia legítima, com os limites do debate definidos pelo pluralismo presente em suas páginas.

      

Narcoterrorismo como risco à soberania nacional  

         

Ao analisar a decisão dos EUA de designar organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho como alvos no combate ao “narcoterrorismo”, o Le Monde Diplomatique e o Brasil de Fato identificam que a estratégia dos EUA é deslocar o arcabouço local e político, retirando-o do âmbito doméstico e inserindo-o no campo da segurança nacional. Dessa forma, o combate ao tráfico de drogas é enquadrado no espectro da Guerra ao Terror, a fim de legitimar intervenções militares e ações unilaterais na América Latina. 

          

Contudo, apesar do governador bolsonarista Cláudio Castro (PL-RJ) ter justificado as ações policiais contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro sob o pretexto de combate ao “narcoterrorismo” e da existência do Projeto de Lei 5582/2025 que busca equiparar organizações criminosas a grupos terroristas, os veículos argumentam que o termo é inadequado ao caso brasileiro. Na leitura dos periódicos, a motivação do crime organizado nacional é predominantemente econômico-financeira, e não ideológico-política, como nos casos clássicos de terrorismo. Ao equipará-los, os jornais entendem que o conceito é banalizado e pode criar um “terreno fértil para abusos legais, retrocessos institucionais e violações dos direitos humanos”, facilitando intervenções externas e interferências na soberania nacional. 

          

Segundo o Le Monde Diplomatique e o Brasil de Fato, a estratégia norte-americana é clara: securitizar os problemas sociais nacionais a fim de legitimar ações militares nos países vizinhos e reafirmar a posição dos EUA como o “parceiro econômico e securitário prioritário dos países americanos”. Por meio da Estratégia de Segurança Nacional, lançada em novembro, os EUA reforçariam o objetivo de desmantelar redes de narcoterrorismo e colocariam a América Latina como uma variável crítica, associando-a a crimes transnacionais e a instabilidade. Nesse contexto, através do discurso político MAGA (Make America Great Again), Donald Trump tornou o combate ao “narcoterrorismo” um eixo central em seu governo, podendo utilizá-lo, na interpretação dos veículos, como fundamento político e cortina de fumaça para ampliar a presença estadunidense na região. 

         

Os jornais apontam a retomada da Doutrina Monroe (1823), agora classificada como Doutrina Donroe, como justificativa para intervir e invadir países latino-americanos a fim de supostamente protegê-los, quando os verdadeiros interesses estadunidenses, na leitura dos periódicos, são econômicos e geopolíticos, como no caso da Venezuela, que concentra a maior reserva de petróleo do mundo. A mídia de esquerda brasileira alerta para o risco à soberania nacional e reforça a incoerência do uso da classificação do crime organizado como “narcoterrorismo”, visto que o próprio Itamaraty reconhece como terroristas apenas as organizações também reconhecidas pelo Conselho de Segurança da ONU.

       

Considerações finais

         

A partir da análise de reportagens e notícias veiculadas na imprensa brasileira, é possível identificar duas visões predominantes: o alerta às investidas militares dos EUA e o alinhamento à classificação de narcoterrorismo proposta. Jornais como Le Monde Diplomatique e Brasil de Fato alertam para o risco à soberania nacional com o evidente apoio dos políticos bolsonaristas à visão trumpista, enquanto revistas como Crusoé, O Antagonista e Oeste noticiam não o risco, mas a oportunidade de colaboração com os EUA, demonstrando o alinhamento aos EUA defendido pela ala política de direita. 

A análise da cobertura revela que o debate sobre o narcoterrorismo funciona, na imprensa brasileira, como um espelho das clivagens políticas domésticas: a direita mobiliza o termo como argumento de segurança pública e instrumento de ataque à esquerda; a esquerda o rejeita como vetor de intervenção externa e alongamento conceitual perigoso; e o centro reconhece a controvérsia sem resolvê-la. Em todos os casos, a disputa sobre a palavra precede e estrutura a disputa sobre a política. Esse padrão reforça a pertinência de uma agenda sistemática de monitoramento da cobertura da política externa brasileira.

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